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Jornalistas da RPC denunciam pressão política e ameaças salariais em reuniões internas

Jornalistas da RPC, afiliada da TV Globo no Paraná, denunciaram possíveis episódios de assédio eleitoral dentro da redação. Segundo reportagem publicada originalmente pelo jornal Plural, de Rogério Galindo, funcionários teriam sido convocados para reuniões com gestores e recebido alertas de que a manutenção de empregos e os salários para o próximo ano dependeriam, entre outros fatores, do resultado das eleições presidenciais de 2026.

De acordo com o documento obtido, as reuniões teriam sido marcadas por declarações de cunho político e ameaças de perdas salariais. Entre os pontos relatados estão possíveis reduções de remuneração associadas às mudanças na jornada de trabalho, com estimativas de perdas de até 30% para profissionais da redação e 60% para repórteres de rua e cinegrafistas.

O documento também relata que os funcionários teriam sido orientados a não contar com o pagamento da participação nos lucros. Segundo o Plural, o material teria sido encaminhado ao Ministério Público do Trabalho (MPT).

Quando a pressão no trabalho vira assédio eleitoral?

Nasser Ahmad Allan, advogado e sócio-fundador do GASAM Advocacia. Foto: Reprodução

Para Nasser Ahmad Allan, advogado especialista em direito dos trabalhadores, sócio-fundador do GASAM Advocacia e membro do Instituto Declatra, a proximidade do segundo turno pode intensificar esse tipo de prática.

“Com a proximidade do segundo turno é muito possível que se intensifiquem as práticas de assédio eleitoral.”

O advogado explica que a prática não se limita a uma ordem explícita para votar em determinado candidato. Ela também pode ocorrer por meio de pressões indiretas, ameaças e constrangimentos que interfiram na liberdade de escolha política dos trabalhadores.

“O assédio eleitoral pode ser compreendido como qualquer forma de constrangimento por parte dos empregadores ou seus prepostos à liberdade de consciência política dos trabalhadores, buscando direcionar o voto ou pressionar por manifestações políticas de apoio a um determinado candidato.”

Além disso, Nasser ainda afirma que a relação de poder entre empregador e empregado torna esse tipo de situação especialmente preocupante, já que o receio de perder o emprego ou parte da renda compromete em muito a expressão política dos trabalhadores.

“Esse constrangimento pode ser sutil ou mesmo se dar de forma escancarada, traduzindo-se numa espécie de pressão psicológica mediante ameaça de futura perda na remuneração ou do emprego.”

Foto: Reprodução/ MPEC Advocacia

A avaliação é compartilhada por Cristiane Pereira, advogada sócia-fundadora do MP&C Advocacia. Para ela, associar a manutenção do emprego e da remuneração ao resultado eleitoral constitui uma forma de pressão que não pode ser dissociada da relação de poder entre empregador e trabalhador.

“Quando a manutenção do emprego, do salário ou da participação nos lucros passa a ser associada ao resultado de uma eleição, a mensagem dirigida ao trabalhador é inequívoca, ainda que venha travestida de previsão econômica.”

Cristiane destaca que a relação de trabalho não dá ao empregador o direito de interferir nas convicções políticas de seus funcionários.

“O contrato de trabalho compra a força de trabalho, não a consciência política de quem a presta.”

A advogada também chama a atenção para os efeitos coletivos do assédio eleitoral e para a importância de denunciar essas práticas.

“Por isso, o assédio eleitoral não lesa apenas o empregado constrangido. Ele atinge toda a coletividade, porque compromete a formação livre da vontade do eleitor. E o silêncio que costuma se seguir às denúncias acaba funcionando como incentivo à repetição. Levar o caso ao Ministério Público do Trabalho é proteger o trabalhador e a própria democracia.”

O Ministério Público do Trabalho reconhece como possíveis formas de assédio eleitoral as ameaças de prejuízo ao emprego ou às condições de trabalho usadas para influenciar o voto ou a manifestação política de trabalhadores. A caracterização de cada caso depende da análise das circunstâncias e das evidências.

Sindicato relata contato com o Ministério Público do Trabalho

Procurado pelo Plural, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná informou que ainda não havia recebido uma denúncia formal dos trabalhadores, mas que já tinha conhecimento informal do caso e havia entrado em contato com o Ministério Público do Trabalho.

O sindicato também orientou que eventuais denúncias fossem encaminhadas à entidade ou ao próprio MPT.

A liberdade de consciência política e o direito ao voto livre não deixam de existir dentro do ambiente de trabalho. Quando ameaças profissionais são usadas para tentar influenciar escolhas políticas, o caso ultrapassa os limites de uma divergência e exigir investigação.

O que diz a RPC

Em comunicado interno, a RPC classificou como “absurdas” as notícias divulgadas por sites sobre a empresa. Sobre as mudanças na legislação relacionadas à jornada de trabalho, informou que estava estudando as novas regras e que a lei seria cumprida.

 

Com informações da reportagem de Rogério Galindo, publicada originalmente pelo jornal Plural.

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