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Mulheres antifeministas tiveram mais de 6,5 milhões de votos nas eleições

A soma dos votos de seis parlamentares eleitas em 2026 que se apresentam publicamente como antifeministas chega a 6.567.484 votos. O grupo é formado por Caroline de Toni, Bia Kicis, Eduarda Campopiano, Julia Zanatta, Ana Campagnolo e Chris Tonietto, todas eleitas pelo PL. Caroline recebeu 2.694.918 votos para o Senado por Santa Catarina; Bia, 886.616 para o Senado pelo Distrito Federal; Eduarda, 1.956.238 para a Alesp; Julia, 560.223 para a Câmara por Santa Catarina; Ana, 387.523 para a Assembleia catarinense; e Chris, 81.966 para a Câmara pelo Rio de Janeiro.

Eduarda Campopiano: a maior votação do grupo

O caso de maior repercussão em 2026 é o de Eduarda Campopiano, de 23 anos. A vereadora de Praia Grande foi eleita deputada estadual em São Paulo com 1.956.238 votos, a maior votação para a Alesp. Durante a campanha, declarou: “sou do PL, sou uma mulher conservadora, antifeminista”. Depois da eleição, afirmou que a guerra contra as feministas só começou.

Sua agenda combina oposição ao feminismo com uma plataforma conservadora baseada em “Deus, pátria, família e liberdade”. Campopiano defende a oposição ao aborto em todas as circunstâncias e afirma que vai criar mecanismos de apoio para gestantes que desistam do procedimento. Também se posiciona contra o projeto de criminalização da misoginia, contra cotas raciais e contra a transformação da prostituição em profissão regulamentada.

A ascensão política de Campopiano ocorreu principalmente por meio da comunicação digital. Antes de chegar ao Legislativo estadual, ela já havia construído audiência nas redes, passado por veículos de comunicação e participado de podcasts.

Caroline de Toni: antifeminismo associado à oposição ao governo e ao Judiciário

Caroline de Toni obteve a maior votação individual entre as seis: 2.694.918 votos, equivalentes a 33,46% dos votos válidos de Santa Catarina, e foi eleita senadora.

Sua atuação política combina pautas de costumes com uma agenda mais ampla de oposição à esquerda e de defesa de maior autonomia dos pais. Em 2026, apresentou o PL 2.577/2026, que concede anistia a pais responsabilizados por praticar homeschooling, e o PL 5.168/2026, que regulamenta a educação domiciliar e prevê liberdade pedagógica e um regime simplificado de declaração. Seu programa também defende redução de impostos, direito de propriedade, liberdade religiosa, oposição ao aborto e limites ao ativismo judicial.

Bia Kicis: família, educação e oposição à agenda de gênero

Eleita senadora pelo Distrito Federal com 886.616 votos, Bia Kicis tornou-se uma das duas vencedoras da disputa para o Senado no DF.

No campo de costumes, Kicis é uma das principais vozes da oposição à chamada “ideologia de gênero”. Em discurso na Câmara, afirmou que o termo “gênero” estaria associado a uma agenda de desconstrução da família e defendeu que as normas públicas utilizassem o sexo biológico como referência.

Julia Zanatta: “antifeminista” como identidade eleitoral

Julia Zanatta foi reeleita deputada federal por Santa Catarina com 560.223 votos, novamente como a candidata mais votada do estado para a Câmara. Ela própria já declarou que se define como antifeminista e chegou a incorporar essa identidade à sua comunicação política depois de ser criticada por adversários.

Entre suas principais bandeiras estão a defesa da vida desde a concepção, oposição à flexibilização do aborto, defesa da autoridade dos pais na educação, combate ao que chama de “ideologia de gênero” e oposição a políticas de cotas voltadas a pessoas trans. Também defende anistia para condenados pelos atos de 8 de janeiro, liberdade econômica e resistência ao que classifica como censura.

Ana Campagnolo: do ativismo digital à maior votação da Alesc catarinense

Ana Campagnolo foi reeleita deputada estadual em Santa Catarina com 387.523 votos, novamente como a mais votada para a Assembleia Legislativa. Sua trajetória é uma das mais antigas do grupo: ela se tornou conhecida ainda antes de sua primeira eleição por discursos contra o feminismo, pelo ativismo nas redes e pela defesa do movimento Escola sem Partido.

Seu discurso é centrado na defesa de uma concepção tradicional de família, maternidade e papéis sociais. Em 2026, defendeu o projeto “Minha Família, Minhas Regras”, voltado a garantir aos pais maior poder de decisão sobre a participação dos filhos em atividades escolares consideradas incompatíveis com seus valores religiosos ou morais.

A força eleitoral de Campagnolo está diretamente relacionada à construção de uma audiência própria. Em 2022, ela relatava já possuir mais de 2 milhões de seguidores somados nas principais redes e dizia que seus livros sobre antifeminismo haviam vendido mais de 100 mil exemplares.

Chris Tonietto: ultraconservadorismo católico e pauta antiaborto

No Rio de Janeiro, Chris Tonietto foi reeleita deputada federal com 81.966 votos. Estudos sobre sua atuação classificam o antifeminismo como parte central de sua identidade política, especialmente pela oposição ao aborto e pela vinculação com setores do ultraconservadorismo católico.

Em sua própria apresentação política, Tonietto coloca quatro pilares no centro do mandato: defesa da vida, autoridade da família, liberdade religiosa e segurança pública. Entre seus projetos estão o Estatuto do Nascituro, propostas relacionadas à educação domiciliar e iniciativas de proteção da infância. Ela também foi autora do PDL 3/2025, que buscou sustar diretrizes do Conanda referentes ao aborto em crianças e adolescentes nos casos previstos em lei.

O que há em comum entre essas candidaturas?

Apesar das diferenças de trajetória, existe um padrão na comunicação política desse grupo. O feminismo é frequentemente apresentado como parte de uma agenda maior atribuída à esquerda, ao lado de temas como “ideologia de gênero”, educação sexual, políticas de identidade, aborto, linguagem neutra e, em alguns casos, críticas ao PT, ao governo Lula e ao ativismo judicial.

Pesquisas acadêmicas sobre o fenômeno apontam que o antifeminismo contemporâneo brasileiro não funciona apenas como rejeição ao feminismo. Ele costuma ser articulado a família, maternidade, religião, anticomunismo, oposição cultural à esquerda e uma concepção tradicional dos papéis de homens e mulheres. A literatura especializada também relaciona o crescimento dessa linguagem à popularização das redes sociais e à formação de comunidades políticas em torno de conteúdos de costumes.

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