Comissão conclui que JK pode ter sido executado pela ditadura
A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) deve votar nas próximas semanas um relatório que aponta que o ex-presidente Juscelino Kubitschek teria sido vítima de uma ação da ditadura militar em 1976, contrariando a versão oficial mantida há décadas de que sua morte ocorreu em um acidente de trânsito na Via Dutra.
O documento, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, sustenta que há elementos suficientes para reconhecer responsabilidade do Estado brasileiro no episódio, ocorrido em agosto daquele ano, quando o carro em que JK viajava colidiu após perder o controle da direção.
O parecer está em análise pelos integrantes da comissão e reúne mais de 5 mil páginas entre estudos, anexos e investigações anteriores. A expectativa nos bastidores é de aprovação pela maioria dos conselheiros.
O caso voltou a ser debatido após a comissão decidir reexaminar a morte do ex-presidente, a poucos meses de completar cinco décadas do episódio que marcou a história política do país.
O relatório utiliza como principal base um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019. A investigação descartou a hipótese de colisão entre o Opala de JK e um ônibus da viação Cometa, tese sustentada por laudos oficiais durante a ditadura e posteriormente repetida pela Comissão Nacional da Verdade.
O MPF também identificou falhas nas perícias da época e apontou inconsistências técnicas em exames utilizados para validar a versão de acidente.
Um dos pontos centrais do novo entendimento é o estudo do engenheiro Sergio Ejzenberg, especialista em transportes, que revisou laudos antigos e concluiu que não houve impacto entre os veículos antes de o carro sair da pista. A análise técnica ainda questiona diretamente as conclusões adotadas em investigações anteriores.
O documento também destaca o contexto político vivido por JK nos anos de repressão militar. Cassado após o golpe de 1964 e ligado à Frente Ampla, grupo de oposição ao regime, o ex-presidente era visto como uma liderança influente em meio ao avanço da Operação Condor na América do Sul.
Caso o parecer seja aprovado, a comissão poderá recomendar a alteração da certidão de óbito de JK e de seu motorista, Geraldo Ribeiro, para registrar que as mortes ocorreram em razão de perseguição política promovida pelo Estado brasileiro.
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