Marina Marreiro e seus vizinhos de cada uma das sete ruas da Vila União, no bairro Tatuquara, em Curitiba, sabem, semana a semana, o que é ficar sem água em casa.
Um problema que abre dois debates: por que a falta de água alcança os bairros periféricos com mais frequência?
E por que as ocupações realizadas no período da pandemia de Covid-19 não têm acesso ao serviço e à conta da Sanepar? Deixando cerca de 700 famílias passando até uma semana sem esse bem essencial.
“Lavar a louça, limpar a casa, tomar banho. Minha vizinha tem criança, muita gente não tem onde armazenar água. A gente cede água para se ajudar, mas a falta de água é muito difícil. Já chegamos a ficar uma semana sem água”, narra Marreiro.
As áreas de ocupação irregular, ocorridas a partir da pandemia de Covid-19, em 2020, reúnem territórios como Guaporé 2, 29 de Janeiro, 4 de Novembro, Pantanal, Vila União e Pontarolla – passando por bairros do Campo Comprido ao Uberaba e Tatuquara. São locais que não têm acesso ao serviço de água e saneamento, a não ser de maneira precária, o que causa graves impactos na vida familiar e no cotidiano de famílias, em especial aquelas com grande quantidade de filhos.
Essa situação traz a pauta da instalação de registro nas casas, mesmo que provisório, com pagamento individual ou comunitário de conta. As famílias não podem prescindir de um serviço tão essencial como esse. O Ministério Público do Paraná, em documento assinado pela promotora Alien Bilek Bahr, da Promotoria de Justiça, de Habitação e Urbanismo de Curitiba, em setembro de 2025, aponta de forma nítida que cabe ao município fornecer o serviço mesmo se a situação fundiária não estiver definida:
“CONSIDERANDO as diretrizes Plano Municipal de Saneamento Básico de Curitiba, que preceitua a ‘Elaboração de mecanismos para atender com abastecimento de água as áreas de ocupação irregular, enquanto não existirem projeto de realocação ou regularização fundiária’ (Ponto 9, Tópico 7.1 do Volume II do Plano Setorial de Saneamento Básico);”
Bairros periféricos são mais atingidos pelo desabastecimento?
Em Curitiba, moradores da periferia têm relatado de forma permanente a falta de água em bairros periféricos. Regionais como Tatuquara, CIC e Boqueirão, em especial, têm enfrentado semanalmente a falta de água.
“A gente fica impossibilitada muitas vezes até de ir ao banheiro, a gente ficar sem água é terrível, perde totalmente o controle de tudo”, afirma Marreiro.
Em que pese oficialmente a captação de água em Curitiba e RMC estar abaixo do esperado, em meio ao contexto de uma preocupante crise climática, lideranças acusam uma seletividade e recorte de classe social na interrupção de fornecimento. Isso porque os bairros periféricos são os primeiros a serem atingidos. E os últimos a terem o serviço interrompido de volta.

Em reunião entre Defensoria Pública do Estado, quadro técnico da Sanepar e o mandato da deputada estadual Ana Julia (PT), junto com representantes de quatro comunidades urbanas de Curitiba, foi apresentada justamente uma pauta com essas questões para a empresa pública. A reunião foi considerada produtiva, no sentido de uma avaliação comum de que água regularizada incrementaria a receita da empresa pública e evitaria desperdícios em tempos de racionalização do uso da água. “Não nos negamos a pagar. Vamos lutar por isso”, complementa a moradora do Tatuquara.
Entre os casos concretos de desabastecimento, está a vila Pantanal, no Alto Boqueirão, onde a rua 13 tem enfrentado há meses o problema da falta de água, o que afeta, no mínimo, 170 pessoas que habitam a rua.
Além disso, entre os dias 14 a 16 de março, os moradores do bairro Tatuquara foram afetados pela falta de água.
Durante a reunião, a Sanepar não reconhece seletividade no corte de abastecimento nos bairros periféricos, afirmando que o problema estaria na retomada do serviço, que se dá de forma lenta e demora mais para chegar aos locais distantes.
“O desabastecimento acontece em diversos bairros, até voltar à pressão normal, as redes são preenchidas lentamente, sobretudo nos bairros mais distantes”, justificou em reunião a Sanepar.
Mudança de regulamentação é necessária
No indicativo da diretoria da Sanepar, a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná (Agepar), responsável pela regulamentação e normas do atendimento, teria a tarefa de alterar a normativa em nome do serviço nas áreas de ocupação.
Anteriormente a 2005, antigas ocupações tinham acesso ao serviço de água, porém neste ano foi criada nova regulamentação, proibindo a instalação do relógio em áreas de ocupação irregular. É necessário, de toda a forma, que determinação judicial pressione o município para resolver o problema.
Ainda que, de fato, algumas áreas irregulares estejam localizadas em Áreas de Preservação Ambiental, a própria empresa reconhece os malefícios da irregularidade do serviço, da perda de água com as ligações “gato”.
Da parte das comunidades, a vontade é extrema para garantir esse serviço essencial, mesmo que pago, o que é melhor do que os dias quando as ocupações passam com corte de água. Para isso, a partir de liminar judicial, é fundamental que os municípios deem anuência para a instalação do serviço.
“Todo dia acaba a água aqui na rua 5. Todo dia. Não dá nem para tomar banho, é um sofrimento, para cozinhar, lavar uma roupa, é todo dia”, lamenta Elvis, morador da Vila União, no bairro Tatuquara, que mora ali com a esposa.
Para que casos como esses não se repitam, as soluções começam a se apresentar.
Trechos do documento Recomendação Administrativa Número 001/2025-P JHU
“CONSIDERANDO que o Plano Municipal de Saneamento Básico de Curitiba, revisado no ano de 2024, pretende atender 100% do Município até o ano de 2048 (tópico 8.2.1 do Volume II do referido instrumento);”
“CONSIDERANDO as diretrizes Plano Municipal de Saneamento Básico de Curitiba, que preceitua a “Elaboração de mecanismos para atender com abastecimento de água as áreas de ocupação irregular, enquanto não existirem projeto de realocação ou regularização fundiária” (Ponto 9, Tópico 7.1 do Volume II do Plano Setorial de Saneamento Básico);”
“CONSIDERANDO que a SANEPAR tem se negado a promover qualquer melhoria de saneamento básico em áreas irregulares, consolidadas ou não, amparada pela seguinte previsão da normativa:
“CONSIDERANDO a notória morosidade na instauração e no processamento de procedimentos de regularização fundiária em Curitiba, fato reconhecido pela própria gestão municipal4 , o que torna inaceitável condicionar o acesso à água e ao esgoto – um mínimo existencial – à conclusão de tais procedimentos ou à remoção das famílias para outra moradia;”
