Ouvi histórias e lendas. O Cabo da Boa Esperança, no Sul da África, por exemplo, era o Cabo das Tormentas. Talvez a esperança no nome venha da vontade de sobreviver ao mar alvoroçado dali. Pois dobrei o dito – metáfora da travessia dos anos. Entrei em outra rota, lutando com dificuldades (ainda). Bartolomeu Dias, os navegadores e eu, o mundo inteiro, imagino.
A expectativa de ver as baleias ficou na imaginação. As focas não apareceram, só os pinguins sul-africanos. Para encontrá-los, fui até a praia que escolheram para viver: a Boulders Beach, dentro do Parque Nacional “Montanha da Mesa”, na Cidade do Cabo.
Eles chegaram ali na década de 1980. De repente, um casal escolheu a praia para viver. Em seguida, trouxeram a família e muitos amigos. Também escolheria o local. Assim como eu, gostam de anchovas, sardinhas, lulas e crustáceos. Têm as costas negras e o peito branco, iguais aos que ficam em cima da geladeira. Neste ponto somos diferentes. São desajeitados e correm risco de extinção. Estou a caminho de. Andam daquele jeito, balançando-se para direita e para esquerda. Não balanço. Os mais gordinhos parecem que vão tombar a qualquer momento. Não corro esse risco.
Não reclamam da água gelada. Já não serviria para mim. As rochas de granito em torno da praia fazem barreira para o vento e suavizam as ondas, disso eu gosto. Eles ficam protegidos por passarelas de madeira e pagamos para vê-los. Vale a pena.
Informações sobre a espécie e os esforços de conservação estão por toda a parte. O que é arrecadado com a entrada ajuda a preservá-los; ninhos artificiais são espalhados para facilitar as condições de reprodução. São mesmo lindinhos e pequenos, cerca de meio metro. Cresci mais um pouco do que isso. Dá vontade de pegar no colo e levar para casa, até porque são fiéis ao amor escolhido. Uma vez eleito o par, será para a vida toda. Parece que segui o modelo. Ficam deitados ou fazendo buracos na areia para chocar os ovos, sem se importar em posar para fotos ou fingir costume – são estrelas. Aqui não me encaixo.
Sem baleias, nem focas, sei que nem sempre o programado acontece. As cidades nos editam, sacodem nossos caminhos e nos levam ao inesperado. A vida acontece no presente, grandiosa ou não. Minha gata, deitada ao lado do computador, faz aquele barulhinho hipnotizante ao receber carinho e constato isso (quem não convive com os bichanos não entenderá). Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, sugere que talvez o que se revela não seja o que procuramos. Deixo os pinguins e, depois da visita, sigo atrás de comida. Afinal, estou aqui para falar de restaurantes.
A montanha como testemunha
Quando cheguei ao endereço e abri a porta do uber, do nada surgiu um homem alto e magro. Vestia um terno bem cortado. Com um sorriso largo, disse: “é por aqui”. Estou no centro de Cape Town, como todo centro de cidade grande, exige cuidado. Entendi sua presença. Atravessei a rua e seguindo o homem entrei no prédio. Um cheiro forte de mofo subiu pelo nariz. Cruzei o hall e esperei o elevador. O odor não me acompanhou. Ainda bem.
Acomodada numa das mesas do pequeno salão, circundado por um balcão que protege a cozinha, olho para a Table Mountain – a rocha larga, plana, imponente. Nada mal. Alguns salamaleques de boas-vindas e a pergunta tradicional: água? Still or sparkling? Bolsa acomodada. Pela primeira vez que vejo algo interessante para o adereço: uma pequena tábua escondida debaixo da cadeira é puxada para fora. Ganchos pendurados na mesa geralmente não aguentam o peso e não gosto de perdê-la de vista.
Estava pronta para a refeição. Entretanto, mais de meia hora depois, eu continuava sentada sem que nada tivesse acontecido. A montanha de cartão-postal foi testemunha. Não estranhe a repetição da presença dela no texto, a força das formações rochosas em volta da cidade nos diminui e impressiona. Jovens garçons iam de um lado ao outro com pressa, ignorando minha mesa. Pensei que pudesse estar invisível (finalmente). Tanta meditação poderia ter me teletransportado para outra dimensão.
Na primeira chance, quando alguém me olhou, pedi:
“Por favor, gostaria de ver o cardápio”, soou como uma bomba.
De repente, surgiram várias pessoas pedindo desculpas. Vinham e falavam alguma coisa, acompanhado de “excuses”. A equipe mudou e são jovens estudantes que não nos avisaram (acho que estive invisível mesmo). Hoje temos três menus, blábláblá, várias sugestões de vinho para acompanhar. Tudo começou a melhorar quando ouvi: “vou trazer um espumante para compensar”.
Ao meu lado, um exército mexia em panelas, grelha e fornos, cozinheiros seguiam freneticamente para dar conta de entregar muitos pratos. O restaurante – o nome do vem de uma flor nativa, fynbos – não é grande, mas estava lotado. Logo, o experiente Stanley, com um sorriso carinhoso e calmo, desmanchou no ar o início desastroso, assumiu as rédeas e o serviço seguiu sem contratempos.
As surpresas ficaram para o cardápio e para a linda instalação de madeira no teto, que ocupa todo o espaço e chama a atenção. A escultura remete ao ábaco, do grego abakos, soroban em japonês, tschoty em russo, instrumento de cálculo com mais de três mil anos que ainda é usado na China, onde foi criado (aprendo com Danielle de Miranda Ramos, no Brasil Escola, do UOL). Gostaria de saber usá-lo.
Escolhi o Fyn (/fein/), do chef Peter Tempelhoff, que mescla a origem sul-africana com a cozinha japonesa para o almoço. Ali vi talheres lindíssimos, incluindo o hashi de madeira torneada. Ele foi o primeiro sul-africano a ganhar as “três facas” do Best Chef Awards.
Sem a opção à la carte, escolhi o menu degustação sazonal no formato menor, que inclui niguiris autorais. Hoje, pediria o vegetariano. Nos pratos provados no menu e apresentados com elegância: atum, alcachofra, lula, carne (com uma crosta perfeita) e cogumelos. Difícil competir com caviar – e eles servem. Alguns meses depois da visita, lembro do missô e do tempurá perfeitos, do wasabi japonês ralado na hora, e um pão de brioche fofo e meloso, esbanjando manteiga. Uma das sobremesas homenageava a montanha da cidade, apresentada com farofa crocante, mousse de maçã, espuma de figo e iogurte frozen. Nenhum defeito. Os bombons de chocolate eram obras de arte, servidos ao lado de uma carolina (esqueci o nome do doce em francês) recheada com creme de amarula e especiarias.
Na Cidade do Cabo, senti não conhecer o La Colombe, especialmente depois de provar os vinhos sul-africanos, pois está localizado na região vinícola de Constantia Valley. Outro local recomendado é o Waterfront Victoria & Alfred, ou simplesmente V&A. Você pode não esperar nada dos inúmeros restaurantes do shopping mais famoso da cidade, um complexo portuário que tem de tudo, mas em qualquer horário há boas opções e preços justos. Nem vou indicar: dará mais trabalho procurar. Melhor fazer uni-duni-tê e entrar no mais acolhedor. Comi camarões suculentos que pareciam lagostins. Achei o Time Out Market (diferente do original português) muito comercial. Indico ainda uma visita ao Zeitz Museum of Contemporary Art Africa – o maior de arte contemporânea do continente. Come-se muito bem na cidade, especialmente carnes. NV-80 Grill, em um bairro central, também foi bem recomendado e não decepcionou, assim como todas as refeições no Shoreditch Cape Town, do The Winchester Hotel (impressionante de bom).
País que me faz querer voltar. Puxando Calvino novamente, talvez as cidades não revelem o que buscamos, mas aquilo que somos capazes de ver.
Fyn
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