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A campanha que virou sala de aula: o que a juventude aprendeu disputando Curitiba

A campanha que virou sala de aula: o que a juventude aprendeu disputando Curitiba

Por Giovana Pasqualin

As campanhas eleitorais ensinam mais sobre política do que muitos semestres da universidade, não porque a teoria seja dispensável, mas porque nos permitem enxergar, na prática, aquilo que os livros tentam explicar. O segundo turno das eleições de 2026 foi uma dessas experiências. Em Curitiba, demonstrou que a esquerda pode e deve disputar espaços que, durante muito tempo, pareceram pertencer exclusivamente aos nossos adversários.

A juventude do Partido dos Trabalhadores esteve no centro dessa construção. Ocupamos as ruas, disputamos as redes, mobilizamos diferentes setores da sociedade e mostramos que uma campanha não se faz apenas com estruturas partidárias, panfletos ou adesivos. Faz-se com gente disposta a enfrentar uma disputa que, durante muito tempo, a esquerda pareceu ter aceitado perder.

Existe um elemento que não pode ser ignorado: nós recuamos. Desde junho de 2013, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela ascensão da extrema-direita, perdemos espaço nas ruas, nas redes e na disputa pública de valores. Em muitos momentos, passamos a agir como se demonstrar publicamente nossa identidade política fosse um risco a evitar. Neste segundo turno, em Curitiba, essa postura não se repetiu da mesma forma.

Enquanto Flávio Bolsonaro manteve uma votação expressiva, faltava nas ruas a mesma disposição de seus eleitores para declarar o voto e vestir as cores da campanha. Do nosso lado, vimos pessoas ocupando espaços públicos e construindo mobilização coletiva. Não se trata de confundir ausência de adesivos com ausência de apoio, mas de reconhecer a diferença entre ter votos e transformá-los em presença pública e identidade coletiva. A extrema-direita aprendeu a fazer isso nas redes. A esquerda precisa reaprender nas ruas e nas redes, sem pedir licença ou ter vergonha de quem é.

Os números ajudam a dimensionar o que construímos. No primeiro turno, Lula recebeu 332.099 votos em Curitiba, equivalentes a 30,37% dos votos válidos. No segundo, chegou a 425.092 votos, alcançando 37,71%. Foram 92.993 votos a mais e um crescimento de 7,34 pontos percentuais, superior ao registrado no conjunto do Paraná, onde Lula passou de 31,20% para 37,42%. Em todo o estado, o presidente recebeu 511,9 mil votos adicionais, e sua votação cresceu nos 399 municípios paranaenses.

Em Curitiba, porém, o avanço teve significado particular. Em um território reconhecidamente difícil para o petismo, a capital registrou um dos maiores crescimentos absolutos de votos do estado. O resultado mostra que não existe destino eleitoral imutável, muito menos uma cidade que a esquerda deva considerar perdida de antemão.

Mas uma campanha não se explica apenas pelos números das urnas. É preciso olhar para o que aconteceu entre os turnos, para a indignação que mobilizou pessoas que muitas vezes não se conheciam e para a ação política construída nesse processo. Um dos exemplos mais expressivos foi a carreata realizada no sábado anterior à votação. Com um vídeo e um card publicados organicamente e de forma colaborativa no Instagram, mobilizamos uma quantidade impressionante de carros para uma atividade convocada poucas horas antes. O estacionamento do Parque Barigui ficou tomado, mesmo em um dia de chuva. Não havia operação publicitária por trás da convocação: havia militância, criatividade e gente disposta a fazer o convite circular. Foi a demonstração de que uma publicação pode se transformar em presença física quando existe organização política.

Nas ruas, Curitiba também viu o maior ato desde as Diretas Já, que reuniu milhares de pessoas entre a Praça 19 de Dezembro e o Centro Cívico. A juventude participou dessa mobilização ao lado de diferentes setores do partido e da sociedade. A rua estava sendo disputada, e mostramos que a esquerda ainda sabe convocar, organizar e ocupar o espaço público. Não precisamos aceitar que as grandes manifestações pertencem aos nossos adversários ou que a mobilização popular só funciona em determinadas circunstâncias.

Essa disputa também aconteceu nas redes sociais, um terreno no qual precisamos avaliar nossa trajetória. Durante anos, assistimos à extrema-direita consolidar comunidades digitais, transformar indignação em engajamento e estabelecer canais próprios de comunicação. Enquanto isso, muitas organizações progressistas ficaram dependentes de suas estruturas institucionais e de uma linguagem incapaz de ultrapassar o público já convencido.

O desafio é entender como a comunicação pode servir a um projeto político, aproximar as pessoas dos debates públicos e organizar a ação coletiva. Isso exige estratégia, continuidade e compromisso com o diálogo. As redes não substituem a militância, assim como a militância não pode ignorar as redes.

Essa construção só foi possível porque a campanha não se limitou a uma juventude homogênea, urbana e universitária. A juventude rural da agricultura familiar também colocou seu rosto e sua voz nessa disputa. Jovens produziram materiais, gravaram vídeos e confiaram às juventudes do PT a tarefa de fazer suas mensagens circularem. Isso importa porque a comunicação política não pode se resumir a falar sobre trabalhadores e agricultores sem garantir que essas pessoas tenham condições de falar por si mesmas.

Também seria um erro atribuir esse resultado apenas à juventude, ignorando a organização partidária que articulou diferentes frentes de atuação. As secretarias de Juventude, Mulheres, LGBT e Combate ao Racismo foram importantes para construir uma campanha capaz de dialogar com diversos setores da sociedade. Cada frente carrega experiências e pautas que não podem ser substituídas por uma comunicação genérica, que tenta falar com todo mundo sem estabelecer vínculos reais. A força de um partido popular está em reunir essas experiências em torno de um projeto comum, sem apagar suas diferenças.

Essa experiência precisa ser relacionada a uma questão que ultrapassa as eleições: a capacidade de mobilização popular para enfrentar um Congresso Nacional hostil a diversas pautas da classe trabalhadora. O Plebiscito Popular pelo fim da escala 6×1 e as mobilizações contra propostas como a chamada PEC da Blindagem mostraram que a disputa institucional, sozinha, não é suficiente. Não basta eleger um presidente comprometido com os trabalhadores se não houver força social organizada para pressionar pela aprovação de pautas que melhorem a vida da população.

Por isso, a esquerda não pode tratar a mobilização como uma tarefa extraordinária, reservada aos períodos eleitorais ou aos momentos em que uma ameaça se torna grande demais para ser ignorada. Também não podemos permitir que um governo de esquerda diminua nossa disposição para a mobilização. Pelo contrário: um governo comprometido com a transformação social precisa de uma sociedade organizada, capaz de defender conquistas, cobrar compromissos e pressionar por novas medidas. Com uma Câmara dos Deputados e um Senado tão difíceis, a mobilização popular será decisiva para fazer avançar as pautas de interesse da classe trabalhadora.

Se conseguimos mobilizar milhares de pessoas em Curitiba, aumentar significativamente a votação de Lula e ampliar o alcance de nossas mensagens, precisamos perguntar o que faremos com esse aprendizado. Como transformar redes de contato em organização nos bairros, nas universidades e nos locais de trabalho? Como manter o diálogo com a juventude rural, as mulheres, a população LGBT e os movimentos sociais para além das campanhas? E como construir uma estratégia de comunicação que não dependa exclusivamente da disposição individual de militantes que precisam conciliar a política com o trabalho, os estudos e as demais exigências da vida?

Não tenho a pretensão de afirmar que Curitiba encontrou todas as respostas. Mas temos motivos concretos para reconhecer que existe um caminho a desenvolver. A esquerda não precisa escolher entre organização partidária e espontaneidade das redes, entre formação política e linguagem popular, entre disputa institucional e mobilização nas ruas. Precisamos articular essas dimensões de maneira permanente.

O segundo turno foi uma aula de política porque nos colocou diante de uma questão que não podemos mais adiar: a juventude quer continuar ocupando as redes e as ruas apenas quando a eleição exige ou está disposta a construir uma presença permanente na sociedade?

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