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O jornalismo levou uma cadeirada no debate da Band

O jornalismo levou uma cadeirada no debate da Band

Por Sandra Bitencourt

Dentre todos os lances estarrecedores do não debate promovido pela TV Bandeirantes, -que anunciou com orquestra e tudo, sua tradição e apreço pela democracia-, certamente a ausência do jornalismo foi o mais eloquente. Logo no início, o jornalismo levou uma cadeirada da estratégia do candidato extremista e foi nocauteado. Flávio Bolsonaro protagonizou um espetáculo de deboche, micagens, linguagem corporal inapropriada, mentiras deslavadas, insultos e ausência total de qualquer resposta às questões feitas. A TV Bandeirantes propôs um formato de rinha, não de debate, renunciou à mediação, não fez qualquer tipo de checagem ou restauração da verdade, não explicou direito de resposta e se satisfez com uma fala que nada respondia e nem sequer foi capaz de manter seu controle sobre os enquadramentos de imagem que oferecia ao eleitor. Ao final daquilo que seria o debate mais aflitivo da história ( tão bem definido pela repórter Ana Clara Costa da Piauí), classificou o embate como “quente” e considerou sua missão cumprida. Promoveu um circo, mas nem pipoca vendeu, quanto mais esclarecimento.

O artífice da estratégia, Pablo Marçal, inelegível por jogar sujo, regia seu pupilo Flávio Bolsonaro da plateia. Os dois têm um histórico marcante em debates televisivos. Flávio passou mal e perdeu a capacidade de controlar o esfíncter, virou um meme mais humilhante que engraçado. Marçal já havia provocado em um debate da Band, depois de sistemática provocação à Datena, a resposta de uma cadeirada. A cadeirada, simbolicamente dada pelo candidato extremista, acabou atingindo a função social precípua do jornalismo: oferecer fatos verídicos para que o cidadão possa fazer escolhas.

Embora estarrecido e vacilante diante dos insultos e selvagerias, Lula não perdeu a compostura e nem caiu na armadilha. Mas, é realmente espantoso que a campanha do presidente Lula não tenha treinado e previsto que esse tipo de conduta seria utilizado. Obviamente não haveria argumentos ou respostas. Como se viu, Lula ficou perplexo e despreparado ante o império do deboche e da selvageria. Mas foi tão ruim assim para o calejado presidente, experiente em disputas com grandes figuras da República? Soube dar a volta ao se dar conta que estava enfrentando outro produto político do nosso tempo?

Estamos percebendo o resultado das estratégias não tão satisfatório para os influencers agressivos. De fato, Flávio chamou Lula pra lama que é onde ele joga melhor. Pautou o debate com factoides, acuando o presidente a responder nos seus termos. Mas penso que exagerou na dose. Desequilibrou demais e passou uma imagem de desrespeito, de arrogância e de … chefe de milícia. Pode fixar o seu eleitorado? Pode, mas fica difícilconvencer alguém que já não queria votar ou ainda estava indeciso. Claramente,comandou a baixaria. Marçal pode fazer isso porque não era um candidato viável, mas uma disputa apertada assim para comandar o país, dá o que mais elimina eleitores: o medo. Já o presidente Lula ficou notadamente perplexo no primeiro round e se dispôs, nervoso, a responder questões de corrupção. Se recuperou depois e conseguiu fazer algo muito importante: fixar perguntas sem respostas. Flavio não respondeu nada, nenhuma, nem mesmo a que ele pediu como direito de resposta. O jornalismo, por seu turno, perdera o sentido e seguia nas cordas. Ninguém estava muito preocupado com ele, já que o propósito de participar do espetáculo era produzir cortes para contar um outro tipo de história, as tais narrativas, na batalha das redes sociais.

As campanhas eleitorais são uma síntese do tipo de midiatização política que hoje se estabeleceu e que obriga atores políticos a lançarem mensagens persuasivas em outros moldes. Para isso são requisitadas habilidades que nem sempre o bom gestor ou o representante autenticamente democrático tem. A burla, a desfaçatez, a agressividade, a cara de pau, são elementos que engordam cliques e que em alguns casos dominam o discurso político.

Os eleitores que já estavam habituados à presença de personagens políticos na televisão, passaram a observar e acompanhar outro tipo de fenômeno, dada a transformação do panorama tecnológico e comunicativo. O potencial de disseminação é outro. As subjetividades são distintas. A linguagem requer diferentes compreensões, sobre o que funciona em qual plataforma.

Não obstante, o potencial televisivo permanece como peça importante no xadrez da disputa eleitoral. As características únicas da televisão são de um meio com significativa influência social que facilita a ampla exposição midiática dos indivíduos, ou seja, a exposição a mensagens que eles não escolheram previamente e que não necessariamente se alinham com suas convicções. Isso, ao lado das sabatinas, mantém os debates eleitorais televisionados como um momento particularmente oportuno para os candidatos e partidos políticos. Não ir, pode prejudicar de modo irremediável a imagem de competidor democrático, até porque as emissoras perseguem e denunciam quem se recusa a estar no seu palco. Participar, no entanto, sem ter asseguradas regras claras de equivalência, contenção das mentiras e exposição a insultos, igualmente pode ser fatal. Em suma, os debates eleitorais oferecem a chance de disseminar suas mensagens persuasivas para públicos diversos, alcançando telespectadores que, de outra forma, não seriam acessíveis devido à tendência à exposição seletiva, isto é, à preferência por conteúdo que se alinhe com as ideias e valores preexistentes do público. Desde que o formato e as regras assegurem equidade e compromisso com a verdade e as respostas aos questionamentos realizados. O jornalismo precisa estar presente e ter musculatura suficiente para barrar as malandragens e agressões. Isso deveria incluir checagem em tempo real e alertas de não resposta. Dados prévio apontam que a média de audiência para o debate da Band neste domingo à noite foi de 13 pontos, com pico de 15,21, o que significa ao redor de 5 milhões de pessoas assistindo a transmissão ao mesmo tempo. Foi a melhor performance da emissora desde fevereiro de 2022 quando transmitiu a final do Mundial de Clubes. Pelo que se vê, o entretenimento deprimentevaleu a pena. O jornalismo segue respirando por aparelhos. Muitos veículos se socorreram daquela cobertura de falso equilíbrio, ressentidos que houve apenas troca de acusações e não foi possível ouvir propostas. Veremos se o jornalismo estará convidado para o debate final da Globo e se a emissora tentará produzir condições equivalentes, se não por outro motivo, para comprovar superioridade jornalística frente à Bandeirantes. Mas, quem poderia confiar na Globo?

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