Skip to content Skip to footer
O Exército de Lula e o Espírito do Tempo

O Exército de Lula e o Espírito do Tempo

Por Cleisson Vidal
Que noite! Por vinte dias vivemos com intensidade o comunismo digital contra o capitalismo imperial (se divirtam com esses termos) até alcançarmos a democrática vitória de Lula contra a desumanização da extrema-direita.

Vários fatores levaram à virada, mas a criação do “Exército do Lula” foi a mais acertada ação político-social em tempo de redes sociais de comunicação. 

O Exército do Lula é um canal no Whatsapp criado por André Janones, atual deputado federal. Janones se especializou em compreender a forma de funcionamento das redes. Em poucos dias, ele cultivou um exército sem fuzil com mais de 10 milhões de pessoas que se engajaram e doaram seu tempo, a mercadoria mais valiosa da atualidade, sua vaidade, seu individualismo, para ajudar Lula a derrotar uma série de Golias: a consistente vitória de Flávio Bolsonaro no 1º turno, as alianças políticas e empresariais nacionais, o apoio explícito do governo dos EUA, o grupo internacional Rockbridge Network, formado por bilionários reacionários, a interferência direta das bigtechs, como Meta, X e Google, na entrega de conteúdos pró Bolsonaro e restrição de conteúdos pró-Lula, além da ação direta de ministros do STF, em especial André Mendonça e Kássio Nunes Marques, o KN, esse como atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Com tanto poderio a vitória era certa. Flávio já era chamado de “presidente” e anunciava seus futuros ministros. Mas a expressão “o mundo não gira, capota” entrou em cena.

Janones literalmente abriu uma janela de esperança ao postar um vídeo chamando as pessoas para a ação nas redes sociais: “vocês farão a história. Vocês vão reeleger o Presidente Lula novamente. Eu sei o caminho. Mas esse caminho é construído pelo coletivo…” Nessa ação orgânica, onde cada pessoa chama outra pessoa, o exército se fez e agiu, contrariando a lógica algorítmica manipulada pelas bigtechs.

Curiosamente, o início do século XXI foi um laboratório para a utilização das emoções humanas em prol de interesses de Estados, principalmente dos EUA, por todo o mundo. No Brasil, as operações das bigtechs afetaram drasticamente a vida político-social desde as chamadas Jornadas de Junho/2013, abrindo a caixa de pandora para a ascensão e consolidação da extrema-direita no cenário político, com suas pautas desagregadoras e supremacistas, e os interesses econômicos no território brasileiro.

Mas como acreditar no Janones? Até então, sabíamos da manipulações pelo algoritmo da Meta-Zuckerberg e da X-Musk, sabíamos das “fazendas de bots”, que são sistemas que controlam vários aparelhos celulares com contas falsas, e uma série de outros artifícios que alimentam as redes, entregando conteúdos chocantes, misóginos, racistas, capacitistas, que exaltam a brutalidade e logo produzem uma inação nas pessoas, capturando suas atenções, seu tempo e, pouco a pouco, destrói nossas energias vitais. Como superar a velocidade e controle desse sistema?

Janones estudou muito as redes: como seus trends pautam a imprensa e, por sua vez, a política, que afeta a nossa vida cotidiana. Enfim, esse ciclo que se retroalimenta. E foi esse o ponto a atacar. Com quantos likes,comentários e compartilhamentos faz um conteúdo se tornar trend no X, no Facebook, Instagram ou Tiktok? Quantas pessoas agindo juntas podem pautar essas redes com conteúdos de seus interesses? Essa foi a grande revolução. Assim, o exército foi um movimento orgânico, horizontal e ativo. E o algoritmo, mesmo resistindo, não estava preparado para a tsumani de inteligência e de afetos. Era possível ver nos “comentários” amigos de infância, colegas de profissão e tantas outras pessoas que passaram em nossas vidas se multiplicando até nos tornamos milhões de formiguinhas. Todos juntos curtindo, comentando e compartilhando conteúdos com energia vital para o bem comum. Aquele sistema computacional foi de fato utilizado como uma rede social movida por uma valores éticos e morais: apreço à liberdade democrática, o respeito a todas as diferenças, o compromisso com a constituição de 1988.

Enfim, ganhamos! Agora todos sabem como lidar com o facismo nas redes: não comentem, não compartilhem. Não dêem palco para maluco dançar. Sem interação, o conteúdo de desumanização não prospera nas redes. A não interação é a vacina contra a proposta reacionária e negacionista. Não veja, não interaja, não compartilhe. Novos conteúdos logo substituem esse conteúdo-esgoto.

Agora começa o 4º mandato de Lula. Está claro o esforço de cada cidadã e cidadão dos rincões desse país para manter a dignidade humana contra a barbárie que se projetava em ações nas redes, nas ruas e nas urnas. A população precisa de aperfeiçoamento nos serviços públicos de saúde e educação adaptados `as localidades, ações de infra-estrutura que suportem as mudanças climáticas, uma agricultura agroecológica, uma economia verde, territórios indígenas e quilombolas protegidos, ambiente de trabalho digno, segurança para viver com tranquilidade. É o mínimo de direitos diante de tantos deveres. 

Uma nova geração chegou e precisa se consolidar na política: são Anas Elisas, Anas Júlias, Guilhermes, Janones, Ricks, Jones, Érikas e tantas outras, que já fazem e farão os embates diários pelos direitos humanos. Eles não podem ficar só no campo de batalha, enquanto outros ficam nos salões em rapapés. 

Afinal, não foi somente uma vitória partidária, foi uma vitória do respeito ao outro, por sua semelhança e diferença; vitória da esperança, do direito de ser criança, jovem ou velho e ainda poder imaginar. Nada muito complicado, comparado ao pensamento reacionário, bélico e o capitalismo exploratório com viés escravagista do outro lado.

Saímos humanamente melhores das urnas. Que essa força vital siga em todos nós, afinal, o exército de Lula foi um desafio em comunhão. E seguirá ativo e alerta.

 Lula lá. Agora começa o século XXI.

Continue lendo

Sandra Bitencourt 22 out 2026

O jornalismo levou uma cadeirada no debate da Band

Dentre todos os lances estarrecedores do não debate promovido pela TV Bandeirantes, -que anunciou com orquestra e tudo, sua tradição e apreço pela democracia-, certamente a...

Usamos cookies para melhorar sua experiência e analisar o tráfego. Veja a Política de Privacidade.