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A Radiografia da Vitória: a política para além dos dados

A Radiografia da Vitória: a política para além dos dados

Por Fabrizio Prado

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de 2026 é um feito histórico na política institucional da república e, pode-se dizer, que para todos os governos democráticos do mundo. A disputa eleitoral, no entanto, principalmente no que diz respeito ao segundo turno, carece de ser avaliada em diversos primas, tantos são estes que, por hora, quero focar na identificação dos componentes do fenômeno, não em cada aprofundamento necessário.

Gostaria de destacar algo que me chamou atenção logo em 04/10, quando as urnas cravaram a distância de 2.224.965 votos à Flávio Bolsonaro, praticamente todos os analistas políticos diziam que os dados eram imperativos e, portanto, que a vitória do candidato estava praticamente certa. Ora, aí está um ponto chave. A política deve ser avaliada pela política, utilizando-se de dados enquanto instrumento de análise, e não como foi feito, na lógica inversa.

É certo que os indicadores eram robustos na contramão do pleito de Lula: (1) Nunca havia ocorrido uma virada do 1° para o 2° turno; (2) A distância de votos, como já apontado, era grande; (3) Nenhum dos demais candidatos que disputaram o 1° turno(9.056.082 votos) – Augusto Cury (3.448.569 votos), Renan Santos (2.675.887 votos), Ronaldo Caiado (2.605.148 votos) e Zema (326.488 votos) – apoiaram Lula, muito pelo contrário, estando a maioria em favor a Flávio; (4) A taxa de abstenção, que via de regra sempre cresceu entre turnos, encontrou sua reversão apenas em 2022, quando 500 mil eleitores a mais foram votar, número esse que caso repetido, seria insuficiente para Lula; (5) A clara e manifesta disputa contra a META pelo favorecimento do bolsonarismo no engajamento das redes sociais; (6) O avanço da extrema direita na eleição de seus pleitos proporcionais, ou seja, de deputados(as) estaduais e federais.

A ladeira era longa, os dados pesavam contra e, se a política dependesse apenas das projeções, tudo estaria perdido. Acontece que do outro lado, para além da clássica esperança que permeia o romantismo da política de esquerda, existiam virtudes as quais não podem nunca serem ignoradas, principalmente a base de todo e qualquer processo eleitoral, que é a política. Primeiro de tudo, o principal ativo que somente a esquerda possui e claramente teria peso na reta final, é a militância. Não somente pelos mais de 6.000.000 de filiados entre todos os partidos da base da campanha, mas pelo fato decentenas de milhares de pessoas, que entendendo a urgência do momento, se somaram organicamente a essa militância organizada.

Outro ponto fundamental que se provou decisivo foi a disputa por legado. Seja enquanto estratégia de debate, das redes sociais ou nas panfletagens de rua, o que estava posto no imaginário público era a discussão sobre o que foram os governos de Lula e o que foi o de Bolsonaro. Esse paralelo era bastante factível de ser construído e, como foi entendido pela maioria da população, principalmente pelas 3 milhões de pessoas que resolveram sair de casa para votar apenas no 2° turno, existe uma diferença grande entre ambos os projetos de país.

Existe um falso consenso sobre a ideia de que o imaginário público tende a preferir a mudança à manutenção. Ora, existe uma necessidade fundamental para que a tese da mudança prevaleça, que é um projeto viável, convincente e bem comunicado de como essa promessa irá ser concretizada no futuro. Acredito que essa seja outra lacuna fundamental, pois para além das dificuldades que o governo Lula 3 encontrou e das virtudes históricas que os governos Lula 1 e 2 tiveram, sempre foi de notório saber que a campanha de Flávio Bolsonaro não possuía projeto de Brasil, não existiam propostas, apenas uma promessa vaga de mudança e a aposta no ódio de parcela da população ao PT enquanto plataforma eleitoral. O vazio apresentado enfraqueceu fortemente a campanha.

Finalizando os indicadores pré arrancada da vitória de Lula, ou seja, fatos que eram verificáveis no momento pós 1° turno, sem qualquer espécie de revisionismo falso profético, precisamos falar do fator credibilidade. Flávio Bolsonaro, como se diz nas ruas, não tinha moral. Primeiro, por conta da sua falta de compromisso com projetos reais, para além de moralismo, religiosidade e privatizações fictícias, que se comprometeria em realizar. Além disso, a forma como mudava de opinião, quando resolveu dar um cavalo de pau na votação do fim da escala 6×1 e na promessa de reajuste do salário-mínimo e das aposentadorias, comprometeu seriamente a sua imagem frente aos indecisos.

Por fim, as diversas investigações policiais e os escândalos vinculados à Flávio facilitaram mostrar aos eleitores o risco que seria ter um presidente da República com fortes pendências frente a Justiça. Vejamos quais os crimes Flávio Bolsonaro deve respostas: (1) Loja de Chocolates: Depósitos em Dinheiro Vivo; (2) Escândalo das “Rachadinhas“; (3) Inquérito de Apostas Online e Advogado Willer Tomaz; (4) Inquérito do filme “Dark Horse” e Banco Master; (5) Caso do “Careca de INSS”; (6) Indícios de Corrupção na Gestão de Hospitais Públicos no Rio de Janeiro; (7) Relaçãoescusa com o Ministro Kassio Nunes; (8) Caso Marielle Franco e a participação da Família Bolsonaro; (9) Tarifaço dos EUA e a articulação da Família Bolsonaro.

O cenário descrito possibilitava compreender o fenômeno que veio acontecer, reafirmo, antes do mesmo. Ou melhor, sendo justo com o tempo e o que de fato ocorreu, toda essa montanha de questões nos deixava em posição de conquistar o que foi conquistado, porque afinal, essa foi uma vitória conquistada por uma série de razões.    

O exército tinha estrutura, teoria, um inimigo fraco e moralmente comprometido,e estava pronto para ir as ruas, porém faltava um general que pudesse inflamar essa massa e desse direcionamento tático organizado e unitário para essas pessoas: André Janones! A virada de chave para colocar tração na máquina, coordenando as ações e motivando as pessoas, passa decisivamente pela atuação de Janones. Está aí uma pessoa que, gostem ou não, entrou para a história como um dos maiores responsáveis pela vitória de 2026. No dia anterior ao 2° turno, o canal de WhatsApp “Exército do Lula” contava com mais de 10 milhões de pessoas organizadas, que por conta própria, toparam ser constantemente direcionadas para divulgar conteúdos pró Lula e a participar dos atos de campanha.

O presente artigo, sobretudo, visa deixar um recado importante e repetido por aqui, direcionado principalmente à comentaristas políticos, matemáticos e àqueles que gostam de acompanhar os pleitos eleitorais: Dados são importantes, instrumentos fundamentais para a construção dos processos e análise de tendências, porém, a análise principal que deve ser feita é na política. A esquerda faz política discutindo projeto e focando no ser humano, seja enquanto forma de trato ou enquanto finalidade da política pública, ou seja, o maior obstáculo, para além do histórico eleitoral brasileiro, das intervenções estadunidenses e da máquina de fake news bolsonarista, era a própria esquerda se encontrar em sua identidade.

As pessoas retomaram a postura de declarar publicamente seu apoio em Lula, os atos de rua foram massivos por todo o país e o povo se apropriou da campanha. Por mais que isso tenha demorado a acontecer, o que causou grande emoção, em tempo e por ocasião, a esquerda se reencontrou frente à urgência do 2° turno.

E nós achamos o tom, esse acorde com um lindo som, e ganhamos, mais uma vez,a oportunidade de fazer com que fique bom outra vez o nosso cantar. A gente vai ser feliz, olha nós outra vez no ar, o show vai continuar.

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