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E o horror sorriu para nós

Foto: Reprodução

“Não podemos permitir que mulheres, causando discórdia com suas ideias subversivas, enfraqueçam a sanidade moral da nação. Onde for necessário, a mão firme do Estado e das nossas milícias não hesitará em intervir para proteger a família e o futuro do nosso povo.”
Benito Mussolini, discurso interno do Partido Nacional Fascista, 1927.

E o homem de bem colou no peito o símbolo da eliminação de uma mulher e fez uma foto sorridente. Riscou um X vermelho sobre o rosto da mulher adversária e destacou na proposta de eliminação o pronome feminino ela. O candidato da extrema direita ao governo do Rio Grande do Sul, pelo PL, Luciano Zucco, é o cara que pretende governar um estado assediado pela violência de gênero, com número recorde de mortes e agressões, com esse discurso misógino (sim, a imagem é discurso poderoso, mais forte que palavras vazias). O sujeito que vai à igreja com esposa e filha, propõe riscar a face de uma mulher que lhe parece inconveniente. Por quê? Porque obedece à lógica fascista na qual é forjado.  O tipo de discurso oficial proferido por Mussolini no século passado incentivava a violência institucionalizada contra mulheres que desafiassem os papéis sociais tradicionais, incluindo perseguições, prisões e agressões físicas. Mussolini, em discursos e documentos oficiais, incentivava o fortalecimento dos “valores tradicionais” e o combate a elementos subversivos que ameaçassem a ordem moral, incluindo as mulheres que rejeitassem o papel social conservador. A carta de Mussolini de 1927 para membros do Partido Nacional Fascista afirmava que o “contágio comunista” em mulheres era especialmente perigoso e que deveriam ser “neutralizadas” com rigor, justificando severas medidas repressivas. Luisa Maragliano foi uma militante comunista italiana que liderou uma resistência antifascista e foi presa pela polícia fascista sob acusações políticas, em 1926. Seu depoimento e relatos da época indicam que sofreu torturas físicas e psicológicas, além de agressões sexuais. As prisões arbitrárias e o uso da violência contra mulheres como ela, faziam parte da estratégia do regime para silenciar vozes dissidentes.  As mulheres comunistas eram vistas pelo regime como duplamente “perigosas”: desafiavam tanto a ordem política quanto a ordem social e patriarcal. Nesse período, em meio à intensificação da repressão fascista, foram determinadas leis especiais (como as Leis Fascistíssimas), que endureceram drasticamente o sistema jurídico para punir opositores, restringindo direitos civis e permitindo prisões sem recursos adequados.Um século depois, cá estamos nós, em meio a um processo de escolha democrática, tendo de refletir sobre o duplo encarceramento das mulheres sob regimes autoritários — não apenas sob o ponto de vista político, mas também patriarcal —, onde a luta política e de gênero se intersectam.

Dirão que isto é resultado da polarização política que nos assola. Ocorre que este senhor não habita o suposto outro polo, algo que seria legítimo e desejável, afinal é para isto o regime democrático, abrir livre concorrência para distintas visões de mundo, que obedeçam a princípios republicanos e de respeito à dignidade humana. Esse sujeito sorridente e truculento não está incluído nesse lugar da democracia. Ele risca o rosto de uma adversária, propõe a eliminação dELA!

Em uma carta aberta, corajosa e comovente, dirigida a ele, Manuela relembra do único encontro que tiveram, na mesma igreja que ambos frequentam e com as filhas que têm a mesma idade. Manu faz a pergunta devastadora: como ele explicará a atitude para a própria filha? Manuela já precisou explicar para a filha dela.  E a nossa imprensa, nossos analistas, vão acionar o botão do escândalo e da indignação quando?

É impressionante como a extrema direita coloca um verniz na imagem, sorri com dentes demasiado brancos e alinhados, mas não resiste e se revela. O candidato deles da eleição passada não resistiu ao se declarar homofóbico e dizer que o Estado com ele teria uma primeira-dama de verdade. O Estado não quis nem a dama e nem o vagabundo. Agora, este deixa o fingimento de lado e revela sua incivilidade fascista. Vamos confiar que a melhor tradição gaúcha saberá eliminar  do jogo político quem de fato não honra nossa história, nossos valores e nossas famílias onde cabem todas as mulheres.

Sandra Bitencourt

Jornalista, doutora, diretora do INP, pesquisadora da UFRGS e coordenadora da Rede Combate à Desinformação. Estuda mídia, política e tragédias climáticas.

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