
Encurralados: A Verticalização Predatória versus a Cultura de Bairro
Isso não por conta da mudança dos tempos, coisa que seria inevitável, mas sim pelo interesse das construtoras na região.
São constantes as investidas massivas das construtoras no bairro, com grandes construções sendo iniciadas por todos os lados, desde o metrô Ana Rosa até o Vila Mariana. A regra é clara: Se existe um conjunto de casas, haverá, pelo menos, a tentativa de subir um prédio.
Em recentes reportagens publicadas pelos veículos de imprensa Folha de São Paulo e UOL, foram realizadas uma série de entrevistas com moradores do bairro que são constantemente assediados para venderem as suas casas e, por meio de um movimento coletivo organizado, iniciaram a campanha “Esta Casa Não Está a Venda!”
Gostaria de destacar um depoimento que, por seu significado, me chamou muita atenção, o feito por Meico Fugita, moradora da Vila Mariana há 42 anos, ao UOL, quando contou: “Quando minha mãe faleceu, um corretor veio me dar os pêsames e logo em seguida pediu para comprar a casa”.
Esse episódio deixa bastante claro a tamanha desumanização que está acontecendo.
Na contrapartida, o Plano Diretor da Cidade de São Paulo, revisto em 2023, apresenta a perspectiva de adensamento populacional em áreas de maior infraestrutura, ou melhor, traduzindo, o estímulo de levar mais pessoas para espaços que já tenham infraestrutura, ao invés de fazer as obras de estruturação nas periferias da cidade. O município pauta o presente incentivo à verticalização de alguns bairros nessa prerrogativa.
A verdade é que esta afirmação não encontra respaldo na realidade. Basta uma rápida pesquisa na internet para observarmos três pontos fundamentais: (1) Os preços das acomodações destes novos empreendimentos são altíssimos, fato que os torna inacessíveis para a grande maior parte da população da cidade; (2) Por conta disso, grande parte dos imóveis inaugurados se encontram vazios; (3) Desta forma, os bairros alvo desta política urbana – como a Vila Mariana – seguem sendo invadidos pelas construtoras e, na contra partida, os bairros periféricos carentes de infraestrutura seguem carentes da mesma.
Segundo a Associação Brasileira de Crédito Imobiliário e Poupança (ABECIP), a Vila Mariana, ao lado de Mooca e Santo Amaro, é um dos bairros com a maior quantidade de imóveis disponíveis.
Lembrando que ainda não estamos aprofundando o problema em outras frentes importantes, como a da preservação de mananciais, da poluição sonora e visual, da gentrificação e da ausência de espaços coletivos de convivência.
A Vila Mariana pede socorro, não apenas para si, mas por uma nova ideia de cidade.
* Repercussão do colunista Fabrizio Prado, com texto na íntegra em: Pedaço da Vila
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