
Entre a essência e a existência: respeito, liberdade e o direito de ser
De um lado, Parmênides afirmava que o ser é imutável, que nada muda de fato, que a realidade verdadeira é fixa e permanente. De outro, Heráclito sustentava o oposto, a única coisa permanente é a mudança, tudo flui, tudo se transforma continuamente. Essa tensão atravessou a história e foi sistematizada mais tarde por Aristóteles, especialmente no campo da metafísica, ao buscar compreender o ser em suas múltiplas dimensões.
Séculos depois, Locke retoma, em outro plano, essa preocupação com a convivência entre diferentes. Sua defesa da liberdade religiosa foi um passo decisivo para a construção do Estado laico, ao afirmar que o Estado não deve impor crenças e que a consciência é um direito individual. Ao mesmo tempo, sua reflexão também dialoga com a organização da sociedade moderna, marcada pelo surgimento do capitalismo, ao indicar que a convivência pacífica entre diferentes crenças evita conflitos que fragmentam a vida social e enfraquecem a cooperação necessária para o desenvolvimento coletivo.
Mas hoje, essa discussão se ampliou. Já não se trata apenas de religiões diferentes convivendo, trata-se de reconhecer diferentes formas de existir.
O debate entre essencialismo e existencialismo expressa isso. Enquanto visões essencialistas tendem a afirmar que há uma natureza fixa que define quem somos, o existencialismo, com força em Jean-Paul Sartre, propõe que primeiro existimos, depois nos construímos.
E é justamente nesse ponto que a realidade humana se mostra mais complexa do que qualquer teoria isolada. Nós somos constituídos por múltiplas dimensões, o biológico, o psicológico, o social e o cultural. Nenhuma dessas dimensões, isoladamente, dá conta de explicar quem somos. Não há uma essência única que nos defina por completo.
Somos pessoas que se formam ao longo da vida, nas relações com a família, com a igreja, com a escola, com a comunidade, com o território onde vivemos, com o clima, com a habitação, com as experiências que acumulamos. Somos resultado de processos, de encontros, de conflitos, de aprendizagens.
Por isso, reduzir alguém a uma essência fixa é simplificar demais a condição humana.
Nesse contexto, a questão da convivência precisa ser revista. Intolerância é, literalmente, não suportar. Tolerar, por sua vez, é suportar. Mas uma sociedade não pode se organizar apenas no limite do suportar o outro. Quando alguém se torna insuportável aos olhos do outro, abre-se espaço para a exclusão, para a negação e, muitas vezes, para a violência.
O desafio contemporâneo é ir além de suportar, é construir respeito.
Isso se torna ainda mais evidente quando falamos das pessoas LGBTI+, especialmente das pessoas trans. O que está em jogo não é uma opinião, é o direito à existência, o direito de viver a própria individualidade, de ser reconhecido, de não ser negado.
A liberdade religiosa deve ser garantida, ela é um direito fundamental. Mas ela não pode ser utilizada para negar direitos de outras pessoas. O Estado laico existe exatamente para assegurar esse equilíbrio, nenhuma crença pode se sobrepor à dignidade humana.
Também é importante reconhecer que vivemos tensões reais na sociedade. Há disputas de visões de mundo, há conflitos entre perspectivas mais fixas e outras mais abertas à transformação. No entanto, transformar essas diferenças em polarizações extremas consome energia social, enfraquece os laços coletivos e dificulta o avanço do país.
Questões como identidade de gênero e orientação sexual são profundamente importantes para a vida dos indivíduos e devem ser respeitadas. Ao mesmo tempo, elas não podem ser instrumentalizadas para alimentar divisões que prejudiquem a convivência social. O desafio é reconhecer direitos, garantir dignidade e, ao mesmo tempo, construir pontes de diálogo.
Uma sociedade que se fragmenta perde força. Uma sociedade que se respeita cria condições para o desenvolvimento, para a justiça e para a paz.
Conviver com a diferença não é fácil, exige maturidade, exige escuta, exige disposição para reconhecer que o outro não precisa ser igual a mim para ter valor.
As diferenças culturais, sociais e psicológicas fazem parte da condição humana. Não devemos ser intolerantes com quem não está na mesma cultura, na mesma sociedade, na mesma sintonia que nós. Ao contrário, é justamente essa diversidade que enriquece a vida coletiva.
O respeito às diferenças é condição para a paz. Sem isso, não há sociedade possível, apenas fragmentação.
Podemos, sim, construir um mundo em que todas as pessoas sejam importantes, independentemente de sua forma de ser, de amar, de acreditar, de existir. Isso não é utopia ingênua, é um projeto ético e político necessário, vamos à discussão.
Toni Reis
Doutor em Educação
Acadêmico de Filosofia
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