Skip to content Skip to footer
Zema, Gilmar e a sexualidade como arma:  o caráter não tem orientação sexual

Zema, Gilmar e a sexualidade como arma: o caráter não tem orientação sexual

Por Toni Reis
O debate político brasileiro, por vezes, não apenas se acirra: ele se degrada. Quando isso acontece, a linguagem deixa de ser instrumento de disputa democrática e passa a operar como mecanismo de desqualificação moral. O recente episódio envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, revela algo mais profundo do que um deslize retórico: evidencia o quanto a sexualidade ainda é mobilizada como categoria de inferiorização simbólica.

Há, nesse tipo de ataque, um pressuposto silencioso e perigoso: o de que a homossexualidade, ou qualquer dissidência de gênero e sexualidade, pode funcionar como insulto. É precisamente aqui que reside o problema filosófico e político: transformar orientação sexual em arma retórica é reiterar um regime de verdade que hierarquiza corpos e subjetividades.

Como diria Hannah Arendt, “o problema com certas formas de discurso não é apenas o que dizem, mas o mundo que tornam possível”. Quando a sexualidade vira ofensa, o mundo que se constrói é um mundo onde algumas existências são, por definição, diminuídas.

No entanto, não podemos analisar a fala do Ministro Gilmar Mendes de forma isolada de sua biografia jurídica. O STF tem sido o grande guardião da cidadania plena para a comunidade LGBTI+ no Brasil, suprindo muitas vezes a omissão do Legislativo. O Ministro Gilmar Mendes foi peça-chave em decisões do STF que transformaram o país, como o reconhecimento da união estável para casais do mesmo sexo em 2011, o combate à censura sobre diversidade nas escolas e a histórica criminalização da LGBTIfobia em 2019, determinando que atos desta natureza são uma forma de racismo que de devem ser punidos como tal.

Pessoalmente, como representante da Aliança Nacional LGBTI+, sempre fui recebido pelo Ministro com abertura. Gilmar Mendes já defendeu a diversidade em inúmeras ocasiões e, após o infeliz comentário dirigido a Zema, teve a grandeza de pedir desculpas. Ele reconheceu que uma metáfora não pode carregar o peso de um preconceito que ainda fere tantos brasileiros.

Do outro lado, o ex-governador Romeu Zema tem mantido uma postura de respeito institucional que merece registro. Sua gestão em Minas Gerais não promoveu o desmonte de políticas públicas voltadas à nossa comunidade, nem censurou instâncias de participação popular, como a Conferência Estadual LGBTI+. Em um cenário de polarização, o respeito à máquina pública e ao pluralismo é algo que deve ser preservado.

Como diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+, vejo nesta polêmica uma oportunidade pedagógica: precisamos separar, de uma vez por todas, orientação sexual de caráter.

Utilizar a orientação sexual para atacar um adversário, seja ele de direita ou de esquerda, é uma estratégia rasteira. Quando alguém tenta ofender um político insinuando sua homossexualidade, está reforçando a ideia de que ser LGBTI+ é algo depreciativo. O risco, aqui, é duplo: empobrece-se o debate político e reforçam-se estigmas históricos: quando a sexualidade é usada como ataque, não se atinge apenas o alvo imediato, mas toda uma coletividade que vê sua existência convertida em insulto. O eleitor deve julgar candidatos por suas propostas na saúde, educação, segurança, economia, entre outras áreas. O que um cidadão faz ou deixa de fazer em sua intimidade não define sua honestidade ou sua capacidade de gestão. Não é a sexualidade que define o sujeito político, mas sua ação ética no mundo. O espaço público só é verdadeiramente democrático quando nenhuma identidade pode ser mobilizada como ofensa.

A Aliança Nacional LGBTI+ e a Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH) estarão vigilantes. Através do programa Voto com Orgulho, monitoraremos as campanhas e denunciaremos qualquer tentativa de utilizar a identidade de gênero ou a orientação sexual como arma de guerra política. Não aceitaremos que nossa existência seja reduzida a uma ofensa de palanque. Na política, deve valer o respeito à Constituição, que garante que todos são iguais perante a lei. Que o caráter seja medido pela ética.

Toni Reis
Diretor-Presidente da Aliança Nacional LGBTI+ e da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH)

Continue lendo

Baltasar Garzón 11 out 2026

Brasil, a quince días del abismo

“…Debemos aunar esfuerzos en torno a causas justas, como la Alianza Global contra el Hambre y la Pobreza, una iniciativa presentada por el Gobierno brasileño que...

Nasser Ahmad Allan 09 out 2026

Dez razões para votar em Flávio Bolsonaro

Resolvi fazer um exercício de generosidade política: encontrar boas razões para votar em Flávio Bolsonaro. Afinal, ninguém deveria rejeitar um candidato sem antes examinar suas qualidades,...

Ruy Espíndola 07 out 2026

MUDAR A CONSTITUIÇÃO OU MUDAR DE CONSTITUIÇÃO? O QUE ESTARÁ EM JOGO DEPOIS DAS URNAS PRESIDENCIAIS DE 2026

Uma frase pronunciada depois do primeiro turno das eleições presidenciais merece muito mais atenção do que talvez esteja recebendo. Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República,...

Baltasar Garzón 07 out 2026

Nadie votará por nosotros

El 29 de noviembre no elegiremos solo un nuevo Parlamento y un Gobierno. Decidiremos si España sigue ensanchando las libertades conquistadas desde 1978 o si las...

Usamos cookies para melhorar sua experiência e analisar o tráfego. Veja a Política de Privacidade.