Skip to content Skip to footer

Sem dados, sem políticas: a realidade das pessoas trans no Brasil

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Ao encerrarmos mais um mês da Visibilidade Trans, é preciso ir além dos discursos simbólicos e das campanhas pontuais. A visibilidade só faz sentido quando se transforma em políticas públicas concretas, permanentes e baseadas em dados. No caso das pessoas trans, no entanto, o que se impõe é o oposto: a invisibilidade estatística como regra e a exclusão como consequência.

O Brasil não sabe — ou escolhe não saber — quantas pessoas trans vivem em seu território. Essa ausência de dados oficiais não é uma falha técnica: é uma decisão política que produz invisibilidade, exclusão e morte.

Desde maio de 2001, organizações da sociedade civil LGBTI+, ativistas e pesquisadoras(es) encaminham reiterados ofícios ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) solicitando a inclusão de dados sobre orientação sexual e identidade de gênero nos levantamentos oficiais. O Ministério Público Federal foi acionado, uma ação judicial foi vencida, mas o que se vê é uma sucessão de adiamentos: reuniões canceladas, recursos protelatórios e mais de um ano de espera. Já são pelo menos cinco ou seis adiamentos. Enquanto isso, o IBGE segue sem produzir esses dados.

Sem dados concretos, não há políticas públicas. E sem políticas públicas, a exclusão se perpetua.

Diante da omissão do Estado brasileiro, quem produz informações sobre a realidade das pessoas trans são as organizações da sociedade civil organizada, especialmente a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e a Rede Trans Brasil. São esses levantamentos que hoje constituem a principal base de evidências sobre trabalho, educação, prostituição compulsória, discriminação e violência letal contra pessoas trans no país.

Trabalho negado e prostituição como consequência

Os dados produzidos pela ANTRA e pela Rede Trans Brasil indicam que mais de 90% das pessoas trans no Brasil têm a prostituição como principal ou única fonte de renda. Esse número, frequentemente citado de forma descontextualizada, precisa ser compreendido corretamente: não se trata de escolha, mas de consequência direta da exclusão social.

A trajetória da exclusão começa cedo. Para muitas pessoas trans, a expressão de sua identidade de gênero ocorre ainda na infância ou na adolescência — e é nesse momento que surgem os primeiros grandes conflitos. A família, que deveria ser espaço de proteção, muitas vezes se transforma no primeiro local de violência. Não são poucos os relatos de expulsão de casa, rompimento de vínculos e abandono.

Na sequência, vem a exclusão educacional. Não se trata de “evasão escolar” voluntária. Pessoas trans não deixam a escola porque querem, mas porque enfrentam bullying, transfobia, violência simbólica e institucional, além da falta de políticas de permanência e proteção. Sem escolarização adequada, o acesso ao mercado formal de trabalho torna-se quase impossível.

Nesse contexto, a prostituição aparece como uma estratégia de sobrevivência. Embora não seja crime no Brasil, ela ocorre em ambientes marcados por múltiplas vulnerabilidades: violência física, exploração, discriminação policial, uso abusivo de drogas e alto risco de morte.

Educação que falha, cidadania que não se constrói

A educação cumpre, ao menos, três grandes objetivos: promover o desenvolvimento humano, formar para a cidadania e preparar para o mercado de trabalho. Para as pessoas trans, o sistema educacional brasileiro falha nos três:

  • falha ao não garantir um ambiente seguro e respeitoso;
  • falha ao não reconhecer identidades e trajetórias;
  • falha ao não preparar para a inserção profissional.

Essa falha estrutural empurra milhares de pessoas trans para a informalidade extrema e para contextos de violência continuada. Combater o bullying e a transfobia nas escolas não é pauta ideológica: é política pública básica de proteção à vida.

Violência letal e um ranking vergonhoso

Os levantamentos anuais realizados pela ANTRA e pela Rede Trans Brasil mostram que o Brasil permanece, ano após ano, como o país que mais assassina pessoas trans no mundo. Ainda que não existam dados oficiais confiáveis globais comparáveis — justamente porque muitos países sequer produzem esse tipo de informação —, o Brasil se destaca negativamente por ter seus números sistematizados pela sociedade civil.

A maioria das vítimas são travestis e mulheres trans, jovens, negras, em situação de prostituição e moradoras das periferias. Os crimes costumam ser marcados por extrema crueldade e alto grau de impunidade. A expectativa de vida média de uma pessoa trans no Brasil é estimada em cerca de 35 anos, menos da metade da média nacional.

Esses números não são obra do acaso. São resultado direto da omissão do Estado e da ausência de políticas públicas estruturantes.

A transfobia também existe dentro da própria comunidade

É necessário reconhecer, com honestidade, que a transfobia também esteve — e ainda está — presente dentro da própria comunidade LGBTI+. Durante muitos anos, espaços de militância foram ocupados majoritariamente por pessoas cisgêneras, e a presença de pessoas trans era vista como um “problema”, associada a estigmas como prostituição, drogas e marginalidade.

Vivenciei isso diretamente. Em 1994, no Grupo Dignidade, em Curitiba, enfrentamos um intenso debate interno quando as reuniões passaram a contar com a presença de pessoas trans. Houve resistência, medo e preconceito. Mas houve também enfrentamento, aprendizado e mudança. Conseguimos superar a transfobia interna e, posteriormente, tivemos nossa primeira diretora executiva trans: Marcela Prado. E hoje nossa presidente é uma trans, Rafaelly Wiest.

Essa experiência demonstra que transformações são possíveis quando há compromisso político, escuta e responsabilidade coletiva.

Políticas afirmativas são necessárias

Diante desse cenário, falar em “igualdade de oportunidades” sem reconhecer desigualdades históricas é uma ficção. Pessoas trans precisam, sim, de políticas afirmativas, entre elas:

  • políticas educacionais de combate ao bullying e à transfobia;
  • programas de permanência escolar;
  • formação inicial e continuada para o mercado de trabalho;
  • políticas de empregabilidade e inclusão produtiva;
  • cotas para pessoas trans em concursos públicos e incentivos à contratação no setor privado.

Essas medidas não são privilégios. São instrumentos de correção de desigualdades estruturais produzidas ao longo de décadas.

Visibilidade não pode ser só no calendário

Encerrar o mês da Visibilidade Trans não pode significar arquivar o tema até o próximo ano. A visibilidade precisa existir 365 dias por ano, em todas as políticas públicas, em todos os níveis de governo e em todas as instituições.

Enquanto o IBGE não cumprir seu papel constitucional, seguiremos dependendo do trabalho sério e corajoso da sociedade civil para contar nossas próprias histórias — e nossos próprios mortos. Mas já passou da hora de o Estado brasileiro assumir sua responsabilidade.

Sem dados, não há políticas públicas.
Sem políticas públicas, não há direitos.
E sem direitos, não há democracia plena.

Toni Reis
Professor, doutor em Educação, ativista LGBTI+ há 43 anos ,- presidente da Aliança Nacional Lgbti+, Abrafh, diretor executivo do Grupo Dignidade e diretor financeiro da Rede Gaylatino

Toni Reis

Ativista LGBTI+, cofundador da ABGLT e do Grupo Dignidade. Diretor da Aliança Nacional LGBTI+, professor e autor premiado em direitos humanos.

Mais Matérias

05 fev 2026

Como espantar tempos sombrios

Sinto vontade de me esconder em algum lugar no fim do mundo. Um tempo, sem pensar na guerra eleitoral vindo aí e outras tantas guerras (inclusive a minha…
03 fev 2026

Analfabetos democráticos

Durante a pornográfica Ditadura Militar de 1964-85, aqueles mesmos que prenderam Paulo Freire e impediram o bem sucedido…
30 jan 2026

Decisão histórica, aplicação frágil: por que a LGBTIfobia ainda não é tratada como racismo no Brasil?

Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) tomou uma decisão histórica ao reconhecer que a LGBTIfobia deve ser enquadrada como crime de racismo.
30 jan 2026

Monotonia no prato: Como viver melhor, dieta diversificada e dois livros ajudam

“Chega de veneno e comida monótona”. A frase me chegou por e-mail. Você já leu algum relatório sobre produção de alimentos?
30 jan 2026

Pontos de Cultura: quando o Estado reconhece o que o povo já faz

Há políticas públicas que nascem em gabinetes. Outras nascem nos territórios. Os Pontos de Cultura pertencem a essa segunda linhagem.

Como você se sente com esta matéria?

Vamos construir a notícia juntos