Todos os dias, ele passa ali na Praça Cornélia, uma provinciana exceção na metrópole onde vivo. Moradores de ruas e vendedores de bolos com café por dois reais, bijuterias por um real, brechó de roupas, dividem o espaço da praça. Á esquerda, tendo por referência a porta da igreja que parece justificar sua existência, ficam aquelas pessoas que conseguem passar bêbadas vinte e três horas do dia; na hora que sobrou de insuportável lucidez, gritam. A lucidez é um castigo. À direita, o ponto de ônibus e as dezenas e dezenas de mulheres. Nem seis da manhã ainda e o local fervilha de faxineiras, copeiras, atendentes de enfermagem, recepcionistas, vendedoras, diaristas, babás, serventes. O único homem é o motorista, que já as conhece e as cumprimenta pelo nome. Outros homenzinhos entram, todavia, dormindo ainda, no colo daquelas mulheres: seus rebentos, cobertos por todos os panos que puder aquecer um pedaço de pele ou de osso. Faz muito frio e uma chuva fina corta o fim de madrugada. O ônibus já vem cheio, recolhendo outras mulheres pela cidade.
O bolo de cenoura com cobertura de chocolate é, de longe, o mais vendido e com um café com leite, ajuda a começar o dia. Eu passo por elas e já não sou notado, talvez porque o faça há anos e algumas ou várias são minhas conhecidas, rostos que foram se tornando familiares. A enorme maioria já pegou outra condução, ônibus ou trem, que as trazem de periferias por vezes tão distantes que parecem abstratas referências geográficas.
Morro de vergonha por não saber nada de direito do trabalho ou de direito previdenciário e não sei, portanto, orientá-las em suas agonias; é Mesadesesperador esse eixo terrível, Patrão X Burocracia.
As mulheres do busão se adaptam a tudo da vida: moram longe, arrastam consigo suas crianças, cruzam a cidade e não faltam, não se ausentam, não esmorecem. Vencem seus companheiros e ex-companheiros, vencem suas solidões, vencem suas distâncias. Só não conseguem vencer as Mesas Burocratas e suas Autoridades.
Ouvia Gil, nos barracos da cidade, ninguém mais tem ilusão do poder da autoridade. Se pudessem, construiriam creches e escolas infantis com as próprias mãos, mas não podem. Se pudessem, explodiriam metade desses engravatados senhores e requintadas senhoras, que decidem o destino delas sem lhes olhar o rosto ou as mãos, mas não podem. Muitas ali têm seus filhos presos, uns merecidamente, outros, nem tanto e outros, ainda, absurdamente e injustamente presos. A semana terrível se soma à fila de final de semana na porta do presídio, alguns a quase extenuantes mil quilômetros, ida e volta. Aquela, de verde e vermelho, viaja tudo isso para ver seu filho, preso, traficante, mas, em verdade, um usuário, como tantos por aí, amontoado em uma penitenciária, na ponta do estado.
Muitos Promotores de Justiça as chamam de “mães do PCC” e não as atendem. Na sociedade que dizem representar, não há lugar para elas. Ninguém as defende, salvo o pastor, que as abraça e as estimula a orar. Vamos orar, é tudo o que podem fazer.
Elas estão lá, Dona Júlia tem varizes enormes, mas não pode ficar sem trabalhar, as pernas doem muito, mas nada que seja pior do que a fila para pegar cesta básica. Nenhuma delas tem o direito de subir pelos elevadores sociais, ninguém, é vero, lhes deu ordens para isso, mas a acomodação social estamentada as ensinou que existe o elevador delas e das patroas: a força da grana.
O ônibus, parado, elas começam a entrar, uma após a outra, não há empurrões, não há pressas excepcionais, apenas uma profunda resignação. As mais obesas são ajudadas, dá para engolir o último gole do café com leite e dirigir-se para a porta do busão.
Outra leva se encosta e ele sai, distribuindo as mulheres pela metrópole. Dão pela falta de Dona Glória. De novo, ela não veio, apanha do marido, segurança particular. “Ele bem que poderia morrer”, só que não. Segue vivo, para desespero de Dona Glória, que, como todas, não tem um gato para puxar pelo rabo.
As mulheres do busão.

