Debates sobre cultura digital, software livre, soberania digital e o poder exercido pelas grandes plataformas digitais se tornam cada vez mais urgentes. Quando os sistemas de inteligência artificial generativa começaram a chegar ao público, mergulhei nesse universo com a convicção de que estávamos diante de uma tecnologia que precisávamos compreender profundamente. Não apenas por curiosidade técnica, mas porque ela influenciará praticamente todas as dimensões da vida humana nas próximas décadas.
Foi nesse processo de exploração, pesquisa e uso intensivo que uma inquietação começou a ganhar forma.
Não apresento aqui resultados de uma pesquisa acadêmica, mas observações construídas a partir de uso intensivo, estudo e experimentação. Talvez justamente por isso a provocação seja relevante: precisamos investigar com mais profundidade os efeitos dessa nova arquitetura de mediação do conhecimento.
Os assistentes de inteligência artificial parecem ter uma enorme dificuldade em nos contrariar.
Não se trata de uma característica universal de todos os modelos nem de uma regra presente em todos os contextos. Mas é um padrão suficientemente recorrente para merecer atenção.
Peça uma análise de um texto medíocre e a resposta frequentemente destacará suas qualidades. Apresente argumentos frágeis, contraditórios ou superficiais e, ainda assim, a máquina encontrará maneiras elegantes de validá-los antes de apontar qualquer problema. O padrão é tão recorrente que deixa de parecer coincidência.
Quando li a coluna de Ricardo Araújo Pereira na folha deste domingo descrevendo o ChatGPT como um “puxa-saco automático”, reconheci imediatamente o fenômeno. Mas a questão que me interessa vai além da bajulação algorítmica.
A pergunta que deveríamos fazer é: por que estamos construindo máquinas assim?
Durante duas décadas, as grandes plataformas digitais aperfeiçoaram mecanismos para capturar nossa atenção. O negócio nunca foi apenas conectar pessoas. O negócio era mantê-las conectadas pelo maior tempo possível.
O resultado está diante de nós.
As redes sociais descobriram que indignação, medo e polarização geram engajamento. Algoritmos passaram a privilegiar conteúdos capazes de provocar reações emocionais intensas. A radicalização que atravessa boa parte do mundo não foi simplesmente um acidente de percurso. Em muitos aspectos, tornou-se uma consequência previsível da lógica das plataformas.
Agora, se as redes sociais aprenderam a capturar nossa atenção pelo conflito, os assistentes de inteligência artificial parecem aprender a capturá-la pela validação.
As redes descobriram que a raiva mantém as pessoas conectadas. Os assistentes parecem descobrir que reconhecimento, acolhimento e concordância também funcionam.
À primeira vista, são movimentos opostos. Mas talvez sejam apenas duas expressões de uma mesma lógica.
A timeline nos prende pela reação emocional permanente. O assistente nos prende pela sensação de estar sendo compreendido. Um mobiliza pela indignação. O outro pelo afago.
E é importante perceber que a validação não possui necessariamente orientação ideológica própria. Ela pode confortar visões progressistas, conservadoras ou extremistas. Pode reforçar convicções corretas ou equivocadas. Quando a crítica cede espaço à confirmação, o risco não é apenas a anestesia intelectual. É a redução do atrito necessário para que qualquer pessoa confronte suas próprias certezas.
Em ambos os casos, a lógica econômica permanece a mesma: manter nossa atenção, ampliar nossa dependência e transformar comportamento humano em ativo estratégico.
O conflito das redes sociais e a cordialidade dos assistentes parecem caminhos diferentes, mas convergem para o mesmo destino: consolidar uma arquitetura de dependência e uso cada vez mais intenso a serviço da acumulação das grandes plataformas tecnológicas.
Por isso a discussão sobre inteligência artificial não pode ser reduzida a uma conversa sobre produtividade ou inovação.
Estamos falando de infraestruturas que passam a mediar o acesso ao conhecimento, a produção de informação, a educação, a comunicação, o trabalho e, cada vez mais, a própria formação de opinião.
Toda tecnologia incorpora valores. Toda arquitetura digital expressa escolhas. Toda decisão sobre o que um sistema prioriza, responde, omite ou desencoraja possui implicações sociais e políticas.
A inteligência artificial não surge fora da história. Ela é produto de um modelo de desenvolvimento tecnológico marcado pela concentração de dados, pela dependência de infraestruturas privadas e pela crescente centralização do poder digital em poucas corporações globais.
É por isso que o debate sobre IA precisa ultrapassar o fascínio tecnológico.
Precisamos falar de soberania digital, transparência e governança democrática. Precisamos discutir quem controla os modelos, os dados, a infraestrutura computacional e os recursos estratégicos que tornam essa tecnologia possível.
O Brasil não parte do zero. Possui uma Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA), um Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), discute um marco regulatório por meio do PL 2338/2023, possui esforços conduzidos pelo Laboratório de Inteligência Artificial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, entre outras iniciativas.
São passos importantes e que merecem reconhecimento. Mas sua fragmentação, aliada ao sistemático boicote promovido pelas bigtechs fragilizam os esforços empreendidos, nos deixando em velocidade muito aquém da ousadia necessária para nos tornarmos atores relevantes no cenário global.
A disputa entre Estados Unidos e China pela liderança em inteligência artificial já reorganiza cadeias produtivas, investimentos bilionários, infraestrutura computacional, política industrial e estratégias geopolíticas em todo o planeta. O debate sobre semicondutores, data centers, capacidade de processamento e minerais estratégicos — incluindo as terras raras hoje em discussão no Brasil — tornou-se parte da disputa pelo poder global neste século.
Diante desse cenário, não basta regular. Não basta consumir tecnologia produzida por outros países. É preciso construir capacidade nacional.
O Brasil precisa transformar inteligência artificial em agenda estratégica de desenvolvimento. Isso significa fortalecer universidades e centros de pesquisa, investir pesadamente em infraestrutura computacional, ampliar a capacidade nacional de armazenamento e processamento de dados, estimular ecossistemas tecnológicos próprios e identificar áreas nas quais podemos construir liderança internacional.
Agricultura, saúde pública, gestão ambiental, prevenção de eventos climáticos extremos, cultura e economia criativa são exemplos de campos nos quais podemos combinar inteligência artificial, conhecimento científico e inteligência territorial para produzir soluções com identidade brasileira.
Porque a questão não é apenas quem utilizará a inteligência artificial.
A questão é quem irá desenvolvê-la, controlá-la e definir seus rumos.
Talvez o maior risco não seja uma máquina pensar por nós.
Talvez seja nos acostumarmos a máquinas que raramente nos desafiam a pensar contra nós mesmos.
E essa não é uma discussão sobre tecnologia.
É uma discussão sobre democracia, autonomia, soberania e futuro.
Um futuro que já começou e para o qual o Brasil ainda está olhando menos do que deveria.
