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Belchior, 80 anos: a história por trás de uma obra que não envelhece

Belchior completaria 80 anos na última segunda (26), data lembrada com filmes, livros, shows e novos discos dedicados à obra do cantor e compositor nascido em Sobral, no Ceará. Morto em 2017, aos 70 anos, o artista deixou canções que seguem presentes no cotidiano brasileiro e chegam a novas gerações, como mostra um levantamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

Segundo o escritório, “Como Nossos Pais” foi a composição de Belchior mais executada publicamente no Brasil nos últimos cinco anos e também a mais regravada, com 121 registros. A canção, conhecida nacionalmente na voz de Elis Regina, integra Alucinação, álbum lançado em 1976 que também completa 50 anos em 2026.

O disco ocupa lugar central na trajetória do cearense e reúne títulos como “Apenas um rapaz latino-americano” e “Velha Roupa Colorida”. A força desse repertório ajudou a manter seu nome em evidência, embora sua produção inclua outras canções, parcerias e discos que também voltam a receber atenção.

O Ecad contabiliza 237 obras e 392 gravações vinculadas ao compositor em sua base de dados. Depois de “Como Nossos Pais”, as músicas mais tocadas no período pesquisado foram “Coração Selvagem” e “Comentário a respeito de John”, esta última escrita com José Luiz Penna.

De Sobral para a música brasileira

(Foto: TV Cultura/Divulgação)

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes nasceu em 26 de outubro de 1946 e cresceu em uma família em que a música fazia parte da rotina. A mãe cantava no coral da igreja, enquanto o rádio e os cantadores populares ofereciam ao menino outras formas de ouvir e contar histórias.

Ainda jovem, estudou piano e se apresentou em eventos musicais, antes de passar uma temporada em uma comunidade de frades capuchinhos em Guaramiranga, na serra cearense. A experiência religiosa e o contato com a literatura se somaram às referências que mais tarde apareceriam em sua produção artística.

Ao se mudar para Fortaleza, aproximou-se de músicos que também procuravam espaço para suas composições. Entre eles estavam Fagner, Ednardo, Amelinha, Jorge Mello, Rodger Rogério e Teti, associados pela imprensa ao chamado Pessoal do Ceará.

Belchior chegou a ingressar na faculdade de Medicina, mas deixou o curso para seguir outros caminhos. Em 1971, no Rio de Janeiro, venceu o IV Festival Universitário da MPB com Na hora do almoço, conquista que ajudou a apresentar seu trabalho a um público maior.

No ano seguinte, foi para São Paulo e compôs trilhas para curtas-metragens, ao mesmo tempo que levava sua música a teatros, escolas, fábricas e outros espaços. Também em 1972, Elis Regina gravou Mucuripe, parceria com Fagner, aproximando o repertório dos compositores cearenses de ouvintes de todo o país.

O primeiro álbum veio em 1974, seguido, dois anos depois, por Alucinação. Naquele período, a música de Belchior ganhou alcance nacional com letras que abordavam conflitos pessoais, a vida nas cidades e as dificuldades de uma geração que buscava seu lugar durante a ditadura militar.

Belchior, 80 anos: canções que continuam a circular

(Foto: Reprodução)

Em Alucinação, Belchior reuniu uma escrita marcada pelo encontro entre a experiência de quem deixava o Nordeste e as transformações culturais do país. Suas letras falavam de juventude, amor, trabalho e liberdade, sem deixar de lado as dúvidas e contradições de seus personagens.

O compositor também dialogava com outros artistas dentro das próprias canções, incorporando referências à música brasileira e internacional. Os Beatles e nomes ligados ao tropicalismo estavam entre as presenças que atravessavam seus versos, em uma obra que aproximava o cotidiano de discussões sobre cultura e política.

Musicalmente, seu repertório combinava elementos do rock e do folk com ritmos brasileiros, entre eles o baião. A voz de interpretação direta e as letras extensas se tornaram marcas de uma produção que continuou efervescente depois do sucesso de 1976.

Entre as canções mais executadas apontadas pelo Ecad estão ainda “Paralelas”, “A palo seco”, “Medo de Avião”, “Sujeito de Sorte” e “Mucuripe”.

Fagner é o artista com o maior número de registros de obras de Belchior no cadastro do escritório, com 57 gravações. Além de “Como Nossos Pais” e “Mucuripe”, aparecem entre as composições mais regravadas “Paralelas”, “A palo seco” e “Tudo outra vez”.

A circulação das músicas se soma ao interesse de pesquisadores pelas referências literárias e musicais presentes nas letras do compositor. Ao longo dos anos, sua obra passou a ser estudada em universidades e reinterpretada por artistas de diferentes gerações.

A filha caçula do cantor, Vannick Belchior, lançou em outubro seu primeiro álbum, Meu nome é Cem, dedicado ao repertório do pai. O disco reúne sucessos e faixas menos conhecidas, como “Notícia de terra civilizada” e “Monólogo das grandezas do Brasil”, esta última com participação de Renato Teixeira.

Afastamento e homenagens

(Foto: Reprodução)

Depois de décadas de gravações e apresentações, Belchior se afastou da vida pública nos anos 2000, deixando de fazer shows e reduzindo o contato com a imprensa. Sua ausência provocou especulações sobre seu paradeiro, enquanto ele passava temporadas no interior do Brasil e no Uruguai, ao lado da companheira Edna Prometheu.

Nesse período, o músico também enfrentou processos judiciais e teve bens bloqueados. Em 2009, concedeu uma entrevista à televisão, mas voltou a viver longe dos palcos nos anos seguintes.

Belchior morreu em 30 de abril de 2017, em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, em decorrência de um rompimento da aorta. Seu corpo foi levado para Fortaleza, onde ocorreu o sepultamento.

Em 2026, as homenagens pelos 80 anos de nascimento e pelos 50 anos de Alucinação incluem produções que procuram olhar para diferentes momentos de sua vida. O documentário Alucinação, exibido pela primeira vez no Festival do Rio, usa imagens de arquivo e o álbum de 1976 para revisitar o país daquele período.

Outro projeto é o longa Viver é melhor que sonhar, com estreia prevista para 3 de dezembro e foco nos últimos anos do compositor. O filme tem Luiz Carlos Vasconcelos no papel de Belchior e Isabela Garcia como Edna, sua companheira.

A programação também inclui livros sobre o músico e o relançamento da obra que inspirou o longa. Entre gravações, apresentações e pesquisas, suas canções seguem encontrando um público cada vez maior, quase uma década depois de sua morte, demonstrando o poder de seu cancioneiro.

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