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Dá para explicar Lei Rouanet para quem não assimilou a Lei Áurea? Uma análise da fala de Wagner Moura

A afirmação extremamente poderosa feita por Wagner Moura, infelizmente não atingirá quem deveria ser atingido. Cheia de significado e efeito, é uma crítica feita a quem se alimenta da ignorância cultural.

Embora a Lei Áurea seja símbolo de um processo inacabado e mal compreendido, é ao menos um marco do fim da escravidão oficial. Fato que COM CERTEZA irrita até hoje muita gente, pessoas que negam a reparação e, até mesmo, que a escravidão exista ou tenha existido.

A Lei Rounet é uma forma de fazer com que a cultura consiga “respirar um pouco melhor”. Esse papo de “mamar na Lei Rounet” é tão velho e tão explicado, mas os mesmos que são a favor da escravidão moderna, também querem que a cultura agonize sem apoio nenhum.

Assim como a abolição não foi um ato benevolente da Princesa Isabel, a Lei Rouanet não resolve os problemas de custeio do setor no país, mas é um caminho a ser seguido, desde que haja boa vontade e encerramento das propagandas de desinformação.

A Lei Rouanet é usada como um símbolo do debate sobre o papel do Estado no fomento à cultura. Um mecanismo de renúncia fiscal que permite que projetos culturais, muitos deles periféricos e marginalizados, existam. Quem a ataca frequentemente a enxerga como um “gasto” com “artistas vagabundos”.

Wagner Moura argumenta que a mesma mentalidade que não compreende a dimensão trágica e inacabada da abolição é a que não consegue entender a necessidade de o Estado incentivar a cultura.

Se você não entende que o Estado tem uma dívida histórica com uma parcela da população que foi escravizada e depois abandonada, como vai entender que o mesmo Estado tem o dever de criar mecanismos para que os descendentes dessa população tenham acesso à produção e à fruição cultural?

A pessoa que considera investimento em cultura “um desperdício” é, na visão embutida na frase de Moura, a mesma que acha que a abolição resolveu a questão racial no Brasil. Visões que negligenciam o papel do Estado em corrigir desigualdades históricas e em construir uma cultura que seja plural, e não apenas refletora de uma elite.

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