Documentário “Anatomia do Caos” investiga omissões na gestão da pandemia da Covid-19 no Brasil
Após uma estreia marcante na ficção com a cinebiografia de Gal Costa, “Meu Nome É Gal”, a diretora baiana Dandara Ferreira retorna ao circuito cinematográfico com uma proposta radicalmente distinta — e profundamente necessária.
Em “Anatomia do Caos”, que chega aos cinemas no dia 2 de julho, a cineasta mergulha no campo do documentário político para revisitar um dos períodos mais traumáticos da história recente do Brasil: a pandemia de Covid-19.
Com distribuição da Descoloniza Filmes, o longa se constrói a partir dos bastidores da CPI da Covid, instalada no Senado Federal em 2021 para investigar as omissões do governo federal durante a crise sanitária.
Dandara teve acesso privilegiado aos corredores da comissão, captando depoimentos, tensões e articulações que raramente chegaram ao público. O resultado é um mosaico contundente que articula imagens inéditas, documentos e entrevistas com parlamentares, compondo um retrato denso sobre a condução da pandemia no país.
Mais do que um registro factual, “Anatomia do Caos” se insere em uma tradição do cinema que busca tensionar a memória coletiva e provocar reflexão política. Ao revisitar decisões consideradas deliberadas, a ausência de respostas coordenadas e o negacionismo institucional, o filme expõe as fissuras de um sistema que falhou diante de uma emergência global. Uma falha que, segundo dados oficiais, culminou na morte de mais de 700 mil brasileiros.
A gênese do projeto remonta a abril de 2021, quando o Brasil vivia um dos momentos mais críticos da pandemia. Movida pela urgência de documentar aquele cenário, Dandara Ferreira decidiu ir a Brasília. “O que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo maior do que uma crise sanitária. Havia uma disputa brutal em torno da própria realidade”, afirma a diretora.
Essa percepção se traduz no filme como uma narrativa que vai além dos números e estatísticas, explorando o embate entre versões, discursos e interesses que marcaram o período. Em tempos de disputas sobre memória e verdade, “Anatomia do Caos” se posiciona como uma obra que reivindica o papel do cinema como ferramenta de investigação, denúncia e construção histórica.
Se em “Meu Nome É Gal” Ferreira celebrava a potência artística e política de uma das maiores vozes da música brasileira, agora ela desloca seu olhar para um Brasil ferido — e ainda em busca de respostas. O resultado é um filme que não apenas revisita o passado recente, mas lança perguntas incômodas sobre responsabilidade, justiça e o futuro da democracia no país.
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