“Escaldada”, democracia brasileira desenvolveu “vacina” contra autoritarismo; EUA não
Na edição desta semana, a revista britânica “The Economist” – considerada um espécie de “oráculo” do liberalismo – trouxe matéria de capa na qual afirma que, ao julgar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe do Estado, o Brasil dá um exemplo ao mundo de maturidade democrática. Segundo a publicação, essa lição fica ainda mais evidente quando se considera que na outrora “maior democracia do Ocidente”, Donald Trump não só saiu ileso após liderar a invasão do Capitólio para impedir a posse do adversário, como foi novamente eleito presidente dos Estados Unidos.
Constituição de 88 fez do STF um “guardião”
No mesmo artigo, a Economist atribui a resiliência da democracia brasileira ao fato do país ter uma memória da ditadura ainda “fresca”. E que a restauração do Estado Democrático de Direito com a Constituição Federal de 1988, deu ao Supremo Tribunal Federal o papel de guardião contra o autoritarismo.
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Instituições dos EUA falharam e “frear” Trump
Em entrevistas recentes à imprensa brasileira, o coautor do best seller “Como morrem as democracias”, Steven Levitsky, fez uma análise semelhante. Segundo ele o Judiciário e o Congresso americano, além da própria sociedade, falharam em colocar um freio em Trump, porque os EUA não têm uma “memória coletiva de autoritarismo”. “A gente nunca perdeu a nossa democracia, a gente não tem experiência com autoritarismo”, disse.
Proximidade histórica
O cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná, Emerson Urizzi Cervi, também considera que a proximidade histórica com a ditadura militar fez com que o Brasil desenvolvesse uma espécie de “vacina” contra golpes autoritários. “A grande diferença está na experiência autoritária que o Brasil já teve e que os Estados Unidos nunca passaram”, explica. “A ditadura militar fez com que o País desenvolvesse uma certa ‘blindagem’ do Judiciário”, completa.
Por outro lado, afirma Cervi, nos Estados Unidos tradicionalmente a democracia se resolvia mais no campo da política e não pela via judicial. O cientista cita o próprio Levitsky, segundo o qual o problema da democracia americana é que as instituições que uniam o poder e a sociedade se enfraqueceram. Cervi ressalta que o Judiciário estadunidense não conseguiu agir com a celeridade necessária para julgar Trump, algo diferente do que ocorreu no Brasil.
Bolsonarismo sem Bolsonaro
De acordo com o professor, o tarifaço de Trump contra o Brasil, articulado pela família Bolsonaro tende a isolar o clã do ex-presidente. “O baque que essa decisão do Trump teve sobre o bolsonarismo e sobre as bases, em especial, de sustentação econômica desse movimento, foi muito grande”, considera.
A tendência, segundo ele, é que em 2026, o País assista ao surgimento de um “bolsonarismo sem Bolsonaro”. “Uma boa parte dos políticos que se elegeram e que hoje continuam usando a etiqueta bolsonarista tenderão a se afastar do clã bolsonaro”, prevê.
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