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Flávio pagou R$ 600 mil a empresa americana especialista na interferência de eleições

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança associada, em documentos obtidos pelo Intercept Brasil, à oferta de uma ferramenta de inteligência artificial para interferência clandestina em eleições. Os valores aparecem nas contas eleitorais de 2026, enquanto o material descreve uma operação apresentada nos Estados Unidos que permitiria segmentar eleitores e espalhar conteúdos para prejudicar adversários.

Não há comprovação de que essa tecnologia tenha sido utilizada pelo candidato ou pelo partido na disputa brasileira. A campanha afirma ter contratado proteção contra ataques cibernéticos, e a Elytron nega oferecer ou executar serviços de manipulação política, disseminação de notícias falsas ou produção de deepfakes.

Pagamentos e registros eleitorais

Segundo o levantamento publicado pelo Intercept, o DivulgaCand registra três notas fiscais emitidas pela empresa para a campanha, duas de R$ 500 mil em setembro e outra de R$ 100 mil em outubro. Uma das primeiras foi cancelada, levando o total dos pagamentos registrados a R$ 600 mil, embora a prestação parcial entregue no fim de setembro informasse despesa de R$ 1 milhão.

As notas apresentam os trabalhos como consultoria em tecnologia da informação e relacionam atividades de apoio forense, investigação de ataques digitais, testes de segurança e acompanhamento da infraestrutura. Separadamente, o PL declarou um desembolso de R$ 131,9 mil à companhia, registrado em julho sob uma descrição genérica de serviços técnicos.

Os documentos sobre a ferramenta foram fornecidos ao veículo por um ex-consultor que trabalhou com representantes da empresa entre 2024 e 2025. Segundo seu relato, o sistema chegou a ser demonstrado a pessoas próximas da campanha presidencial de Donald Trump, em 2024, mas não existe confirmação de contratação pelos republicanos.

Dados, perfis falsos e negativas

O material examinado pela reportagem descreve o cruzamento de informações sociais, econômicas e políticas para identificar públicos e direcionar mensagens conforme características individuais ou regionais. Também apresenta propostas de criação de perfis fictícios, circulação de boatos, infiltração em redes adversárias e distribuição coordenada de conteúdos, incluindo imagens e vídeos produzidos com inteligência artificial.

O ex-consultor afirmou que rompeu com o grupo após conhecer essas funcionalidades e considerar a operação incompatível com parâmetros éticos e legais. Ele relatou ter comunicado o caso a autoridades americanas, sem avanço das apurações, e procurado o Intercept depois de tomar conhecimento dos pagamentos feitos pela campanha brasileira.

Em resposta ao veículo, a equipe de Flávio sustentou que a contratação ocorreu regularmente e teve como finalidade exclusiva proteger sistemas de comunicação contra possíveis invasões e outras ameaças no ambiente digital. A empresa declarou que os serviços prestados ao senador e ao PL eram preventivos e defensivos, voltados à confidencialidade das informações e à segurança tecnológica.

A Elytron também negou ter autorizado apresentações comerciais de operações de influência ou atendido à campanha de Trump, anunciando que investigará eventual utilização indevida de seu nome. Representantes ligados à atuação europeia confirmaram contato com o ex-consultor, mas contestaram as reuniões com republicanos e a oferta de manipulação eleitoral, enquanto a companhia brasileira os classificou como parceiros comerciais independentes.

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