O Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma ação na Justiça Federal da Paraíba acusando a União e o governo estadual de responsabilidade por violações cometidas contra integrantes das Ligas Camponesas durante a ditadura militar. A ação foi protocolada na última terça-feira (26) e sustenta que órgãos de segurança atuaram em conjunto com grandes proprietários rurais na repressão a trabalhadores do campo entre as décadas de 1960 e 1980, utilizando, inclusive, de fornalhas para a ocultação de corpos.
Segundo a denúncia, revelada em reportagem do Uol, militares do Exército e agentes da Polícia Militar teriam participado de uma estrutura de perseguição voltada a lideranças rurais e trabalhadores organizados no movimento camponês. O MPF aponta a ocorrência de prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos forçados e assassinatos em regiões dominadas pela indústria sucroalcooleira da Paraíba.
Entre os casos destacados estão os desaparecimentos de João Alfredo Dias, conhecido como Nego Fuba, e Pedro Inácio de Araújo, o Pedro Fazendeiro. Ambos eram lideranças das Ligas Camponesas e desapareceram após serem retirados da custódia militar em 1964. Os dois são reconhecidos pela Comissão Nacional da Verdade como os primeiros desaparecidos políticos oficialmente registrados durante o regime militar.
A investigação também menciona relatos de práticas de tortura aplicadas a trabalhadores rurais e aponta que instalações de usinas de açúcar teriam sido utilizadas para ocultação de crimes. De acordo com o MPF, existem testemunhos que indicam a destruição de corpos em fornalhas industriais para eliminar vestígios das vítimas.
A ação descreve ainda a atuação de grupos armados financiados por latifundiários da região, que teriam operado em colaboração com forças de segurança após o golpe de 1964. O órgão sustenta que essa articulação contribuiu para o enfraquecimento das Ligas Camponesas, movimento que chegou a reunir cerca de 40 mil associados na Paraíba antes da instalação do regime.
Como reparação, o MPF pede indenização coletiva de R$ 1 milhão, medidas de preservação da memória histórica, investigações sobre desaparecimentos, pedidos públicos de desculpas e ações voltadas à educação em direitos humanos. Até o momento, os órgãos citados na ação não haviam se manifestado sobre o caso.
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