Em dezembro de 2025, quando fazia um trabalho de extensão em saúde indígena na aldeia Kuaray Guata Porã, em Guaraqueçaba, no Litoral do Paraná, o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Thiago Bagatin, ouviu um alerta premonitório do pajé Tchamoi: “Ó, Thiago, vai acontecer uma coisa importante na sua vida. Que você acha que você tá numa zona de conforto”.
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Cético, Thiago não levou o aviso a sério. Militante de esquerda desde os tempos de movimento estudantil, na época ele já tinha um longo histórico de ativismo político, seja como filiado ao PT e depois, em 2005, como um dos fundadores do PSOL no estado, tendo no currículo, inclusive, diversas candidaturas a vereador e deputado, sem pretensões que não a de fortalecer a luta progressista em uma região tradicionalmente conservadora. Naquele momento, o psicólogo de formação não pensava em nova aventura eleitoral, planejando apenas continuar a ajudar como cidadão e influenciador das redes na luta contra a extrema-direita.
Tudo mudou poucos dias depois, na tarde de 1º de janeiro, quando curtindo a folga de Ano Novo na praia Brava com a família em Matinhos, outro município litorâneo paranaense, Thiago foi abordado pelo repórter Luan Pereira, da RPC, emissora local da TV Globo ao vivo no jornal “Meio Dia Paraná”. Seria apenas mais uma daquelas típicas entrevistas clichês de época de férias não fosse a presença de espírito do professor ao ser questionado se estava “curtindo” o clima de verão com Sol na praia. “Ah, maravilha, nê, Sol, mar gostoso, Bolsonaro preso. Não tem nada melhor que isso”.
Foi o bastante para virar a vida de Thiago do avesso. Ele que já tinha 200 mil seguidores no Tik Tok viu seu perfil no Instagram pular de 60 mil para 120 mil e depois para 170 mil seguidores. Dias depois, ao reencontrar o pajé Tchamoi, foi obrigado a ouvir novamente e concordar: “Ó, Thiago, você não tem muito como fugir, cara, você vai ter que sair da tua zona de conforto”.
Menos de seis meses depois, o professor virou pré-candidato a deputado estadual pelo PC do B, dessa vez com expectativa real de eleição. Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, Thiago conta em detalhes essa história de acasos e coincidências que o recolocou de volta à cena política em um momento decisivo para a história brasileira, em que uma eleição vai novamente decidir o futuro do País entre um projeto democrático popular e outro, autoritário e golpista.
Apesar de reconhecer que o Paraná é um estado eminentemente conservador, ele se diz otimista. Acha que a esquerda tem espaço para crescer mesmo na terra de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Para isso, defende que o campo progressista apresente um novo projeto de desenvolvimento nacional, mas principalmente, que reúna forças políticas capazes de evitar o risco de um retrocesso civilizatório de consequências catastróficas para o futuro do País.
BFC: o começo no movimento estudantil
Thiago Bagatin: eu nasci em Curitiba. Meu pai na verdade nasceu em Joaquim Távora, no Norte Pioneiro. Passou a infância, a parte da adolescência lá, mas com 17 anos veio para Curitiba e viveu a vida toda aqui. A minha mãe é professora de escola pública na Vila São Pedro, e meu pai é corretor de imóveis. Sou psicólogo de formação. Tenho mestrado em educação, doutorado em psicologia e atualmente eu sou professor da UFPR. No curso de saúde coletiva, na UFPR Litoral, Matinhos.
Na UFPR estou há um ano. Mas passei dois anos no Mato Grosso do Sul também, como professor da UFMS no curso de psicologia.
Comecei a militar, a ser um ativista político quando ainda estava no ensino médio, no grêmio estudantil. Me filiei ao PT. Comecei a participar da vida partidária em 2000, mais ou menos. Em 2002, teve a campanha do Lula então me joguei. Em 2003 teve a reforma da previdência, a fundação do PSOL. Logo em seguida começou todo um movimento em 2004, e em 2005 eu fui um dos fundadores do PSOL no Paraná. Fiquei mais de 20 anos construindo o Partido Socialismo e Liberdade.
Acho que eu sou o primeiro (na família) a participar mais ativamente (da política). Foi um interesse no grêmio estudantil mesmo. Na faculdade entrei pro centro acadêmico. Fui quatro anos do centro acadêmico de psicologia da UFPR, e do Diretório Central dos Estudantes por duas gestões. Participei da CONEP, que é a Coordenação Nacional dos estudantes de psicologia. Depois de formado, quando terminou a graduação, eu e uns colegas na época resolvemos entrar no Sindicato dos Psicólogos. Fui presidente do Sindicato do Paraná por duas gestões também.
Fui candidato algumas vezes. Fui candidato pelo PSOL muito naquela tentativa de um partido inicial, ainda em construção para marcar posição, tentar construir ideias mesmo, um programa, mas nunca teve chance real. Apesar de que houve algumas vezes em que a gente quase elegeu. Até com o (hoje deputado estadual pelo PT do PR) Renato Freitas em 2016, faltaram 1 mil e poucos votos. Bateu na trave o PSOL em algumas vezes para a vereança em Curitiba. Mas a minha candidatura em especial sempre foi para marcar posição.
Fui candidato a vereador, a deputado federal também pelo PSOL. Cheguei a fazer 5.366 votos para deputado federal em 2014. Em 2020 eu fui candidato para um mandato coletivo dentro do PSOL. A gente tentando inovar, construir candidaturas que não tivessem um personalismo tão exacerbado. Foi uma candidatura bem interessante, com o mandato coletivo Ecoa. Tinha indígenas, pessoas negras, mulheres, era uma chapa paritária.
BFC: o ao vivo na praia
Thiago: foi uma coisa incrível. Porque eu estava no Mato Grosso do Sul, morando lá até o início de 2025. Quando eu voltei ao Paraná, passei no concurso da UFPR litoral. Eu estava ajeitando minha vida política ainda. O PSOL já tinha me procurado para saber se eu ia ser candidato. Falei: “Ó, não não pretendo ser candidato. Acho que essa fase de construir partido, programa já passou. Mas quero contribuir com as candidaturas da esquerda. Principalmente com a candidatura do presidente Lula, que é uma tarefa fundamental para todo militante de esquerda.” Então essa era a minha tarefa até final de 2025.
Aí eu tive uma conversa com o Tchamoi, da Aldeia Guatá Porã, uma aldeia guarani. Tenho um projeto de extensão nas aldeias guaranis do litoral do Paraná. A gente atua fazendo mutirões, sempre voltado à saúde indígena, pensando na valorização das tradições, nas práticas de saúde próprias do povo guarani. O Tchamoi falou para mim: “Ó, Thiago, vai acontecer uma coisa importante na sua vida. Que você acha que você tá numa zona de conforto”. E de fato, eu estava no Mato Grosso do Sul longe das minhas filhas.
Quando eu vim para o Paraná, para mim estava realizado. Concursado, professor, morando na praia, já praticamente aposentado. Achei que estava confortável. E ele falou: “Ó, vai acontecer uma coisa importante na sua vida”. Mas eu não dei muita bola. Sempre me considerei ateu, falei: “Não. O que pode acontecer num momento como esse da minha vida?” Aí, no primeiro de janeiro de 2026, estava na praia com a família. Estavam minhas filhas, minha mãe, meu pai, meu irmão, meus primos, tios, todo mundo ali. E o repórter da Globo, o Luan Pereira, começou a circular nas barracas no horário do almoço perguntando quem poderia dar entrevista, que seria ao vivo. Ele chegou até a nossa barraca, perguntou assim: “vocês são de onde?” Ali tinha pessoas de vários lugares. Meus tios eram de Joaquim Távora (região Norte do Paraná). Meus pais, minha família de Curitiba. Eu de Matinhos. Aí eu falei: “se vocês querem um turista”, apontei pro meu tio. “Meu tio é o mais de de mais de longe, ele é de Joaquim Távora”.
Meu tio falou assim: “Não, eu não quero falar”. Daí todo mundo apontou pro meu pai, que era o mais velho do grupo. Meu pai também não quis. Aí pronto, todo mundo apontou para mim porque eu já tinha um canal de vídeos na internet. Já tinha viralizado algumas vezes no TikTok. Eu já tinha mais de 200 mil seguidores no TikTok na época. No Instagram eu tinha cerca de 60 mil seguidores antes desse fato. Apontaram para mim até por já ter uma experiência em comunicação. Eu: “Ah, tudo bem, posso falar”.
As pessoas falam: “foi combinado com o repórter, fale a verdade”. Não foi. Ele falou: “vou começar uma entrevista ao vivo, circular nas barracas e chegar até você”. Foi isso. O combinado foi isso. Só disse como aconteceria a entrevista. Não falou quanto tempo, que tipo de pergunta ia fazer. Desde o momento que ele conversou com a gente até de fato chegar na barraca, deu em torno de 5 minutos, mais ou menos. E eu fiquei imaginando: “o que que ele vai perguntar?” Bom, o básico que os repórteres perguntam nesse momento é o que a gente tá achando da praia. Aí eu pensei: “Bom, vou encaixar um ‘Bolsonaro preso’ na hora”. Porque também tem uma outra questão, as pessoas falam assim: “Nossa, foi tão espontâneo!” Foi espontâneo, mas o “Bolsonaro preso” foi planejado. Eu já queria falar o “Bolsonaro preso”. Mas imaginei também que seria algo curto, então não poderia fazer um discurso grande. Também não poderia começar falando de política porque o cara ia me cortar. Então o que eu pensei? Falei assim: “Vou falar qualquer coisa que venha na cabeça na hora e encaixo um ‘Bolsonaro preso’ no finalzinho da frase, que daí não tem como ele cortar”. Essa parte foi planejada. E de fato ele perguntou exatamente o que eu imaginei.
Essas entrevistas são tão previsíveis. Acho que é justamente por conta da imprevisibilidade que talvez a entrevista tenha causado tanto impacto. Porque todo mundo que comenta que assistiu ao vivo fala assim: “Nossa, a gente tava lá fazendo o almoço e tal”. Todo mundo já imaginava mais ou menos qual era o roteiro. Como terminaria o jornal naquele momento. “O que que tá achando da praia? Ah, legal, gostoso, tô aqui com a família, primeiro de janeiro”. Todo mundo achava que seria assim, como sempre é, na realidade. E aí de repente escuta um cara falando “Bolsonaro preso” na hora. Acho que aquilo causou um choque. Um impacto. As pessoas ficaram meio sem reação. Eu comecei a imediatamente receber muitas mensagens assim no WhatsApp, no Instagram. Muita gente falando: “Nossa, vi você na praia agora. Não tinha certeza se era você mesmo. Aí quando falou ‘Bolsonaro preso’, eu sabia que era você”. Porque quem me conhecia já sabia que eu não iria perder uma oportunidade como essa. E a minha vida, desde a eleição do Bolsonaro em 2018, se tornou com foco de enfrentar a extrema-direita.
Acho que é uma tarefa dos militantes, da esquerda hoje, a gente enfrentar o fascismo, a intolerância, tudo que representa o bolsonarismo do Brasil. Naquele momento deu uma virada de chave na minha vida. Quando eu falei a frase, o repórter perguntou o que tava achando e eu falei: “Ah, é uma maravilha, né? Então o sol, mar gostoso, Bolsonaro preso, não tem nada melhor do que isso” Essa foi a frase, curta e direta. Aí eu lembrei do Tchamoi. Imediatamente. Tchamoi, que é o líder espiritual dos guaranis, falei: “Caramba, não é que ele tinha razão mesmo? Alguma coisa que ia me tirar da zona de conforto”. Até então ainda não tinha me colocado a tarefa de ser candidato. Então eu comecei a ser procurado em janeiro mesmo por vários partidos do campo progressista. Eu já estava filiado ao PSOL, mas ainda não queria ser candidato. Mas a gente participou do Nhemongarai, que é o ritual de batismo dos guaranis na Guata Porã, e o mesmo Tchamoi conversou comigo e falou também: “Ó, Thiago, você não tem muito como fugir, cara, você vai ter que sair da tua zona de conforto”.
Desde 2019, eu tenho alguns projetos em aldeias indígenas. A gente organizava mutirões, fazia bastante ações de auxílio aos indígenas em Curitiba e litoral do Paraná. Quando eu fiquei no Mato Grosso do Sul, o meu projeto de extensão foi junto com os Ofaié, que é uma etnia que tem só no Mato Grosso do Sul. Fiquei dois anos com os Ofaié lá. Quando retorno para Matinhos, o Paraná, o foco está acontecendo no litoral.
Esse projeto (no litoral do Paraná) é financiado pelo Ministério da Saúde. Eu tenho 10 bolsistas, é o projeto AfirmaSUS. O nome do projeto é Tekoaraped. Mas o programa do Ministério da Saúde é AfirmaSUS. E tem mais de 100 projetos no Brasil inteiro de extensão financiados para atuar com populações vulneráveis. O nosso foco aqui é nas aldeias, saúde indígena. Na Guata Porã, a gente está construindo com eles uma cartilha sobre as ervas medicinais ou os “remédios do mato”. Como se fosse as ervas medicinais dos juruás. Juruás somos nós, os não indígenas.
BFC: os primeiros virais nas redes
Thiago: isso também foi uma coisa bem imprevisível. E tenho duas filhas, uma de 18, uma de 14 anos, e na eleição de 2022, minha filha mais velha de 18 anos entrou numa trend nas redes sociais que eram adolescentes tirando sarro de pais bolsonaristas. Ela tinha o TikTok para fazer dancinhas e resolveu gravar um vídeo comigo tirando sarro, mas ao invés de falar que eu era bolsonarista, falou que eu era petista, “meu pai petista”. Eu nem lembro exatamente como que era a trend. E aí aquilo no perfil dela já deu uma certa viralizada, porque algumas pessoas começaram a comentar: “Mas como é que pode um adolescente com pai petista? Não é uma coisa inusitada?” Normalmente é o contrário. Os mais velhos são bolsonaristas. E muita gente comentando no perfil dela, falei: “Vou criar um perfil no TikTok” para responder ela. Tirei sarro dela por ela ser bolsonarista. Só que ela não é bolsonarista. Na época, como era uma brincadeira, eu fui tirar sarro dela porque ela era bolsonarista, uma adolescente bolsonarista. Daí sim viralizou. Porque muita gente começou a falar: “Como é que pode uma menina de”, na época ela tinha 15 anos, mais ou menos, “uma menina de 15 anos bolsonarista. E até explicar depois que ela não era bolsonarista demorou. Mas eu achei interessante que teve uma ressonância.
Eu já com uma certa idade, criei um perfil no TikTok, uma uma rede social de adolescentes, entrei numa trend para falar de política, as pessoas começaram a discutir o assunto, falei: “Pô, que interessante, vou apostar nisso”. E comecei a fazer vídeos. Vídeos mais engraçados, criei alguns personagens e daí a partir de então eu comecei a crescer. Tive vídeos que chegaram a 3 milhões de visualização antes ainda do que aconteceu na praia. No Instagram eu normalmente repostava o que fazia no TikTok, mas o foco sempre era TikTok. Tanto é que depois da entrevista na praia meu TikTok cresceu muito pouco. Eu tinha acho que 250 mil, agora eu tô com 270 mil (seguidores). Cresceu cerca de 20 mil. No Instagram não, porque as pessoas me conheciam pouco pelo Instagram. Me conheciam mais no TikTok. E no Instagram eu tinha 60, foi para 120 mil mais ou menos 15 dias depois da entrevista. Dobrou. Hoje eu tô com 170 mil. Cresci mais 50 mil seguidores com um trabalho posterior à entrevista, que mostra também um alcance orgânico, que não é só a entrevista em si. Claro que foi um um divisor de águas.
Eu conversei com alguns partidos. Já tinha decidido que não seria candidato pelo PSOL. Até coloquei meu nome para para senador. Na época para testar o nome também, ver se tinha alguma alguma ressonância. Saí numa pesquisa na AtlasIntel com 8% das intenções de voto pro Senado. A (deputada) Gleisi (Hoffmann) naquela pesquisa estava com 16%. Acho até que a esquerda deveria ter um um segundo nome ao Senado porque existe cerca de 30% do eleitorado de esquerda que vai ter que votar em duas pessoas. Uma é a Gleisi, mas e aí? Quem que é o outro nome? Vão votar no Alvaro Dias (PSD)? O Alvaro Dias apareceu em primeiro agora porque pega voto da esquerda também. A esquerda não vai votar no (deputado federal) Felipe Barros (PL-PR).
Foi uma aposta de tentar ser esse segundo nome da esquerda. Mas como percebi que seria uma candidatura solo nos mesmos métodos que eu já tinha sido candidato antes, aquela coisa meio meio na raça, meio tirando leite de pedra assim, eu falei: “Acho que eu já não tenho mais idade para isso. Agora se for para entrar para uma disputa, eu quero entrar para uma disputa de verdade, uma disputa para para ganhar mesmo a eleição”. E aí foi quando recebi um convite do PCdoB. É um partido que hoje tem um projeto nacional de desenvolvimento bem estruturado. Ao mesmo tempo é um partido que tem o centralismo democrático enquanto método.
Eu tava no PSOL com um partido de correntes. Cada corrente era um partido diferente. As disputas internas eram fratricidas, a ponto de que não haviam unidade para fora. O PSOL não existia enquanto partido. Eu falei: “não quero mais isso.” Por isso resolvi entrar mesmo no no PCdoB tanto pelo projeto nacional de desenvolvimento, como pelo centralismo democrático. Não é um partido que não pode ter diferença, muito pelo contrário, tem muitas. Mas quando o partido aparece para fora, ele aparece unido. E nosso foco é enfrentar a extrema-direita e não os colegas, os companheiros do próprio partido. E também pelo PCdoB estar na federação (Brasil Esperança, com PT e PSB). A federação junto com o PT, na minha opinião, está muito mais bem localizada no time do Lula, sem nenhum vacilo. A prioridade é reeleger o presidente Lula, eleger Gleisi, o (deputado estadual) Requião Filho (pré-candidato ao governo pelo PDT) aqui no Paraná.
Acho que o PSOL é um partido importantíssimo na atual conjuntura. Eu consigo entender essa autonomia, essa independência do PSOL. Mas acho que eu poderia contribuir de uma outra forma. Até porque quem me acompanha nos meus vídeos sabe que não tenho dúvida de que a prioridade é reeleger Lula. A gente não pode vacilar em nenhum milímetro. Isso significa que eu não tenha críticas ao governo federal? Em hipótese alguma. Nós, ao contrário da extrema-direita, não somos gado. É óbvio que a gente tem críticas. Toda vez que eu penso na política educacional, saúde, podia ser assim, assado. Mas são críticas mínimas perto das nossas diferenças com a extrema-direita.
BFC: processado por Nikolas e Dallagnol
Thiago: o primeiro a tentar me processar foi o (deputado federal) Nikolas Ferreira (PL-MG). Uma queixa-crime que ele abriu no Ministério Público. Depois foi encaminhado o inquérito para a Polícia Federal. Eu não posso falar muitos detalhes desse processo em especial porque ele está sob sigilo. Mas posso dizer que essa tentativa de me intimidar foi por conta de emendas parlamentares que ele enviou para o Rio Grande do Sul na época das enchentes. Ele mandou emendas para lá, e eu provei num vídeo de que essas emendas tinham relação com os prefeitos bolsonaristas. Não tinha nada a ver com as enchentes de verdade. Porque ele mandou emenda para municípios que nem estavam em situação de calamidade pública.
E agora recentemente, o (ex-procurador da Lava Jato e deputado cassado) Deltan Dallagnol (Novo-PR) também fez uma uma solicitação ao TRE pedindo multa, que eu retirasse o vídeo do ar, fizesse até vídeo para reparar os danos à imagem dele. E no vídeo eu não falo nada de mais. Falo que ele está inelegível, isso aí é público e notório. Mas ele se apega a uma questão jurídica, um detalhe do termo “inelegível”. Porque, em tese, ele não foi considerado inelegível porque fugiu da justiça. Ele abdicou do cargo de procurador para não ser julgado. Mas o TSE mesmo assim o tornou inelegível. Só que ele não foi enquadrado exatamente na lei que que usa o termo “inelegível”, um detalhe bobo. Ele disse que esse meu vídeo, que é de 2023, é campanha em desfavor dele. Como se eu estivesse querendo que as pessoas não votassem nele. Eu, de fato, não quero que as pessoas votem nele, óbvio. Não há dúvida, mas ele é uma figura pública. Por ser uma figura pública, ele está na chuva para se molhar. Agora ele é intocável? Ele é uma pessoa extremamente tocável, ainda mais por tudo que fez com o nosso país. Um cara que prendeu o maior presidente da história do Brasil. Que usou um Power Point dizendo que não tinha provas, mas tinha convicção da culpa do Lula. O cara que fez não sozinho, ele e o Sérgio Moro, mas que atrasou o nosso país em seis anos.
Foi um atraso todo o processo da Lava Jato. Imagine como o Brasil poderia estar hoje se tivesse a continuidade do governo Dilma, um próximo mandato de um governo petista, a gente estaria voando. Não tenho dúvida disso. Então, ele sim tem muito a explicar para a população. Eu vou me explicar na justiça, provar mais uma vez que ele é um cara ficha suja inelegível por oito anos, e fica mentindo para a população paranaense dizendo que é candidato. O cara nem é candidato.
BFC: conservadorismo e resistência
Thiago: acho que é o ano difícil no Brasil todo, mas em especial no Sul do do país, porque realmente é o local onde o conservadorismo acaba tendo mais ressonância do que em outros estados. Mas não significa que não existam também conservadores no Nordeste. Eu estava no Mato Grosso do Sul antes de vir para o Paraná. Lá também é muito conservador. Até quando viralizou o meu vídeo na praia, muita gente falava assim: “Ah, venha para o Nordeste, aqui você vai ter mais aceitação”. Mas se eu for para o Nordeste, tem muita gente lá que faz esse trabalho já. Acho que a gente tem que estar exatamente nos lugares onde a esquerda precisa crescer, vigorar.
No Paraná, por mais que a gente saiba que é um estado majoritariamente conservador, mas a esquerda tem espaço. O PT na última eleição elegeu sete deputados federais. É bastante gente. Gleisi e Requião foram eleitos duas vezes, os dois numa mesma eleição também. O Requião governou o estado por três vezes. Tem um espaço. A gente precisa saber fazer direito, saber abordar a população com qualidade. Não aquela coisa chata, tradicional da esquerda, um negócio rígido. “Ah, vamos lá, não sei o quê” gritando e tal. Eu tô apostando bastante nessa comunicação um pouco mais leve, solta, um diálogo mais franco. Acho que a gente consegue desmascarar o bolsonarismo, a extrema-direita também no Paraná. Eu tô muito otimista. Acho que o Requião Filho tem chance de ir pro segundo turno, chance real. A gente vai eleger a Gleisi e vai fazer uma boa bancada de deputados estaduais e federais esse ano. E o Lula vai chegar o mais próximo possível de uma maioria aqui no Paraná. Apesar de todos os percalços, tem espaço para a esquerda crescer.
BFC: pauta econômica X identitarismo
Thiago: acho que as pautas identitárias são fundamentais. A esquerda tem que ser antirracista, feminista, anticapacitista. Tem que defender as pautas indígenas, não há dúvida disso. São pautas fundamentais, pessoas que sofrem violências seríssimas. O feminicídio está aí para mostrar o quanto a gente não pode deixar de defender as mulheres. Mas eu acredito, sim, que existem pautas que nos unem no aspecto econômico. Acho que a esquerda, por muito tempo deixou mesmo de fazer um enfrentamento na questão econômica. A gente precisa voltar a falar de um projeto de desenvolvimento nacional. Da importância da soberania nacional, de ter revoluções estruturais no Estado brasileiro. E nesse sentido a gente pode avançar em pautas globais que sejam comuns a todas as identidades.
BFC: pré-candidatura a deputado
Thiago: eu sou professor. Como professor não poderia deixar de falar da educação. A educação que hoje foi destroçada pelo (governador) Ratinho Júnior (PSD-PR). Uma educação que está com quase 90 escolas privatizadas, um absurdo. Uma coisa que era inimaginável há algum tempo. Fora as escolas militarizadas também. Botar militar para educar criança, a gente sabe que não deu certo. Muitas já com assédios, violências físicas contra crianças, coisas absurdas, bizarras. E uma coisa que não faz o menor sentido, porque se fosse para melhorar os índices educacionais, mas o objetivo é ensinar a criançada a bater continência, a cantar o hino, coisas do período da ditadura militar.
BookmarkEu estou na UFPR Litoral que tem um projeto pedagógico freiriano. Essa ideia da alfabetização, do letramento, da conscientização, da importância da massa crítica. A educação pode servir a esse propósito de termos crianças e adolescentes que saibam não só ler um texto, mas ler o mundo. Interpretar a realidade que a gente vive. Acho que a educação pode ir por esse caminho. Eu também sou psicólogo de formação. Doutor em psicologia. Tenho um livro: “Manicômios Judiciais: A Reclusão Disfarçada de Cuidado”. Esse livro foi finalista do Prêmio Jabuti o ano passado. É sobre saúde mental. Também não teria como deixar de fazer esse debate durante a eleição. O debate do movimento antimanicomial, da construção de uma rede de atenção psicossocial estruturada no Paraná que hoje, infelizmente, inexiste. A gente vê pessoas em situação de vulnerabilidade em relação à saúde mental sendo jogados nas comunidades terapêuticas com viés religioso, totalitário. Que excluem, isolam as pessoas. Pregam o negacionismo. “Ah, isso aí é coisa porque você tem o demônio dentro da tua cabeça”. Coisas bizarras acontecendo dentro das comunidades terapêuticas. Estando no curso de saúde coletiva, defendendo a reestruturação do SUS, mais investimentos públicos para a área da saúde.
