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Como disputar eleições quando as máquinas que produzem subjetividade não nos pertencem?

Como disputar eleições quando as máquinas que produzem subjetividade não nos pertencem?

Por Sabrina Kurscheidt

Recentemente me deparei com uma pergunta feita por Rubens Casara que me parece sintetizar um problema ainda pouco explorado quando falamos sobre tecnologia e democracia:

“Como ganhar uma eleição se as máquinas de produção de subjetividade pertencem ao adversário?”

A provocação me interessa porque desloca o debate para além das fake news, dos deepfakes e do uso de inteligência artificial nas campanhas. Talvez estejamos preocupados demais com a possibilidade de as pessoas serem enganadas por uma informação falsa e pouco atentos às estruturas que participam diariamente da formação daquilo que percebemos como realidade.

Uma democracia nunca dependeu de que todos concordassem. Ao contrário, o conflito é parte constitutiva da política. Para discordarmos sobre o mundo, porém, precisamos ter algum mundo em comum sobre o qual discordar. O que acontece quando isso começa a desaparecer? Hoje, duas pessoas podem morar na mesma cidade, participar da mesma eleição, abrir a mesma rede social e receber representações quase irreconhecíveis do país em que vivem. Não se trata somente de uma divergência sobre os fatos, mas de quais fatos chegam até cada pessoa, com qual frequência, acompanhados de quais comentários e inseridos em quais narrativas.

Penso nisso a partir da minha própria experiência nas últimas eleições. Participei intensamente da campanha do presidente Lula, acompanhei política diariamente e, ainda assim, quase nada da comunicação do campo adversário apareceu organicamente para mim. Até hoje, por exemplo, não ouvi sequer o jingle de Flávio. Não faço aqui qualquer juízo sobre o conteúdo que deveria ou não ter sido entregue pelo algoritmo. O que me interessa é perceber como alguém profundamente inserido em um processo eleitoral pode atravessá-lo praticamente sem contato com uma parte relevante da comunicação que mobiliza milhões de outras pessoas. Provavelmente, do outro lado, alguém viveu uma experiência semelhante em relação ao meu campo político.

A personalização algorítmica não produz apenas isolamento. Ela também pode produzir uma percepção distorcida sobre o tamanho do espaço social que ocupamos. Vejo meus candidatos, encontro meus argumentos, acompanho influenciadores que compartilham minhas referências e, quando abro os comentários, centenas ou milhares de pessoas parecem confirmar aquilo que acabei de assistir. Aos poucos, torna-se difícil distinguir o que é uma comunidade digital altamente selecionada daquilo que efetivamente representa uma maioria social. Talvez isso ajude a compreender por que, em determinados momentos eleitorais, grupos completamente distintos conseguem estar simultaneamente convencidos de que representam aquilo que “o povo” pensa. A inteligência artificial torna essa questão ainda mais complexa porque permite não apenas produzir conteúdo, mas fabricar parte do ambiente social que o legitima. Perfis sintéticos podem comentar, concordar, discordar, indignar-se e conversar entre si. Uma operação coordenada pode assumir a aparência de manifestação espontânea. Nesse cenário, a manipulação deixa de ocorrer somente quando alguém apresenta um fato falso: ela também pode acontecer quando se produz artificialmente a impressão de consenso em torno de determinada interpretação. Se somos seres sociais e construímos nossas posições também em relação às comunidades às quais sentimos pertencer, qual é o efeito político de acreditar que milhares de pessoas pensam como nós quando parte dessa multidão sequer existe?

Há ainda outra dimensão que me inquieta: a relação dessas tecnologias com a construção da memória. Costumamos repetir que a história é escrita pelos vencedores, imaginando que primeiro os acontecimentos ocorrem e, posteriormente, inicia-se a disputa sobre como serão lembrados. nas redes, essa ordem parece estar sendo embaralhada. Um acontecimento político ainda está em curso enquanto vídeos são recortados, culpados são escolhidos, protagonistas são construídos e explicações sobre o que “realmente aconteceu” acumulam milhões de visualizações. O mesmo episódio pode aparecer em dois reels completamente diferentes e, em ambos, encontrar milhares de comentários confirmando aquela versão. Dentro de cada comunidade, começa a se consolidar não apenas uma interpretação do presente, mas uma memória sobre ele.

Talvez estejamos diante de uma espécie de reescrita da história em tempo real, na qual a disputa pela memória começa antes mesmo de o acontecimento terminar. A inteligência artificial acrescenta uma camada especialmente sensível a esse processo porque permite produzir imagens, personagens, testemunhos e registros sintéticos capazes de preencher lacunas dessa memória. Isso não significa que qualquer narrativa possa simplesmente substituir a realidade, nem que os indivíduos sejam receptores passivos daquilo que seus algoritmos entregam. Significa reconhecer que as condições pelas quais conhecemos, lembramos e atribuímos sentido aos acontecimentos estão mudando rapidamente. As últimas eleições também me fizeram pensar sobre como essas bolhas interferem na nossa capacidade de enxergar o tamanho real das forças políticas. Havia, no meu campo, pessoas genuinamente convencidas de que lula venceria no primeiro turno. Não necessariamente porque ignoravam pesquisas ou porque fossem incapazes de interpretar a realidade, mas porque o ambiente informacional ao redor delas oferecia diariamente inúmeros sinais de uma maioria aparentemente incontestável. Quando o resultado das urnas rompe essa percepção, talvez estejamos diante de um dos poucos momentos em que milhões de bolhas particulares são obrigadas a encontrar, simultaneamente, uma realidade que não foi personalizada para cada uma delas.

É por isso que tenho dúvidas se a discussão sobre democracia e tecnologia pode continuar restrita ao combate à desinformação. Regular inteligência artificial, responsabilizar plataformas e discutir transparência algorítmica são questões indispensáveis, mas existe um problema anterior que ainda estamos tentando compreender: o que acontece com a democracia quando as infraestruturas que organizam nossa atenção também participam da construção daquilo que sentimos ser o mundo ao nosso redor?

A pergunta de casara permanece, então, menos como uma resposta sobre como vencer eleições e mais como uma provocação sobre as condições em que elas estão sendo disputadas. Se as máquinas de produção de subjetividade pertencem a empresas privadas, operam segundo critérios que não controlamos e entregam a cada indivíduo uma representação personalizada da sociedade, talvez o desafio democrático do nosso tempo seja reconstruir espaços nos quais possamos voltar a nos encontrar. Não para concordarmos sobre a realidade, mas para que, antes de disputá-la, ainda consigamos reconhecê-la como uma experiência minimamente comum.

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