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Dona Alzira e o nepobaby de ditador: no século passado a direita já foi melhor

Arquivo Pessoal/Rudolfo Lago

O neto do último presidente da ditadura militar, envolvido em operações fraudulentas sistemáticas quando era CEO da empresa que anunciava o Trump Hotel no Rio, outrora preso em Miami na Operação Circus Maximus e atualmente viril influencer digital extremista verbalizou o absurdo que já virou bandeira fascista: retirar o direito ao voto das mulheres. Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, foragido da justiça brasileira, se saiu com essa.

Que barbaridade! Inaceitável.  Será?

Primeiro é preciso lembrar que a estratégia utilizada junto ao discurso é não tirar tudo de uma vez. Começa dificultando acesso com burocracia, verba e criminalização. A justificativa é “proteger a família”, a “ordem natural”, a ideia de que “mulher vota com emoção”. O alvo é autonomia sobre corpo, voto e trabalho. A tentativa de retirada ou retrocesso de direitos femininos acontece em ciclos, no Brasil e no mundo. Partidos e influenciadores da extrema-direita mundo a fora vêm defendendo publicamente o fim do voto universal. Aqui nos trópicos, a cartilha do partido Missão do MBL citou “democracia familiar” onde só o chefe da família votaria. É realmente uma imundície tosca, pois segundo o Censo Demográfico do IBGE, as mulheres chefiam 49,1% das unidades domésticas no Brasil. Isso representa cerca de 36 milhões de lares liderados por figuras femininas em todo o país. Esse percentual supera 50% em 10 estados. A fala do Paulo Figueiredo “mulheres votam mal” apenas reacendeu esse debate por aqui e reproduz o movimento Maga norte-americano. Influenciadores como Nick Fuentes e pastores fundamentalistas ligados ao trumpismo começaram a defender publicamente revogar a 19ª Emenda. A justificativa é “democracia familiar”. Por ora, a burocracia é aliada para ir erodindo o direito. O SAVE Act não proíbe, mas dificulta para mulheres casadas que mudaram o sobrenome.

O controle político associado com a religião se renova com as dinâmicas digitais. Por aqui no Brasil, o caminho mais curto para ligar engrenagens e engordar figuras reacionárias é o ataque aos direitos reprodutivos. O PL 1904/2024, conhecido como o “PL do Estupro” propõe que aborto acima de 22 semanas seja tratado como homicídio, com pena maior que a do estuprador. Gerou intensos protestos em 2024, mas segue acionado quando personagens grotescas precisam se abrigar em algum discurso que associe almas e distancie de fatos concretos de corrupção e outros tipos de crimes. Foi pego com dólares escondidos em casa? Partiu defender bebês que ainda não existem.

Acontece que chegar a ameaçar o voto feminino é estratégia arriscada até para o gado. O Brasil conquistou o sufrágio universal em 1932. Em 1946 o voto feminino passou a ser obrigatório, antes da França (1944) e da Itália (1946). Não são poucas as figuras femininas que garantiram os avanços nos direitos. A luta delas conectava voto com trabalho digno, antimilitarismo e educação. Muitas foram presas, apanharam e foram chamadas de loucas. Mas persistiram.

Bertha Lutz.      Foto: Reprodução/ Arquivo da ONU

A cientista Bertha Lutz, primeira mulher brasileira a entrar no serviço público por concurso, fundou a Federação Brasileira pelo progresso feminino em 1922. Não pedia só voto. Pedia educação, trabalho, igualdade salarial. Deputada constituinte em 1934, entrou para escrever a Constituição e garantir licença-maternidade, igualdade salarial e direitos trabalhistas pra mulher. Anos antes, em 1928 Alzira Soriano foi a primeira prefeita eleita da América Latina. Dona Alzira como era chamada se elegeu para uma pequena cidade, Lajes, no interior do Rio Grande do Norte. Jovem viúva com três filhos pequenos e filha de fazendeiro surpreendeu a estratégia machista da época. Em 1927, o RN aprova uma lei estadual dando às mulheres direito ao voto e a ser eleita. O Brasil só ia ter isso em 1932.Em 28, o prefeito de Lajes morre e a cidade precisa de nova eleição. Os líderes políticos locais, achando que ela não ia ganhar, chamaram Alzira para ser candidata. Era para “dividir votos” e enfraquecer o adversário. Dona Alzira fez campanha pé no chão, casa por casa. Falava de saúde, escola e estrada e venceu com 60% dos votos. Governou por apenas um ano (porque veio a Revolução de 30). Mas nesse tempo montou o primeiro posto de saúde e contratou parteira, criou escolas na zona rural e alfabetizou adultos, além de organizar as contas e cortar gastos supérfluos. Em 1934, também pioneira virou deputada estadual no RN. Junto com Bertha Lutz, andava pelo país inteiro defendendo o voto feminino nacional.  A frase que marcou a trajetória política dela diz muto às influenciadoras conservadoras de hoje:

“Eu não entrei na política por vaidade. Entrei por necessidade do meu povo”.

É bom observar isso porque logicamente surgiram fulanas de direita a concordar com o retrocesso, como a influenciadora Pietra Bertolazzi. Por essa lógica, nem deveria estar dando opinião política. Deveria solicitar ao marido (se tiver) para expressar essa posição. Mas é claro que nesta época de cultura política digital, quem quer aparecer e monetizar explora as dinâmicas de conflito e polarização. E o novo mundo dos algoritmos, acaba por eliminar a saudável contenção social à idiotia. Como diria Umberto Eco, antes o idiota da aldeia era corrigido. Hoje, ele reúne outros idiotas, forma comunidade e ainda vende camisetas. Antes havia predadores naturais para a ignorância, agora o bizarro monetiza, a ignorância vende e a idiotia é premiada, inclusive com votos.

Sandra Bitencourt

Jornalista, doutora, diretora do INP, pesquisadora da UFRGS e coordenadora da Rede Combate à Desinformação. Estuda mídia, política e tragédias climáticas.

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