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Competição no trabalho: quando o jogo deixa de ser saudável

Foto: Reprodução

Empresas modernas vivem sob o imperativo da eficiência. Metas cada vez mais ambiciosas, programas de incentivo, rankings de desempenho e mecanismos de gamificação tornaram-se instrumentos frequentes de gestão, especialmente em organizações que adotam metodologias ágeis e modelos inspirados na produção enxuta. A promessa é simples: estimular a produtividade e melhorar resultados. O problema surge quando a lógica do jogo passa a prevalecer sobre a lógica das relações humanas.

No sistema capitalista de produção a busca por eficiência é legítima. Toda empresa precisa produzir melhor, reduzir desperdícios e aumentar sua competitividade. Nesse contexto, a competição interna costuma ser apresentada como uma ferramenta capaz de impulsionar o desempenho individual e coletivo. Aparentemente, nada há de ilícito nisso.

Entretanto, a licitude dessas práticas depende menos de sua denominação do que da forma como são implementadas. Quando a competição deixa de representar um estímulo saudável e se transforma em um ambiente permanente de rivalidade, seus efeitos podem ser profundamente nocivos. A cooperação cede espaço ao individualismo, a solidariedade é substituída pela desconfiança e o receio de não atingir metas ou perder reconhecimento alimenta um estado constante de ansiedade.

Nesse cenário, trabalhadores deixam de atuar como integrantes de uma mesma equipe para se enxergarem como adversários. O ambiente torna-se hostil, a empatia diminui e, muitas vezes, o resultado passa a importar mais do que os meios empregados para alcançá-lo. Não é incomum que práticas eticamente questionáveis e até mesmo o descumprimento de regras internas sejam tolerados em nome da produtividade.

O paradoxo é evidente. Um modelo concebido para aumentar a eficiência pode acabar produzindo justamente o efeito contrário. O crescimento dos afastamentos por adoecimento mental, da rotatividade e da perda de horas de trabalho demonstra que ambientes psicologicamente degradados também comprometem os resultados econômicos das empresas. O sofrimento humano, além de representar uma grave questão social, possui elevado custo organizacional.

Isso não significa que toda forma de competição deva ser rejeitada. Ao contrário. Quando respeita os limites físicos e emocionais dos trabalhadores, preserva o espírito de colaboração e mantém a dignidade das relações profissionais, ela pode contribuir para um ambiente mais dinâmico, estimular a criatividade e favorecer ganhos legítimos de produtividade. A própria gamificação pode tornar determinadas atividades mais envolventes, desde que jamais transforme trabalhadores em personagens descartáveis de uma disputa permanente.

Outro tema que exige especial cautela, e que está intimamente relacionado ao primeiro, diz respeito ao uso da imagem dos trabalhadores em ambientes corporativos e gamificados.

A difusão das redes sociais levou muitas empresas a divulgar fotografias e vídeos do cotidiano corporativo como estratégia de comunicação institucional ou de fortalecimento da cultura organizacional. Valorizar as equipes e aproximar a organização do público são objetivos legítimos. Isso, contudo, não autoriza o uso indiscriminado da imagem de quem trabalha.

Sistemas de monitoramento por câmeras podem ser admitidos quando justificados pela natureza da atividade desenvolvida, pela proteção do patrimônio empresarial ou pela segurança das pessoas. Ainda assim, sua utilização deve observar limites rigorosos impostos pelos direitos da personalidade, entre eles a intimidade, a privacidade, a honra e a imagem dos trabalhadores.

Esses cuidados tornam-se ainda mais relevantes quando as imagens são divulgadas ao público. Em regra, a utilização da imagem de uma pessoa depende de sua autorização e, quando destinada à exploração econômica, pode inclusive ensejar a correspondente contraprestação. Mais importante do que isso, jamais se admite sua utilização para expor alguém ao ridículo, à humilhação ou ao constrangimento.

Apesar disso, ainda são encontradas práticas empresariais que confundem descontração com desrespeito. Vídeos de punições por metas não alcançadas, brincadeiras vexatórias, exposições públicas de trabalhadores e outras iniciativas semelhantes podem até ser apresentadas como manifestações de integração ou bom humor, mas frequentemente ultrapassam os limites da legalidade. Quando atingem a dignidade, a honra ou a imagem do trabalhador, deixam de ser simples estratégias motivacionais para se converterem em condutas ilícitas, capazes de gerar responsabilidade civil e o dever de reparar os danos causados.

O ambiente de trabalho deve ser um espaço de desenvolvimento profissional, cooperação e respeito recíproco, jamais um palco para constrangimentos ou humilhações disfarçadas de cultura corporativa.

A boa gestão não se mede apenas pelos resultados financeiros que produz. Mede- se, sobretudo, pela capacidade de conciliar desempenho econômico com respeito às pessoas. Empresas que compreendem essa realidade tendem a construir equipes mais comprometidas, ambientes mais inovadores e resultados mais sustentáveis. Afinal, produtividade duradoura não nasce do medo nem da exposição pública. Ela floresce onde eficiência e dignidade caminham lado a lado.

Ricardo Mendonça

Advogado, sócio do escritório Gonçalves, Auache, Salvador, Allan e Mendonça advocacia e Diretor do Instituto DECLATRA

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