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Foi falta de educação: Vandalismo de árvores em Curitiba expõe lacuna crítica na gestão do verde urbano

Foto: Reprodução

Curitiba construiu, ao longo de décadas, uma imagem consistente de cidade planejada, arborizada e inovadora. Não por acaso, tornou-se referência nacional e internacional em urbanismo e políticas ambientais. Essa reputação merece reconhecimento. Mas, como toda cidade viva, ela é desigual no território e incompleta no cotidiano. Talvez por isso seja tão desafiador admitir: ainda tropeçamos no básico quando o assunto é cuidado ambiental contínuo, especialmente quando olhamos para além dos espaços mais consolidados da cidade.

O recente vandalismo — sim, crime ambiental — contra árvores recém-plantadas na Avenida Nossa Senhora da Luz não apaga a história de Curitiba. Mas nos provoca a encarar uma pergunta incômoda: estamos preparados para sustentar, no tempo e em todo o território, aquilo que orgulhosamente anunciamos como virtude urbana?

O ato precisa ser nomeado com clareza. Destruir árvores é violência contra o bem comum e deve ser responsabilizado nos termos da lei. Mas a resposta não pode se resumir à indignação ou ao linchamento moral. Mais importante do que apontar para quem vandalizou é falar com ela — e com todos nós.

Porque ninguém nasce odiando árvore. Atos assim emergem de relações frágeis entre cidade, natureza e pertencimento. E essas fragilidades não se distribuem de forma homogênea. Curitiba é, sim, uma cidade arborizada e reconhecida — sobretudo em suas áreas mais estruturadas. Mas sabemos que há territórios onde o verde é escasso, a sombra não chega, o calor é mais intenso e o cuidado ambiental historicamente se constrói com mais atraso e menos presença do Estado.

Reconhecer isso não diminui a cidade. Qualifica o desafio.

Esse episódio ocorre justamente num momento em que crescem os coletivos de plantio e cuidado ambiental, fundamentais para repensar o território e fortalecer a participação social. Iniciativas como esta turma boa do 1 Milhão de Árvores, entre tantas outras espalhadas pelos bairros, cumprem papel decisivo: mobilizam pessoas, produzem consciência, constroem pertencimento e empurram a agenda pública para além do discurso.

É justamente por reconhecer essa potência que precisamos complexificar o debate.

Arborização urbana é processo. Árvore em cidade exige planejamento técnico, integração com infraestrutura, manutenção contínua, monitoramento e cuidado — especialmente nos primeiros anos. Isso não diminui o valor dos mutirões; aponta seu próximo salto: plantar, adotar e se integrar as políticas públicas.

O caso da Nossa Senhora da Luz não autoriza generalizações nem desqualifica quem planta. Mas evidencia uma tensão real: ainda são frágeis, em muitos territórios, os arranjos permanentes que sustentam o cuidado com o verde urbano. Entre a ação voluntária e a política pública, persiste um vazio organizativo que precisa ser enfrentado com mais método, mais gestão e mais cooperação. A prefeitura precisa se atualizar a este novo tempo e responsabilizar-se.

É aqui que a educação climática ganha centralidade. Não como cartilha ou campanha pontual, mas como processo de tomada de consciência, vivido no cotidiano: compreender que plantar é compromisso; que cuidar é responsabilidade compartilhada; que sombra é direito; que natureza é infraestrutura; que cidade justa se constrói quando as pessoas se reconhecem como parte ativa do território.

Por isso, a resposta não é menos plantio. É mais organização. Avançar na criação de núcleos climáticos de bairro, capazes de articular coletivos, escolas, associações, moradores e poder público, organizando o pós-plantio, o cuidado contínuo, a gestão e o diálogo institucional.

Nada disso substitui o Estado. Ao contrário: exige um Estado presente, planejador e articulador, que reconheça e integre iniciativas como o 1 Milhão de Árvores à centralidade da política pública, somando capacidade técnica à energia da participação social.

Curitiba segue sendo referência.

O desafio agora é transformar essa referência em consciência, ação organizada e cuidado compartilhado, em todos os territórios.

Plantar é fundamental.

Adotar é indispensável.

Organizar é o passo decisivo.

É assim que a sombra permanece.

João Paulo Mehl

Atua em cultura digital, sustentabilidade e fomento cultural. Coordena projetos na UFPR, no Soylocoporti, no Terraço Verde e no Propulsão Cultural.

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