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França: um ano depois da derrota da extrema-direita nas eleições parlamentares antecipadas. E agora?

FOTO: Ricardo Stuckert/PR

E agora, José? O ano letivo acabou. Agora é o tempo do verão europeu, um período de grande marasmo nas atividades políticas e sociais, o encerramento de um ciclo. O parlamento francês encontra-se em recesso em julho e agosto. Pouco se falou de julho de 2024, quando pouco antes do início das Olimpíadas de Paris, o presidente Macron dissolveu a Assembleia e convocou eleições parlamentares antecipadas, depois da sua derrota nas eleições europeias lideradas pela Reunião Nacional (RN), partido de extrema-direita. 

Na época, 100% das pesquisas eleitorais davam como certa a vitória da extrema-direita. No entanto, o resultado final foi bem diferente: a maioria relativa foi alcançada pela coalizão de esquerda, chamada Nova Frente Popular (NFP).

A união dos partidos França Insubmissa (LFI), Partido Socialista (PS), Ecologistas (EELV) e Partido Comunista (PCF) elegeu 193 deputados da NFP, ultrapassando os apoiados pela centro-direita de Macron (165 eleitos) e o campo de Marine Le Pen (Reunião Nacional, que elegeu 126 parlamentares). Porém, Macron recusou nomear um primeiro ministro – ou melhor, a primeira ministra apontada pelas esquerdas, Lucie Castets – e empossou um primeiro ministro de direita, censurado em dezembro pelos deputados. A França é uma República parlamentarista, o presidente, eleito pelo sufrágio universal, aponta o Primeiro Ministro ou Primeira Ministra, que deve representar a maioria da Assembleia. O golpe de Macron consistiu em desprezar a esquerda, alegando a inexistência de maioria absoluta. 

Depois da derrota do seu primeiro indicado, Macron tentou manter seu frágil equilíbrio nomeando um Primeiro Ministro do centro, François Bayrou. O PS rompeu com a aliança de esquerda, recusando censurar o novo Primeiro Ministro. Assim também fez o bloco de extrema-direita, que, mesmo se derrotado, como sabemos, segue forte no país, principalmente no interior e zonas rurais, alimentado pelas dificuldades financeiras das classes médias e populares, pelo individualismo e xenofobia. A extrema direita tem como aliados os meios de comunicação do país, que pertencem a menos de 10 grupos ligados ao grande capital. Uma verdadeira bomba pronta para explodir a qualquer momento, apesar da resistência dos centros urbanos, juventudes e periferias, que votam na esquerda. 

Importante lembrar isso para quando o verão acabar. Para setembro, o Primeiro Ministro anunciou um pacote de medidas de austeridade que incluem supressão de feriados e férias, gel dos salários e não substituição de 1/3 dos servidores públicos que se aposentarem. Sindicatos, bem como movimentos sociais apartidários próximos do espírito dos “coletes amarelos” já indicam que vão reagir com amplas manifestações a partir de setembro.  As medidas neoliberais impostas pela ortodoxia europeia têm aumentado a pobreza na França e a precarização dos serviços públicos e dos direitos dos trabalhadores.

No meio do cenário, manifestações constantes em favor da Palestina mobilizam grande parte da juventude e intelectuais do país. Macron prometeu reconhecer o Estado Palestino também no mês de setembro. Talvez como forma de acalmar uma parte da fúria social atual, mas os especialistas do tema alertam, somente o reconhecimento não basta para interromper o massacre da população em Gaza. E a mobilização cidadã mostrou a sua força : uma petição lançada por uma estudante contra uma lei que liberou o uso de pesticidas (Loi Duplomb) alcançou mais de 2 milhões de assinaturas na plataforma da Assembleia Nacional, um recorde no país. O verão promete ser quente e politicamente calmo, mas a previsão é de tempo agitado a partir da próxima “rentrée” (início do ano letivo em setembro). Se as esquerdas políticas e sindicais seguirem o movimento popular e cidadão, poderemos prever um Germinal já a partir do próximo outono francês.

Sílvia Capanema

Historiadora e Professora Doutora na Sorbonne Paris Nord, parlamentar na França e ativista da RED-Br. Pesquisa movimentos sociais e memória popular.

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