Skip to content Skip to footer

Na Barão de Guaraúna: entre a cidade que nos orgulha e a cidade que precisamos transformar

Foto: Arquivo pessoal/ João Paulo Mehl

Eu tenho orgulho de Curitiba. Orgulho da sua inteligência urbana, da capacidade histórica de planejar, de estruturar transporte, de organizar o crescimento com método. Mas amar uma cidade não é poupá-la de críticas. É querer que ela seja melhor.

Ali, na Rua Barão de Guaraúna, no encontro do Alto da Glória com o Juvevê, a oficina de Fine Arts de Nathan McCartney — australiano que escolheu Curitiba como casa — está sendo desmontada. Ele e outras casas da quadra receberam uma carta de desocupação curtíssima. Poucos dias para encaixotar anos de história.

Não é apenas um imóvel que fecha. É um pedaço de vida urbana que desaparece.

Curitiba foi referência ao estruturar seus eixos de transporte coletivo e orientar o crescimento ao longo deles. A ideia era aproximar moradia e mobilidade, garantir acesso à cidade. Com o tempo, porém, a infraestrutura pública valorizou o solo — e o mercado capturou essa valorização.

Áreas centrais e bem servidas tornaram-se cada vez mais caras. Populações de baixa renda foram sendo empurradas para as bordas da cidade e da região metropolitana. A Curitiba-modelo consolidou-se nos cartões-postais; a Curitiba trabalhadora alongou seus deslocamentos.

Quando a política urbana não enfrenta a especulação, ela passa a servi-la.

Isso também aparece na concentração comercial. Shopping Centers e Hiper Mercados ocupam quadras inteiras, substituem casas, árvores e pequenos negócios. Ao concentrar consumo em espaços fechados, esvaziam as ruas. O comércio de bairro — que sustenta circulação, encontro e pertencimento — perde força. A cidade fica mais homogênea, menos viva.

A verticalização, por si, não é o problema. Adensar pode ser necessário. O risco está no adensamento guiado apenas pelo potencial construtivo máximo, sem diálogo com o entorno, sem infraestrutura proporcional, sem cuidado com a memória. Torres sobem. Casas caem. Vínculos se desfazem.

Foto: Arquivo pessoal/ João Paulo Mehl

A Barão de Guaraúna é um retrato dessa dinâmica. Ali circularam iniciativas, histórias, relações de vizinhança. Agora, com uma notificação seca, tudo precisa ser desmontado às pressas. A cidade muda na velocidade do mercado; a vida das pessoas não acompanha esse ritmo.

É nesse cenário que a revisão do Plano Diretor se torna decisiva. Conduzido pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba e debatido na Câmara Municipal,  o processo envolve temas centrais: sustentabilidade, mobilidade, adensamento, regularização fundiária, adaptação climática. O prefeito Eduardo Pimentel afirma buscar diálogo.

Mas planejar cidade é lidar com conflito. Entre interesse público e interesse privado. Entre crescimento e permanência. Entre memória e rentabilidade.

Cada alteração de zoneamento tem endereço. Cada flexibilização normativa tem impacto concreto. A carta de desocupação na Barão de Guaraúna é um ato administrativo, mas seus efeitos são profundamente políticos.

Ela nos obriga a perguntar: desenvolvimento para quem? Valorização para quem? Permanência de quem?

Curitiba pode ser melhor. Pode articular técnica e cidadania com mais profundidade. Pode transformar o Plano Diretor em espaço real de escuta, onde conhecimento científico dialogue com o saber de quem vive o território e onde participação signifique influência concreta.

Se quisermos uma Curitiba verdadeiramente justa, sustentável e viva, precisamos de mais política — no sentido profundo da palavra. Política que enfrente a especulação, que proteja o comum, que garanta que crescimento não signifique exclusão.

Continuo tendo orgulho da cidade. É justamente por isso que não naturalizo processos que desmontam memórias e encurtam permanências.

Ali, naquela esquina, não está apenas um ateliê sendo fechado. Está uma síntese das escolhas urbanas que fazemos.

Cidade boa não é só a que aparece em ranking.

É a que permite que as pessoas fiquem.

João Paulo Mehl

Atua em cultura digital, sustentabilidade e fomento cultural. Coordena projetos na UFPR, no Soylocoporti, no Terraço Verde e no Propulsão Cultural.

Mais Matérias

30 jul 2026

PELAS MULHERES DO BUSÃO

Todos os dias, ele passa ali na Praça Cornélia, uma provinciana exceção na metrópole onde vivo…
28 jul 2026

HONESTINO

Aurélio Michiles é um artesão de extrema habilidade. A cada filme, a simbiose entre afeto e estética se apura…
28 jul 2026

E o horror sorriu para nós

E o “homem de bem” colou no peito o símbolo da eliminação de uma mulher e fez uma foto sorridente…
23 jul 2026

A geopolítica do trabalho e o tarifaço de Trump

O tarifaço imposto pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros não deve ser interpretado apenas…
23 jul 2026

DAS CONSEQUÊNCIAS HISTÓRICAS DO INSUCESSO ESPORTIVO

Sempre que a seleção brasileira é desclassificada da Copa do Mundo, ouvimos que o insucesso decorre do abandono…