Skip to content Skip to footer

O Bispo, a calcinha azul e a investigação

Muitas vezes, a rigidez moral pregada em púlpitos e redes sociais não resiste ao encontro com os próprios desejos. (Foto: Redes Sociais/Reprodução)

Na última semana, fomos surpreendidos com um episódio curioso — para não dizer irônico. Um bispo que, ao longo de sua trajetória, fez questão de condenar adultério, homossexualidade e tantas outras expressões da vida privada alheia, apareceu em vídeos — não em um, mas em pelo menos dois — trajado com uma peruca ao estilo Pretty Woman. O detalhe é que o figurino não lhe favorecia em nada, mas, convenhamos, quem somos nós para julgar? Afinal, como está escrito: “Não julgueis, para não serdes julgados.”

O episódio, que pode ser lido tanto pelo prisma do humor quanto pelo da ironia, revela um problema recorrente: a hipocrisia social e religiosa. Muitas vezes, a rigidez moral pregada em púlpitos e redes sociais não resiste ao encontro com os próprios desejos. Esse bispo, talvez por condicionamentos internos ou por repetições acríticas de discursos alheios, acabou por se distanciar de si mesmo, ignorando a própria humanidade.

Aqui, no entanto, não cabe apenas a chacota. É preciso pensar na saúde mental desse senhor, no sofrimento de sua esposa, familiares e fiéis que depositavam nele confiança e fé. Pregadores — de qualquer credo ou convicção — têm, no mínimo, a obrigação da coerência. E é justamente a incoerência que mais abala os seguidores.

Não há problema algum em homens ou mulheres explorarem roupas, adereços e fantasias. A cidadania não tem vestimenta obrigatória. O que não se pode perder é a coerência com a própria essência e com os valores proclamados em público. Essa dissonância entre discurso e prática é o que machuca, mais do que a peruca ou qualquer “calcinha azul”.

Vivemos em uma sociedade que ainda precisa aprender a dialogar sobre desejos, fantasias e liberdade pessoal. O pastor, se quiser seguir sua caminhada de fé, deveria encontrar espaço também para acolher os seus próprios desejos, sem precisar viver sob máscaras ou medo de investigações.

Que haja investigação, sim — mas não apenas das imagens ou do ridículo alheio. Que seja uma investigação íntima, de consciência. E que nós, enquanto sociedade, saibamos apoiar para que situações assim não se transformem em tragédias, já que a pressão pública pode ser insuportável.

No fim, talvez reste a lição: a hipocrisia corrói mais do que qualquer escândalo.

Toni Reis

Ativista LGBTI+, cofundador da ABGLT e do Grupo Dignidade. Diretor da Aliança Nacional LGBTI+, professor e autor premiado em direitos humanos.

Mais Matérias

12 jun 2026

Carta Aberta a João Bettega e Jeffrey Chiquini

Prezado João Bettega, pré-candidato, prezado Jeffrey Chiquini, pré-candidato…
10 jun 2026

Quem não paga pensão não entra no estádio — e vai preso

Desde 2023, o Palmeiras mantém uma parceria com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo…
09 jun 2026

Pressionar o Senado pelo fim da escala 6×1 e uma sugestão de como avançar na redução da jornada

A grande vitória conquistada pelos trabalhadores na Câmara dos Deputados, com a aprovação do fim da escala 6×1…
09 jun 2026

O algoritmo está moldando nossas opiniões?

Nietzsche, o rebanho digital e a geração que pensa que pensa por si mesma
08 jun 2026

A Rua Convoca, a História Confirma: Reflexões sobre a 30ª Parada LGBTI+ de São Paulo

Há momentos em que a história deixa de ser apenas uma sequência de acontecimentos e passa a ser…

Como você se sente com esta matéria?

Vamos construir a notícia juntos