
Dez razões para votar em Flávio Bolsonaro
Comecei pela renovação política. O Brasil realmente precisa de novas lideranças, capazes de superar práticas antigas e apresentar soluções para problemas que atravessam gerações. Nesse quesito, Flávio oferece uma inovação curiosa: a sucessão hereditária na República. Depois do pai, o filho. Muda-se o primeiro nome, conserva-se o sobrenome e, aparentemente, boa parte do projeto. Praticamente, uma capitania hereditária ou uma espécie de monarquia por eleição, com a vantagem de dispensar coroação.
Pensei, então, no combate aos privilégios. Quem sabe estivesse aí uma boa razão… Afinal, poucos problemas brasileiros são tão persistentes quanto a apropriação do Estado por grupos que dele fazem instrumento de poder. Mas é difícil encontrar a novidade em um político que construiu sua carreira dentro das instituições públicas e pertence a uma família que transformou a política em atividade profissional de várias gerações. Não chega a ser uma contradição insuperável. Apenas exige uma dose considerável de imaginação.
Talvez a resposta estivesse na defesa dos trabalhadores. Afinal, são milhões de brasileiros que acordam cedo, enfrentam transporte precário, trabalham exaustivamente e, ao final do mês, descobrem que o salário terminou antes das contas.
O problema é que o ideário econômico defendido pelo bolsonarismo privilegia a flexibilização das relações de trabalho e a redução da intervenção estatal. Parte-se da encantadora suposição de que patrões e empregados negociam em condições equivalentes. De um lado, a empresa, com seus recursos e departamentos jurídicos. De outro, o trabalhador, com o boleto vencendo na sexta-feira. Uma negociação entre iguais, naturalmente.
Passei à segurança pública. Aqui, pelo menos, o discurso é vigoroso. Penas mais duras, mais prisões, maior repressão. Tudo muito simples, como costumam ser as soluções para problemas complexos quando apresentadas em campanhas eleitorais. O inconveniente é que construir presídios não substitui a necessidade de enfrentar as causas sociais da violência, investigar o financiamento das organizações criminosas e oferecer perspectivas à juventude. Mas essas providências exigem políticas públicas consistentes, resultados de longo prazo e, sobretudo, menos frases de efeito.
Considerei também a experiência administrativa. Flávio tem uma longa trajetória parlamentar, primeiro no Rio de Janeiro e depois no Senado. É experiência política, sem dúvida. Mas experiência em disputar eleições, ocupar mandatos e participar do debate legislativo não equivale, automaticamente, à capacidade de administrar um país. Se fosse assim, bastaria escolher o parlamentar com mais mandatos e entregar-lhe as chaves do Palácio do Planalto.
Aliás, a respeito da carreira parlamentar pregressa do candidato não há nada que se destaque a não ser algumas homenagens controversas, para dizer pouco, a pessoas com ligações com milícias no Rio de Janeiro.
Restava a defesa da família. Essa, certamente, seria uma razão poderosa. Afinal, quem não deseja proteger sua família?
Mas comecei a pensar nas famílias de verdade. Na mãe que precisa de uma creche para poder trabalhar fora. No pai que passa três horas por dia dentro de um ônibus. No casal que não consegue financiar a casa própria. Nos idosos que dependem do SUS. Nos jovens que precisam de educação pública de qualidade para construir seu futuro.
Defender essas famílias exige salários dignos, saúde, educação, moradia, previdência e políticas públicas sociais. É um pouco mais trabalhoso do que defender a família em discursos, fotografias e manifestações religiosas. Talvez por isso a segunda alternativa seja tão popular.
Ainda havia a economia. Afinal, o mercado costuma ser apresentado como solução para quase tudo. Menos Estado, menos impostos, menos regulamentação. A receita parece irresistível, especialmente para quem acredita que a prosperidade depende apenas da liberdade de empreender.
Mas o brasileiro comum talvez devesse fazer uma pergunta elementar: menos Estado para quem?
Porque o Estado que financia hospitais, escolas, universidades e políticas sociais frequentemente é tratado como um problema. Já aquele que oferece incentivos, subsídios e garantias a determinados setores econômicos costuma ser recebido com entusiasmo. A tão desejada liberdade econômica, a abstenção do Estado, só interessa quando o assunto são os direitos dos trabalhadores. Todos querem um subsídio estatal para chamar de seu. O dinheiro público, ao que parece, só é inconveniente quando beneficia as pessoas erradas.
Cheguei, finalmente, à democracia. Talvez Flávio Bolsonaro representasse uma oportunidade de pacificação nacional, respeito às instituições e superação da intolerância política.
Seria uma excelente razão para votar nele. Mas a trajetória do movimento político do qual é herdeiro recomenda cautela. O respeito à democracia não se demonstra apenas aceitando eleições quando se vence, nem reconhecendo a legitimidade das instituições quando suas decisões são convenientes. Democracia é, sobretudo, aceitar limites ao próprio poder. O que podemos pensar de um candidato que antes de encerrada a eleição informa o desejo de prorrogar o seu mandato por mais um ou dois anos?
Depois de tantas tentativas, percebi que talvez estivesse procurando no lugar errado.
Existem, evidentemente, eleitores que encontram razões para apoiar Flávio Bolsonaro. Alguns compartilham suas posições conservadoras. Outros defendem uma agenda econômica liberal. Há os que preferem políticas penais mais rigorosas. E existem aqueles para quem a rejeição aos adversários políticos é motivo suficiente.
São preferências que podem ser discutidas democraticamente. Mas nenhuma delas dispensa uma pergunta fundamental: quais benefícios concretos esse projeto oferece à maioria da população?
Porque uma coisa é concordar com determinadas ideias. Outra, muito diferente, é entregar o governo de um país a alguém apenas porque carrega o sobrenome certo, combate os inimigos escolhidos ou promete resolver problemas cuja complexidade prefere ignorar.
Talvez o maior talento do bolsonarismo tenha sido justamente transformar a política em uma disputa de identidades, na qual importa menos aquilo que um governante realiza do que o grupo ao qual declara pertencer.
Nesse ambiente, não é necessário apresentar resultados extraordinários. Basta convencer o eleitor de que todos os seus problemas são culpa de algum inimigo: a esquerda, os sindicatos, os professores, a imprensa, o Supremo ou qualquer outro personagem disponível.
É uma fórmula politicamente eficiente. Afinal, encontrar culpados costuma ser muito mais fácil do que encontrar soluções.
Terminei meu exercício sem conseguir elaborar uma lista convincente de razões para votar em Flávio Bolsonaro. Não porque seus eleitores sejam incapazes de apresentar argumentos, mas porque as justificativas merecem ser confrontadas com a trajetória do candidato, a consistência de suas propostas e as consequências sociais de seu projeto.
E talvez essa seja a questão central.
Se você não pretende transformar a política em patrimônio familiar, não acredita que direitos trabalhistas sejam obstáculos ao desenvolvimento, não confunde repressão com segurança, não considera políticas sociais um desperdício e não acha que a democracia deva funcionar apenas quando favorece seus candidatos, convém examinar com bastante cuidado o que Flávio Bolsonaro tem a lhe oferecer.
Pode ser que encontre alguma boa razão.
Eu não a encontrei.
Continue lendo
MUDAR A CONSTITUIÇÃO OU MUDAR DE CONSTITUIÇÃO? O QUE ESTARÁ EM JOGO DEPOIS DAS URNAS PRESIDENCIAIS DE 2026
Uma frase pronunciada depois do primeiro turno das eleições presidenciais merece muito mais atenção do que talvez esteja recebendo. Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República,...
Nadie votará por nosotros
El 29 de noviembre no elegiremos solo un nuevo Parlamento y un Gobierno. Decidiremos si España sigue ensanchando las libertades conquistadas desde 1978 o si las...
Ni una Maricarmen más: la hora de una mayoría progresista
Ha tenido que ser una mujer de ochenta y siete años quien nos lo recuerde. El 23 de septiembre sacaron en camilla a María del Carmen...
A esperança não recua: ela se organiza
O resultado deste primeiro turno é duro e precisa ser encarado sem derrotismo, mas também sem autoengano. Perdemos cerca de 3,5 milhões de votos em relação...
A Copa é em 2027, mas o futuro do futebol feminino também passa pelas urnas em 2026
Em outubro, o Brasil vai escolher presidente, governadores, deputados e senadores. No ano seguinte, receberá a primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul....
Você viu todas as matérias.
Não foi possível carregar. Toque para tentar de novo.





