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Quem não paga pensão não entra no estádio — e vai preso

Foto: Marcos Ribolli

Desde 2023, o Palmeiras mantém uma parceria com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo pelo programa Muralha Paulista. O clube implementou biometria facial em todos os seus ingressos, e o sistema cruza os dados com mandados de prisão em aberto. Quem tenta entrar no estádio com a Justiça atrás não gira a catraca.

Das 49 prisões registradas desde o início da parceria, 35 eram de devedores de pensão alimentícia. Mais de 70% do total.

O número diz muita coisa sobre como o Brasil lida com esse tipo de dívida. Pensão alimentícia não é uma obrigação qualquer — é, na maioria dos casos, um pai que decidiu que o filho pode esperar enquanto ele segue com a própria vida. É abandono com CPF identificado e decisão judicial descumprida. E recai quase sempre da mesma forma: a mãe fica com a criança, com a conta e com a ausência. É violência econômica, ainda que raramente nomeada assim.

O Brasil tem legislação que prevê prisão civil para esses casos. O problema é que cumprimento das decisões judiciais é uma ficção.  uma ficção. Os mandados se acumulam, o devedor aprende que pode continuar devendo, e o sistema não fecha o cerco em lugar nenhum. O Palmeiras criou, sem querer ser grandioso nisso, um ponto onde o cerco fecha.

Não é solução estrutural. É o retrato de uma solução que o Estado não consegue dar.

Foto: Reprodução/ samiabonfim.com.br

A Argentina proibiu recentemente a entrada de devedores de pensão em estádios. No Brasil, a deputada Sâmia Bonfim protocolou em maio o PL 2581/2026 com medida parecida, que ainda engatinha na Câmara. O Palmeiras já faz na prática o que a lei ainda debate.

Tem quem veja nisso um problema: o Estado empurrando para um clube privado uma função que é sua. A crítica faz sentido. Não deveria ser preciso que um homem quisesse ver futebol para que a Justiça o encontrasse. Mas enquanto os mandados continuam esquecidos e as crianças continuam sem receber, qualquer ponto de captura que funcione importa.

O futebol no Brasil é o lugar onde o homem aparece. Se é lá que ele pode ser responsabilizado, que seja lá.

Gabi Sabino, jornalista, mestra em políticas públicas e doutoranda em economia

Gabi Sabino

Gabi Sabino é jornalista, Mestre em políticas públicas, chefe de gabinete no CNPEM, escritora e líder em iniciativas de transformação social e equidade.

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