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Vídeo sem áudio de Nikolas Ferreira tem número de visualizações equivalentes ao de usuários brasileiros no Instagram

Um vídeo sem áudio publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), intitulado “O Nordeste que foi esquecido”, alcançou cerca de 164 milhões de visualizações no Instagram em poucas horas. A publicação apresenta depoimentos de moradores do Nordeste com críticas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e manifestações favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. O conteúdo continuou acumulando visualizações mesmo depois de perder o áudio, retirado após uma solicitação relacionada a direitos autorais.

A marca chama a atenção também pela proximidade com os 164 milhões de usuários brasileiros atribuídos ao Instagram em um artigo do site Plano de Governo, que cita o relatório Digital 2026: Brazil, do DataReportal. Há, contudo, uma divergência importante: a fonte primária do DataReportal informa que as ferramentas de publicidade da Meta indicavam um alcance potencial de 147 milhões de usuários no Brasil no fim de 2025.

A diferença de desempenho aparece também em estudos independentes. Um relatório do Sleeping Giants Brasil analisou 300 Reels de 30 perfis, entre deputados brasileiros, celebridades nacionais e estrelas internacionais. Os dez vídeos selecionados de Nikolas somaram 410,5 milhões de visualizações, quase três vezes as 141 milhões acumuladas pelos 90 vídeos dos outros nove parlamentares avaliados. A média foi de 41,05 milhões de visualizações por vídeo, e a mediana, de 38,25 milhões. O desempenho por seguidor foi 17,2 vezes o valor típico do grupo de parlamentares comparados.

A comparação com celebridades internacionais também chama a atenção. Na amostra do Sleeping Giants, a mediana de visualizações por Reel de Nikolas foi de 38,25 milhões, contra 34,45 milhões de Selena Gomez, 25,8 milhões de Kylie Jenner, 16,6 milhões de Justin Bieber, 13,9 milhões de Kim Kardashian e 11,7 milhões de Beyoncé. O relatório observou que o deputado superou esses perfis apesar de ter uma base de seguidores muito menor.

Outra pesquisa, do Instituto Democracia em Xeque, publicada em 21 de outubro, analisou milhares de contas e publicações nas redes sociais. O levantamento estimou que, para uma conta com 22,3 milhões de seguidores (número registrado por Nikolas em setembro ), a mediana esperada seria de aproximadamente 306 mil visualizações por Reel. A mediana observada nas publicações analisadas do deputado foi de 16,5 milhões, cerca de 54 vezes o valor estimado pelo modelo estatístico. O instituto classificou o resultado como um caso excepcional de alcance entre as 2.062 contas consideradas nessa comparação.

O estudo identificou ainda que 17 dos 42 Reels de Nikolas analisados durante a vigência de uma restrição eleitoral superaram o número de seguidores do deputado. Entre 28 de setembro e 9 de outubro, foram 11 de 13 publicações. Os pesquisadores afirmam que os dados indicam uma discrepância que merece explicação, mas não permitem determinar diretamente se as visualizações vieram de recomendações algorítmicas, compartilhamentos ou outras formas de circulação.

A questão chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 22 de outubro, o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, deu prazo de 12 horas para a Meta explicar o alcance do perfil de Nikolas, sob pena de multa de R$ 100 mil por hora de atraso. A Justiça Eleitoral pediu informações sobre a origem das visualizações, a participação de seguidores e não seguidores e os canais pelos quais os conteúdos foram distribuídos. A medida respondeu a uma ação da campanha de Lula que questionava possível favorecimento algorítmico. A existência da investigação não significa que a irregularidade tenha sido comprovada.

A Meta afirma que o alcance depende do engajamento e dos compartilhamentos, e não apenas do número de seguidores. Nikolas não havia respondido aos questionamentos da Folha de S.Paulo sobre o desempenho do vídeo até a publicação da reportagem do jornal em 22 de outubro.

 

 

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