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Da favela de Campinas para o topo do mundo

Aretha Duarte, 41, nasceu na periferia de Campinas, filha caçula de um casal pernambucano que, há meio século, chegou a São Paulo sem ter onde morar. Foi num barraco de madeira, em um terreno de ocupação conhecido como Favela do Jardim Capivari, que ela cresceu — sem saneamento básico, sem água encanada, mas com liberdade para brincar na rua, soltar pipa e jogar bola.

Minha infância foi incrível. Mesmo faltando o básico, eu me sentia livre

relembra.

Essa liberdade moldou uma criança que, aos dez anos, já recolhia latinhas para comprar um par de patins. Na adolescência, conquistou uma bolsa em escola particular, fez curso técnico em informática e conseguiu seu primeiro estágio em um banco público, privatizado anos depois.

Foi quando percebi que o acesso à educação me dava melhores oportunidades profissionais

conta.
(Foto: Divulgação)

Muito cedo, sua remuneração superou a dos pais — a mãe cozinheira, o pai ferreiro amador —, o que lhe permitiu ajudar em casa, mas também fez crescer a inquietação ao ver amigos e irmãos sem as mesmas oportunidades.

O esporte virou resposta. Aretha ingressou na graduação em Educação Física com a ideia de dar aulas na periferia, mas no segundo ano do curso conheceu o montanhismo. A primeira ascensão, à Pedra Bela Vista (SP), durante uma visita técnica da faculdade, foi uma experiência de medo e fascínio.

Eu tenho medo de altura até hoje. Mas toda vez que subo uma montanha, me fortaleço

Na carreira, a ascensão também foi gradual. Começou como vendedora em uma operadora de turismo de aventura, virou assistente de guia, depois guia de ecoturismo no Parque Nacional do Itatiaia e, mais tarde, guia de alta montanha. Sua primeira expedição internacional foi ao Aconcágua, em 2012. De lá para cá, foram dezenas de cumes pela América Latina e pelo mundo.

Da Sucata ao Everest

(Foto: Divulgação)

Durante anos, Aretha via o Everest como inalcançável: risco alto, custo altíssimo, uma vitrine para quem buscava status. Até que a pandemia, em 2020, lhe impôs uma revisão radical. Se morresse, teria realizado o que se propôs na juventude? Tinha feito seus projetos sociais saírem do papel? A resposta foi não — e daí nasceu o projeto Da Sucata ao Everest.

Sem patrocínio milionário, ela decidiu financiar a escalada recolhendo recicláveis, atividade que fazia na infância.

O brinquedo ficou mais caro

brinca.

Ela e uma rede composta por familiares, amigos e apoiadores trabalharam de domingo a domingo, transformando latas e materiais descartados em dólares. Ao final de 13 meses, tinham os cerca de R$ 400 mil necessários para a empreitada.

Em abril de 2021, Aretha embarcou para o Nepal. Foram 64 dias entre voos perigosos, trekking ao campo base, aclimatação e o ataque ao cume. Ela enfrentou princípio de edema pulmonar, queimadura de córnea e temperaturas de 30 graus negativos. Viu quatro corpos no caminho — um lembrete de que o risco era real.

Na madrugada decisiva, já na “zona da morte”, seu guia anunciou que não conseguiria continuar devido ao risco de congelamento. Perto de realizar seu grande sonho, Aretha chegou a pedir para subir sozinha, mas depois se arrependeu.

Eu me achei pouco empática, então pedi desculpas e disse que preferia descer a colocar a vida dele em risco

Tocado, o guia respirou fundo e retomou a escalada. Oito horas depois, Aretha se ajoelhava no topo do mundo. Era 21 de maio de 2021. Ela se tornava a primeira mulher negra latino-americana a chegar ao cume do Everest, a sexta brasileira e a terceira mulher negra do planeta a conquistar a montanha.

Multiplicar o acesso

(Foto: Divulgação)

O retorno ao Brasil, em junho de 2021, foi uma grande festa: no aeroporto, Aretha foi recebida pela mãe com uma marmita de arroz, chuchu e bacon — a “comida de afeto” que ela dizia sentir mais falta na montanha. Para buscá-la, a Ponte Preta, seu time do coração, emprestou um ônibus oficial, lotado de familiares e amigos.

Foi uma bagunça linda. Eu tinha passado 64 dias fora, enfrentado o maior desafio da minha vida, e ali estava todo mundo que me ajudou a chegar

lembra.

A ascensão ao Everest transformou sua vida. Entrevistas, convites, um documentário, uma biografia. Mas, sobretudo, a chance de institucionalizar seu propósito. Hoje Aretha ministra palestras para multinacionais e também para escolas públicas, financia paredes de escalada em periferias, atua como embaixadora de ONGs socioambientais e guia grupos de montanhistas negros ao Kilimanjaro, a montanha mais alta da África, para se reconectarem com sua ancestralidade.

Seus planos pessoais incluem completar os “Sete Cumes” das Américas e escalar o Denali, no Alasca. Mas seus esforços principais seguem voltados aos projetos coletivos.

Cada um tem o seu Everest. O meu, hoje, é gerar impacto social e ambiental

repete.

Montanha é escola de desenvolvimento socioemocional. Quando você se sente pertencente à natureza, passa a cuidar dela

Aretha sonha com um Brasil em que cada periferia tenha sua própria parede de escalada gratuita — e com um montanhismo em que mulheres, pessoas negras e populações minorizadas não precisem romper tantas barreiras para chegar a um cume.

A montanha é para todos

acredita.
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Jess Carvalho

Jess Carvalho é repórter de direitos humanos. Tem trabalhos publicados em veículos como Intercept Brasil, Folha de S.Paulo, revista Piauí, UOL, Agência Diadorim, Jornal Plural e Portal Catarinas. No BFC, faz investigação e reportagens especiais. Dicas: jess@foradacaverna.com.br

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