Até o final de março deste ano, a deputada federal paranaense Gleisi Hoffmann (PT), comandava a Secretaria de Relações Institucionais, responsável pelo “meio de campo” entre o governo Lula e o Congresso. Como tal, ela enfrentou um Legislativo hostil, com uma maioria conservadora e empoderado pelas emendas impositivas ao Orçamento. Mesmo assim, obteve vitórias históricas, como a aprovação, em outubro de 2025, da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, entre outras matérias importantes.
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Gleisi deixou o Executivo para disputar uma cadeira no Senado pelo Paraná nas eleições de outubro. E apesar de toda a complexidade de um cenário político que segue profundamente polarizado, ela exibe o otimismo de quem está acostumado a enfrentar barreiras que muitos considerariam intransponíveis. Gleisi foi chefe da Casa Civil do governo Dilma Rousseff, e como tal, acompanhou de dentro todo o processo que resultou no impeachment da primeira mulher presidente do Brasil. Também comandou nacionalmente o PT na fase mais difícil da história da legenda, entre 2017 e 2023, incluindo o período em que o hoje novamente presidente Luiz Inácio da Silva permaneceu preso em Curitiba por 580 dias alvejado pela Lava Jato.
No momento, Gleisi se prepara para enfrentar os cabeças da “República de Curitiba”, incluindo o senador Sergio Moro (PL-PR), pré-candidato ao governo do Paraná, e o ex-procurador Deltan Dallagnol (Novo-PR), adversário direto na disputa por duas vagas no Senado. E se demonstra animada para o debate. “Qual é o programa e o projeto que eles têm para o país? Eu pergunto aqui no Paraná que tem essa gente representando o Bolsonaro. Que é da turma do Flávio (Bolsonaro). Qual é a proposta do Paraná? O que esse pessoal do bolsonarismo trouxe para o Paraná?”, diz em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, em que antecipa um pouco da estratégia que deve adotar durante a campanha nesse embate.
BFC: perspectivas para as eleições 2026
Gleisi Hoffmann: não dá pra gente falar muito, com muita certeza das perspectivas, porque a maioria do povo ainda não está internado na eleição. Somos nós que vivemos a política, que estamos nos movimentos partidários que tem vivido isso. Mas se você pegar, por exemplo, as pesquisas sobre Senado, mais de 80% das pessoas ainda não se definiram. E depois quem está definido tem um quadro muito embolado. Tem alguns candidatos mais à frente, um, dois candidatos no mesmo patamar. Acho que é um quadro muito disputado e é importante isso porque é a oportunidade que a gente tem de falar por quer ser senador, senadora, mostrar as propostas para o Estado, as posições políticas. Eu estou muito empolgada e animada com essa caminhada.
BFC: pré-candidatura ao Senado
Gleisi: esses números iniciais (das pesquisas) acho positivo, porque eles mostram um pouco o que é essa base que a gente tem da centro-esquerda ou até do centro do Paraná. O pessoal costuma dizer assim: “não, o Paraná é um estado de direita”. Eu não acho que o Paraná seja um estado de direita e ponto. Eu acho que nós estamos passando por uma conjuntura onde a direita ganhou mais força, mas esse estado aqui já foi governado três vezes por Roberto Requião. Requião não é um homem de direita. Nós, do PT, já governamos Maringá, Ponta Grossa, Londrina, quase ganhamos em Curitiba, em Guarapuava.
Isso mostra que tem um eleitorado que conhece as nossas propostas, que simpatiza com elas e que a gente pode discutir, crescer para além até desse eleitorado, falando tudo o que fizemos durante esse período, as entregas que os nossos governos fizeram aqui no Paraná e que não são poucas. Acho que esse quadro mostra essa perspectiva que é uma eleição muito disputada e com muita chance de vitória.
BFC: frente ampla no Paraná
Gleisi: estamos com seis partidos: PT, PV, PCdoB, Rede, PSOL e PDT. Acho que é uma aliança bem robusta. Unimos esse campo. Queremos agora também trazer o PSB, que refletiria a base da aliança do presidente Lula em nível nacional. Estamos conversando sobre isso. Eu acho que vai ser uma das maiores coligações aqui do Estado.
BFC: Dallagnol elegível?
Gleisi: segundo a última decisão do ministro Gilmar Mendes, não. Ele (Dallagnol) até entrou com ações dizendo que a gente não podia falar que ele era inelegível. E foi feito um recurso ao Supremo. A sentença que saiu dessa reclamação é que o que nós estamos reproduzindo é o processo a que ele foi submetido.
O que aconteceu com o Deltan? Ele era do Ministério Público, procurador, e estava respondendo no Conselho Nacional do Ministério Público a mais de 15 processos por uma série de coisas de desvio, comportamento, etc. Para não ser punido em nenhum, ou seja, julgado, ele saiu do Ministério Público. E a Lei da Ficha Limpa é muito clara: quando o juiz ou promotor deixa o seu cargo para não responder a processos administrativos, perde os direitos políticos. Está lá. Não sou eu que estou dizendo: é a perda de direitos políticos pelo período de oito anos. É isso que a gente está dizendo. Tanto que a gente já fez desafio a ele: “mostra certidão eleitoral, não custa nada. Vai lá e pede no cartório e mostra elegível”. O que eu não acho legal é a pessoa estar enganando o eleitorado, se colocando como candidato quando não vai poder disputar a eleição.
BFC: eleição no Paraná
Gleisi: acho que o (deputado estadual do PDT) Requião Filho, que é o nosso pré-candidato a governador, e está em segundo lugar nas pesquisas, tem chance de crescer exatamente por isso. Por uma inação do próprio governo, do campo do governador (Ratinho Jr, do PSD), e essa bateção de cabeça que eles tiveram. E por que nós vamos fazer essa disputa com o (senador e pré-candidato do PL ao governo do Paraná, Sérgio) Moro também? O Moro vai ter que entrar no debate político. Não vai ser algo simples e fácil para ele. Governar um estado não é ser juiz. É entender dos problemas reais que o Estado tem.
Às vezes pego lá o Moro falando ao time dele acenando que a pauta prioritária que eles têm a derrotar o PT e o Lula. Isso não é pauta para um candidato a governador. Ele tem que fazer a disputa e nos derrotar na proposta, não achando que é um juiz. Acho a candidatura dele muito frágil. Não tem sustentação em um debate político e na apresentação de ideias. O Requião Filho tem uma trajetória, é jovem, é deputado. Vem de um berço, de uma casa em que o pai governou por três vezes o Paraná e foi um dos melhores governadores do estado. Conhece as políticas, tem boas relações. É um homem que defende a educação, a segurança pública, os programas e políticas sociais, tem proposta para o desenvolvimento do Estado. Isso faz a diferença, dá confiança para as pessoas.
BFC: aliança nacional
Gleisi: acho que é possível (para Lula repetir as alianças de 2022). Eu acho que, de certa forma, isso já está sendo construído. Veja os partidos por inteiro que nós temos. São esses partidos mais próximos da nossa base. Mas nós tivemos outros partidos que vieram conosco no primeiro turno, o Solidariedade, o Agir, o PROS, vários outros partidos menores. Mas tivemos pedaços de partidos importantes, grandes, que também vieram com a gente, o MDB, por exemplo. Se não me engano, 12 ou 13 diretórios estaduais do MDB apoiaram a candidatura do presidente Lula (em 2022).
Isso foi também muito importante. O PSD também teve vários diretórios que apoiaram. Até partes do PP apoiaram a candidatura do presidente. Por que? Porque aí também tem as conformações regionais no Nordeste, Norte. Acredito que a gente vai repetir exatamente isso na eleição. Vai ter uma coligação forte com esses partidos da base aliada mais tradicional, mas ampliada por esses atores, por partes desses partidos que apoiaram o presidente, e que aliás, estão no governo.
BFC: relação com o Congresso
Gleisi: não foi fácil pilotar isso. Desde o ministro (Alexandre) Padilha, quando assumiu, já no primeiro ano do mandato do Lula e até quando eu cheguei, acredito agora com (o deputado federal e novo ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, José) Guimarães (PT-CE) é sempre muito complexo. Porque você precisa do Congresso para aprovar determinadas matérias e tem que sentar e negociar. Porque dos 513 deputados, a gente tem cerca de 130 deputados fiéis à base. E no Senado a mesma coisa, perto de 30 de 81. Não é uma situação simples, mas a gente conseguiu fazer muita coisa. Aprovamos muito projetos importantes para o governo, o país. Acho que com conversa, diálogo, a gente faz. Agora, é um fato que o Congresso está extremamente empoderado, porque além já da sua função de legislar, de discutir as leis, está com muito recurso.
Só para você ter ideia, o total de emendas que hoje o Congresso dispõe é mais de R$ 50 bilhões. Isso é quase o total de investimento que o Estado brasileiro tem no país inteiro, R$ 60 bilhões. Eles têm muita autonomia com isso e, obviamente, não dependem do Executivo para liberação, o que é uma coisa que não está correta do ponto de vista das funções, porque em nenhum lugar do mundo é assim. O Legislativo, claro, pode falar, dispor sobre orçamento e direcionar os recursos, mas não com essa quantidade. Não é função dele fazer a execução e dirigir as políticas. De fato, a gente tem uma situação bem diferenciada no Brasil, que é bem complicada e é difícil repactuar isso porque o Congresso agora abrir mão desse poder é difícil.
E isso também dá ao Congresso uma capacidade de se perpetuar. As mesmas pessoas, os mesmos grupos, porque tem muito poder na hora da campanha, das articulações. O nível de renovação tem sido pequeno no Congresso. Obviamente, quem está lá não quer votar contra si, então não vai querer abrir mão dos recursos que têm. Vamos ter que ver uma outra forma de relação, composição. Vamos ter que fazer a discussão sobre isso. O que está certo? O que está errado? Tem já uma discussão sobre essa questão das emendas parlamentares. Talvez isso seja objeto inclusive do processo eleitoral agora.
BFC: PDL do estupro
Gleisi: é uma coisa extremamente difícil, porque a gravidez por estupro em crianças e jovens com até 14 anos é uma realidade nesse país. E qual é o problema disso? É que a maioria dos casos acontece dentro de casa e com pessoas próximas, familiares. E quando as pessoas descobrem a gravidez na menina, já está muito avançada. Acho que a posição do Senado não foi uma posição pró-vida, foi uma posição muito ruim para as nossas meninas. Eu não sou a favor do aborto. Acho que o que está na nossa Constituição é o que tem que ser cumprido e a gente tem que proteger principalmente as crianças. Criança não pode ser mãe, assim como estuprador não pode ser pai.
BFC: pautas identitárias
Gleisi: eu acho que as coisas estão relacionadas. Seja porque quando a gente discute a questão dos direitos, a questão da população mais pobre, do acesso ao Estado, às políticas públicas, nós estamos majoritariamente discutindo sobre uma população que é marcada pela raça. A maioria é de negros e negras. É isso que a gente vê na periferia das nossas cidades. Quando você faz o combate ao racismo, você também está evidenciando isso que hoje quem mais sofre com a concentração de renda, com uma política econômica liberal, com o preconceito e a falta de estrutura é a população negra.
E isso não entra para mim nessa questão dos valores que cada um tem. A questão de raça não é uma questão de valor, é uma questão colocada. A população negra é a mais afetada com toda discriminação e com toda a sorte de falta de infraestrutura que a gente tem na área social. Outra coisa é a fé, que é o meu processo, a minha fé e os valores que eu tenho em relação a família. Acho que a gente não pode misturar. Penso que quando se faz essa discussão é justamente para você enfraquecer a luta que a gente tem para construir uma sociedade mais justa e igualitária.
BFC: sindicatos e a “uberização” do trabalho
Gleisi: acho que os sindicatos estão muito fragilizados, primeiro, em razão da reforma trabalhista que nós tivemos no país. O governo Temer fez essa reforma, retirou completamente qualquer estrutura dos sindicatos sem retirar a estrutura do sistema S (Senai, Sesi, Sesc), que é a organização empresarial. Nós temos um desbalanço aí muito grande, em que os trabalhadores não têm organização estruturada para lutar e o empresariado tem. Isso que é a primeira coisa: esvaziamento, asfixia financeira e econômica dos sindicatos.
Nem agora deixaram a gente aprovar a contribuição sindical, que era uma coisa que a gente estava lutando. Que era de liberdade dos trabalhadores. E obviamente que isso prejudica o movimento dos trabalhadores. A outra coisa é a quantidade que a gente tem hoje de pessoas que não têm carteira assinada. São “PJ” e “Uber”.
Acho que as pessoas têm que ter a liberdade, mas sabendo que essa liberdade é condicionada porque o trabalhador sozinho tem dificuldade de estabelecer direitos. Vamos pegar, por exemplo, o pessoal do Uber e dos empregadores que têm os seus horários livres, fazem o que querem. Mas quando uma pessoa dessa sofre um acidente, quem é que ampara? Ela não tem nada que dê amparo, não tem o estado. Ela vai depender dos parentes, porque não vai ter um salário. Ou na hora que ela ficar idosa, quem é que vai pagar a aposentadoria se não tiver um sistema de aposentadoria? Porque as pessoas vão envelhecer e vão perder a capacidade de trabalho.
A gente tem que pensar numa segurança mínima para esses trabalhadores e trabalhadoras e temos que começar a conversar com eles sobre isso. Não é tirar a liberdade ou opção, mas saber que isso não dá guarida às questões que a vida apresenta, que a gente precisa estar preparado.
BFC: a renovação da esquerda
Gleisi: acho que a gente tem que estimular e incentivar a participação dos jovens na política. O PT tem uma política que é de estabelecer pelo menos 20% de juventude nos cargos de comando. 50% são mulheres, 20% têm que ser jovens e 20% tem que ser de negras, para que a gente possa começar a ter a participação efetiva nessas posições de direção e as pessoas se prepararem para saber como que é uma liderança, uma estrutura partidária. Assim como a gente incentivou e incentiva as candidaturas jovens. Hoje nós temos muitos jovens participando da política aqui no Paraná. Nós temos deputado estadual, que é a Ana Júlia, que é o próprio Renato (Freitas). Temos na Câmara de Vereadores (de Curitiba). A gente vai estimulando e vai fazendo com que a juventude participe e cada vez mais. A gente tem que também sensibilizar o jovem de que política é importante.
Eu vejo muitos jovens dizendo: “não gosto de política, não quero. Política é um saco”. Pode ser. Mas o problema é que quem está na política decide os rumos do país, decide a vida da sociedade e se as pessoas não participarem, alguém vai decidir (por elas). Acho que a participação também em massa vai fazer com que jovens lideranças assumam cargos proeminentes, cargos de posição, de decisão.
BFC: jovens de direita
Gleisi: a direita vende isso de que ela é o “anti-sistema”. Mas ela governou esse país por quase 500 anos. Se nós pegarmos desde o descobrimento do Brasil, quem é que está governando o País? Foi o reinado de Portugal, que não é de esquerda. Depois veio o Império, que não é de esquerda. A velha República, que não era de esquerda. A Nova República que também não era. Poucos ali que participaram nessa nova República eram mais progressistas. Um primeiro governo mais de esquerda que nós tivemos no Brasil foi com o presidente Lula. Getúlio Vargas também pela visão de desenvolvimento que tinha do país. O Getúlio tinha uma visão de soberania nacional, do desenvolvimento local. Criou a Petrobras, Eletrobrás, BNDES. Foi quem fez a CLT, estabeleceu o salário mínimo. Pensou no direito dos trabalhadores. Mas depois veio o Lula. Então que antissistema é a direita? Porque ela fala berrando? Porque ela agride os outros? Porque ela fala em liberdade total, sem se preocupar com o direito de cada um? É um discurso fácil, que não se sustenta. Talvez até pela rebeldia jovem, por estar vivendo esse momento, até por não conhecer todo esse nosso passado, acaba entrando.
Compete ao nosso campo mais da esquerda, da centro-esquerda, progressista, democrático, mostrar, de fato, que a realidade desse país é o que a gente avançou até agora. Em um curto espaço de tempo. Num país em que sempre teve a maioria do povo brasileiro, a imensa maioria como paisagem, como fundo de um quadro que não era sujeito de nenhum direito.
BFC: fim da escala 6 X 1
Gleisi: tem que se manter mobilizado, porque não é só a condução do presidente (do Senado, Davi Alcolumbre) de não colocar (para votar). Eles (a direita) estão articulando uma outra coisa que inclusive o candidato a governador aqui, o Moro está junto, que é uma PEC, uma proposta de emenda constitucional, que nós estamos chamando trabalho “7 X 0”. Ou seja, o trabalhador pode optar por vender as horas que ele tem para quem ele quiser, sem direitos, sem amparo, sem nada. É quase que nem o canarinho negociando com o a espingarda no peito dele.
É isso que nós estamos vendo. E essa gente? Não, “porque assim é o trabalho e é isso que dignifica”. Mas será que Sérgio Moro proporia isso para ele mesmo? Ele (o juiz) tem férias duas vezes por ano. Tem um salário muito bom. Tem seus penduricalhos e suas benesses. Geralmente, é gente que tem muito que propõe muito pouco pra maioria do povo. Que não tem consciência. Nós temos que abrir os olhos para isso. Aqueles que ainda querem manter e concentrar o poder e conservar no limite financeiro e econômica. Terminar com a escala 6 X 1 é questão de dignidade do trabalho.
Hoje, com os avanços tecnológicos, nós não precisamos mais trabalhar do jeito que se trabalhava há tempos atrás. Nós nos permitimos evoluir. Deus foi generoso. Nos deu inteligência e capacidade de avançarmos. A tecnologia está aí para ajudar a humanidade em todas as áreas do trabalho, a saúde. Por que a gente vai manter esse regime e, principalmente para as mulheres. A maioria (das mulheres) trabalha no comércio, serviços, indústria. Também trabalha seis dias, folga um. Geralmente são pessoas que não têm condições de contratar alguém pra estar em casa. Em um dia tem que dar conta de dar atenção para os filhos, acertar a semana na casa. Quando é que ela descansa? Por isso que elas estão exauridas. Nós estamos com a nossa população exaurida, cansada, principalmente as mulheres. Um grande fardo emocional e psicológico. Acabar com essa jornada é uma questão de justiça. Isso não vai quebrar a economia, vai ser adaptado. A gente vai ter o tempo pra essa adaptação, mas nós temos que fazer porque todo mundo ganha. Quando se tem qualidade de vida, a sociedade ganha como um todo.
BFC: esquerda pronta para o “pós-Lula”
Gleisi: vai estar. Vamos por partes. Vamos ganhar primeiro essa eleição, que eu acho que é um fator decisivo na nossa história. Eu sempre tenho dito: nós não temos o direito de deixar a extrema-direita ganhar. Nós ganhamos em 2022 com todas as dificuldades, com eles sentados na cadeira da Presidência da República. Temos uma responsabilidade histórica de não deixar retroceder, porque eles são o retrocesso. Veja o que está acontecendo agora com a entrega dos interesses do país aos norte-americanos. É isso que eles fazem. Travestidos de bom moço. Estão desde o ano passado, com aquele outro filho do Bolsonaro (Eduardo) articulando as taxas sobre o Brasil, agora vem dizer que não têm nada a ver com isso. A cara de pau. Mentem. Qual é o programa e o projeto que eles têm para o país? Eu pergunto aqui para o Paraná que tem essa gente representando o Bolsonaro. Que é da turma do Flávio (Bolsonaro). Qual é a proposta do Paraná? O que esse pessoal do bolsonarismo trouxe para o Paraná?
Quando me perguntam o que o Lula trouxe, eu posso citar muitas coisas que foram importantes para o desenvolvimento. Primeiro na educação, as nossas universidades federais. Foi Lula que criou a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), que, aliás, é um bicho do Paraná, só tem aqui e hoje têm 13 campus no Estado. Foi Lula que criou os institutos federais de educação. São 26 que estão aqui, mais seis que têm implantação nesse mandato dele. Foi ele que criou UNILA, a Universidade Latino-Americana, com sede em Foz, que criou a fronteira sul com sede em Laranjeiras do Sul, que expandiu a Universidade Federal para o litoral, para o oeste, para o norte do Paraná, dando oportunidade para nossa juventude para estudar.
Só tinha uma que era concentrada aqui em Curitiba. Uma visão de desenvolvimento para o Estado. Foi Lula que investiu na saúde aqui, que criou o SAMU, que regula o serviço de saúde. Que trouxe hospitais, está trazendo policlínicas agora. Que vai fazer universidade, a maternidade em São José dos Pinhais (região metropolitana de Curitiba), Policlínica em Foz do Iguaçu, em Cascavel, em Ponta Grossa. Onde é que essa gente investiu? Eu não consigo ver. Lula investiu também em estradas. Eu fico me perguntando o que que essa gente discute para o Paraná? O que que eles têm a oferecer? Quando eu começo a ver essas coisas concretas e ver que eles não fizeram nada, eu fico bem desesperada.
Não é só pela pela limitação que eles têm. É pela má fé que eles têm de conduzir para a extrema-direita. É porque eles são incapazes de fazer coisas pelo povo, porque a cabeça deles é da elite e daquela elite que governou desde o reinado. Governa para cerca de 25% da população. O resto que vire paisagem. Se der pra gente ajudar, ajuda. Se não der, que se vire. Essa é a tese. Nós não podemos continuar isso se esse país quer ser grande, quer ser uma nação. A gente precisa fazer com que isso aconteça e precisa investir. E o nosso Estado também. O Paraná é um estado rico, pujante, tem agricultura. Mas é um Estado muito apagado nacionalmente, sem articulação. Nós podíamos ser um estado por esse potencial de inteligência instalada, nossas universidades estaduais, ser um polo de desenvolvimento tecnológico do país. Mas não há uma articulação política que faça isso. Nas primeiras gestões nossas federais, quando eu fui senadora, o Requião foi senador, a gente tinha posicionamentos mais firmes, fazia articulação. Trouxemos vários investimentos. Esses todos (senadores atuais) que eu falei agora a gente vê uma apatia, é só discurso político contra opositor. Ter posição política é importante. Eu tenho lado, defendo o lado que eu tenho, Mas eu, sobretudo sou do Paraná.
Eu quero que esse estado tenha desenvolvimento e quero que as pessoas que moram aqui tenham um benefício. Então a gente tem que lutar por isso. Não a política feita em cima da negação, da destruição. Aliás, um dia o Bolsonaro disse: “eu vim pra destruir”. E quase conseguiu. Começou com a Covid deixando milhares morrerem daquele jeito. Ele (Moro) tem um fetiche pelo Lula, não é possível, ele é amarrado (no Lula). Por isso que ele não consegue dizer a que veio e nem vai conseguir. Vai começar a ter o debate no Paraná. As pessoas vão conhecer quem é ele. Alguém que não consegue sequer ter uma proposta concreta. Esse debate vai ser bom. Essa eleição vai ser boa exatamente para a gente poder avançar nisso.
BFC: o desencanto com a política
Gleisi: não desistir nunca. Se tivéssemos desistido antes não teríamos chegado até aqui. A luta sempre foi muito dura e muito difícil. Nós já enfrentamos todo o tipo de luta e uma das mais difíceis foi contra a ditadura militar. E nós conseguimos vencer. E não desanimamos. Não dá pra desanimar não. Isso é um momento que nós estamos passando e infelizmente a extrema-direita usou isso. O Bolsonaro fez uma campanha antipolítica quando ele era um político nato. Ele foi quantos anos deputado federal pelo Rio de Janeiro, os filhos vereadores, outro lançou pra Senado, outro para deputado. Como é que você é antipolítico e entra na política? Uma das coisas que eu mais desprezo quando alguém que ganhou uma eleição e diz: “eu não sou político, sou técnico”. Digo: então você não devia ter participado de uma eleição, mas ter feito um concurso público, porque a técnica sem política não diz nada.
A política é que qualifica a técnica. A energia atômica pode ser usada para matar ou pode ser usada para curar. É isso que faz a diferença na orientação política. A política é um instrumento de luta na sociedade. De posições claras e que a gente precisa lutar. Às vezes a gente perde, às vezes ganha.
Mas a gente já avançou muito. Se nós formos olhar o que era esse país há 50, 60 anos, é o que é hoje. A gente avançou muito e se nós formos olhar o que era ele na época do seu descobrimento, a gente já deu um salto. Mas foi com muita luta, foi com muita determinação. Então ninguém pode desistir não. O momento que nós estamos passando pode ser difícil. Eu acho que já vivemos até piores recentemente. A gente vai vencer essa, porque nós temos esse compromisso histórico na vida.
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