Arena lotada, público vibrante, holofote certeiro:
“Luta pela ciência, luta pelo SUS, luta pelo Brasil, luta pelo Rio Grande, luta pela paz, luta pelas crianças, luta pela creche, luta pelo fim de todas as guerras, luta pela soberania nacional, luta pelas mulheres, pelas meninas, pelas pessoas negras, pela juventude, luta”. Esse foi o discurso da Manuela D’Ávila na abertura do lançamento da sua pré-candidatura ao Senado pelo PSOL do RS.
O texto, no entanto, é secundário. Importa a imagem. E a performance. Meus amigos, a performance. Manu surgiu no palco ao som de “Eye of the Tiger”, de Rocky Balboa, usando luvas de boxe e camiseta cintilante. Havia acabado de protagonizar a mais importante cena política do ano no rabugento solo gaúcho. E esse foi apenas um corte da programação próspera em imagens, sons, símbolos e gestos icônicos. Obviamente (1) esse vídeo viralizou. Virou diversão e chacota da direita, que espalhou, criticou, embrabeceu, mas…reproduziu muito. E não vamos mentir, virou para alguns da esquerda motivo de alguma preocupação e- quem sabe- constrangimento. Mas, a repercussão foi imensa, nas redes e nos meios de comunicação. Após a avalanche, a equipe da pré-candidata limitou os comentários na publicação do vídeo.Obviamente (2), a maioria era de crítica, deboche e insulto. Pergunta 1: Será mesmo que a campanha errou? Ou foi uma jogada consciente da candidata que mais demonstra compreensão (e legitimidade no uso) da nova gramática da comunicação política?
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, disse que seria “difícil alguém superar o nível de vergonha alheia desse vídeo neste ano”.
Sim, o sujeito que conscientemente colocou uma peruca loira e foi para a tribuna praticar insultos aos transgêneros. O mesmo rapaz que simulou uma caminhada de sacrifícios, pernoitou em hotel e assistiu os peregrinos encharcados quase morrerem fritos por um raio. Nada disso é cena muito edificante, mas dá engajamento, com a diferença fundamental de que o rapaz utiliza da mentira, da manipulação e do preconceito como matéria-prima permanente para seus desempenhos digitais. Pergunta 2: Será mesmo que oestranhamento do rapaz e da extrema direita se deve ao “mau gosto” da performance ou a uma mal disfarçada preocupação que uma mulher de esquerda saiba lidar muito bem com os instrumentos disponíveis no arsenal digital, com uma superioridade crucial: a escolha pela integridade.
Na principal coluna política do Estado, somos informados que empresários da FIERGS teriam falado, para um adversário dela, sobre o trágico tropeço da candidata. Manuela respondeu que estranho era na semana da discussão do fim da escala 6×1 o tema da conversa entre empresários ser o vídeo dela e a plataforma que constituiu para enfrentar a extrema direita. Pergunta 3: será que a elite econômica fica sinceramente ultrajada com a performance inadequada ou preocupa-se com a possibilidade de alguém com ideias incômodas ser pop suficiente para mobilizar paixões (e direitos) que ela despreza?
A encrenca, para os detratores, é que a Manuela carrega um capital digital inquestionável. Ela habita esse território simbólico há muito tempo e não causamestranhamento algum as ousadias que pratica, os estilos que experimenta ou mesmo as verdades que embala de modo certeiro. O plano dela foi levado à risca: disputa narrativa que transcende o debate racional e se ancora em afetos, identidades e percepções visuais.
Se formos buscar nos exemplos empíricos de campanhas bem-sucedidas e mesmo na mais nova literatura, veremos que o engajamento facilitado pelas redes sociais permite que campanhas políticas inovem na estética, construam comunidades de apoio, promovam debates públicos diferentes e incentivem a participação ativa e divertida dos cidadãos. Obviamente (3) que essa ampliação do alcance também traz desafios e se aplica a figuras que não se constituam no mundo virtual de modo oportunista e artificial. Também exige gerenciamento da credibilidade das informações e estratégia para evitar a propagação de notícias falsas, que podem minar a confiança e a legitimidade das campanhas. Já sabemos que Manuela é alvo, há muito tempo, de toda sorte de agressão, ameaças e mentiras. Até por isso, é extremamente paradigmático que ela se apresente no primeiro grande evento da disputa política no Estado, pronta para o confronto, com as palavras, referências e imagens que ela escolheu.
Os embates no campo digital apontam para a consolidação de elementos cada vez mais sofisticados, com a inteligência artificial desempenhando papel central na redefinição das práticas comunicacionais e na emergência de novos desafios à deliberação democrática. Há um novo modo do dizer e do pensar político. Manuela inaugura isso moldando seu discurso imagético com domínio das novas linguagens, provendo personalização da comunicação, intensificação do engajamento cívico, segmentação precisa de públicos e redefinição de práticas de persuasão. Campanhas digitais bem-sucedidas combinam mobilização, engajamento e uso estratégico de dados, mas sobretudo, nesta época de excesso de informação e escassez de atenção, é preciso regular o holofote e tornar a própria vitrine mais atraente. Obviamente (4) fazer isso acompanhada de conteúdos relevantes, planejamento potencial para ampliar a deliberação e a participação política, reduzir barreiras de acesso às informações, facilitar a expressão de opiniões e permitir a mobilização em torno de questões relevantes.
Tudo isso aconteceu no sábado frio no 4º Distrito de Porto Alegre e segue pulsante na plataforma, no slogan, na ideia e na ousadia que Manuela lançou. Não assistimos a umenfadonho e burocrático encontro que privilegiou lideranças, dirigentes e falas eternas.Isso é particularmente relevante para cidadãos de baixa renda, que podem se beneficiar do acesso facilitado a um ambiente de campanha colaborativo. Tais ambientes digitais podem, de fato, empoderar segmentos tradicionalmente marginalizados, promovendo maior inclusão no debate público.
Voltando à metáfora da luta de boxe, Manu mostrou, com técnica apurada, que sabe se esquivar, sem ficar na defensiva e mantendo a guarda. Ela deixou claro ter um parceiro de corner, alguém que apoia e fortalece durante a batalha. Bom de briga, foi assim que ela apresentou o outro pré-candidato ao Senado na coligação, Paulo Pimenta. Ao que parece, a repercussão toda tem mais a ver com preocupação eleitoral frente a essa dupla, do que com gosto estético de campanha. Pergunta 3: vocês apostariam, lá no resultado das urnas, em um golpe de misericórdia, um Ganche ou no nocaute?
