Um levantamento da Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificou a intensificação de discursos de ódio contra mulheres em grupos extremistas do Telegram justamente no momento em que a Câmara dos Deputados se prepara para analisar o chamado PL da Misoginia.
A pesquisa, revelada em reportagem do Estadão, aponta que comunidades ligadas ao universo “redpill” têm mobilizado milhares de usuários para atacar o projeto e ampliar a circulação de conteúdos que incentivam discriminação, violência e desumanização de mulheres.
Realizado pelo Laboratório de Humanidades Digitais (LABHD), o estudo monitorou, desde janeiro de 2025, os 12 principais grupos públicos e semipúblicos associados à machosfera na plataforma. Ao longo do período, foram coletadas mais de um milhão de mensagens. Desse universo, cerca de 13 mil continham indícios de misoginia ou faziam referência à cultura “redpill”, passando por análise detalhada dos pesquisadores.
Segundo o relatório, os grupos utilizam uma linguagem própria para reforçar o sentimento de pertencimento entre seus integrantes e classificar homens e mulheres em categorias hierarquizadas. Expressões ofensivas, termos depreciativos e referências ao feminismo aparecem de forma recorrente, acompanhados de memes e piadas que, na avaliação dos pesquisadores, servem para mascarar discursos de violência e preconceito como se fossem apenas humor.
O estudo também revela que conteúdos envolvendo apologia à agressão, estupro, feminicídio, racismo e transfobia circulam com frequência nesses ambientes virtuais. Entre as mais de 47 mil imagens analisadas, centenas continham cenas de violência tão explícitas que nem mesmo ferramentas automatizadas de inteligência artificial aceitaram processá-las por envolverem possíveis crimes.
Outro ponto destacado é o funcionamento dos algoritmos das plataformas, que, segundo os pesquisadores, favorecem a formação de redes cada vez mais radicalizadas. Usuários que ingressam nesses grupos acabam sendo direcionados para outras comunidades semelhantes, ampliando o contato com teorias conspiratórias e discursos extremistas.
O levantamento mostra ainda que o YouTube é a principal origem dos links compartilhados nesses grupos, seguido por Telegram, Instagram e X. Os conteúdos incluem entrevistas, vídeos, documentários e publicações de influenciadores ligados à machosfera nacional e internacional.
Enquanto o debate cresce nas redes, o Congresso discute o PL da Misoginia, proposta que pretende equiparar crimes de ódio contra mulheres ao racismo. O texto prevê penas de dois a cinco anos de prisão, além de multa, tornando esse tipo de crime inafiançável e imprescritível.
A proposta enfrenta resistência de parte da oposição, que argumenta haver risco de restrições à liberdade de expressão, enquanto defensores afirmam que a medida busca fortalecer o combate à violência motivada por gênero.
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