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A universidade Remix: o conhecimento como território de resistência

Foto: Marcos Solivan

Toda vez que alguém acende uma fogueira, acende também uma memória. Ninguém inventa o fogo sozinho. Há sempre uma mão anterior, uma técnica herdada, uma história contada, uma experiência que atravessa gerações. O conhecimento é assim: brasa passada de mão em mão. Quando circula, aquece. Quando é cercado, apaga.

A inteligência artificial escancarou essa verdade antiga com uma velocidade nova. Hoje, um texto, uma imagem, um mapa, uma aula ou uma política pública podem nascer do encontro entre milhares de referências, documentos, códigos, dados e experiências acumuladas. A criação nunca foi tão remixada. Mas também nunca esteve tão ameaçada por cercas invisíveis: plataformas fechadas, algoritmos opacos, nuvens privadas, bases de dados proprietárias e empresas que transformam a inteligência coletiva em mercadoria.

É aqui que a disputa começa. O futuro digital não será decidido apenas por quem escreve os melhores prompts, mas por quem controla os dados, os servidores, os cabos, os softwares, as linguagens e as formas de organizar a vida em rede. Um país que entrega sua memória, sua comunicação, sua educação e sua produção científica a plataformas que não controla terceiriza parte da própria imaginação.

Por isso, falar de universidade hoje é falar de soberania. Não basta formar bons profissionais para usar ferramentas estrangeiras. É preciso formar gente capaz de compreender, questionar, adaptar e criar tecnologias. Não basta publicar artigos. É preciso produzir método, dado público, software livre, linguagem simples, formação popular, plataformas abertas, cartilhas, mapas, indicadores e soluções que possam ser apropriadas pelos territórios.

Essa é a universidade remix: uma universidade que reconhece autoria, mas não transforma autoria em cerca; que valoriza o rigor, mas não confunde ciência com isolamento; que entende ensino, pesquisa e extensão como partes de um mesmo gesto. Ensinar é formar capacidade crítica. Pesquisar é produzir inteligência pública. Fazer extensão é abrir uma roda de cultura: não levar respostas prontas ao território, mas construir perguntas comuns, reconhecer saberes locais, testar caminhos na vida real e deixar que o conhecimento volte transformado pela experiência popular.

No Brasil temos uma imensidão de referências, iniciativas protagonistas das capitais ao interior, parte de um projeto que não é abstrato. Somos feitos de chão, gente, método e história. Me orgulha muito fazer parte desde a primeira concepção do Laboratório de Cultura Digital, esta parceria da UFPR com Ministério da Cultura e Sociedade Civil e territórios onde o Coletivo Soylocoporti é inspiração, motor criativo e conector de muitas redes parceiras que juntas mostram como a universidade pode funcionar como ponte viva entre Estado e sociedade. Não como torre de marfim, nem como repartição técnica, mas como laboratório de políticas públicas.

O que se constrói ali não cabe apenas na palavra “produto”. São formações, plataformas, pesquisas, metodologias, cartilhas, portais de transparência, ações de letramento digital, linguagem simples, comunicação popular, cultura livre e software livre. Cada entrega carrega uma tese: conhecimento público deve circular; política pública precisa ser compreendida; tecnologia deve servir à democracia; soberania digital começa quando o povo pode entender, usar e transformar as ferramentas que organizam sua vida.

Mas soberania não se constrói apenas contra as big techs. Ela também se constrói contra a própria máquina pública quando ela fecha dados, esconde orçamentos, compra software proprietário com dinheiro público e trata o cidadão como cliente, não como sujeito de direitos. A universidade remix não serve ao Estado que vigia; serve ao Estado que escuta, que abre, que compartilha. E, quando o Estado fecha, ela incomoda.

A pauta é maior que qualquer laboratório. Estamos falando de um projeto de país. Um país que não aceite ser apenas consumidor da inteligência artificial dos outros. Um país que trate dados como infraestrutura pública, cultura digital como direito, software livre como estratégia, universidades como motores de desenvolvimento e sociedade civil como parceira de criação, não como público-alvo passivo.

A nuvem tem peso. A tecnologia tem território. A linguagem tem poder. E o conhecimento, quando livre, vira força histórica.

A universidade remix é essa aposta: transformar a produção de conhecimento em ato de soberania. Fazer da sala de aula um ponto de cultura. Do laboratório, uma oficina pública. Da pesquisa, uma ferramenta de Estado. Da extensão, uma estrada de mão dupla. Do digital, um território democrático.

O Brasil precisa de universidades que não apenas expliquem o futuro, mas ajudem a construí-lo. Com método, coragem, imaginação e povo dentro.

João Paulo Mehl

Atua em cultura digital, sustentabilidade e fomento cultural. Coordena projetos na UFPR, no Soylocoporti, no Terraço Verde e no Propulsão Cultural.

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