No hall de entrada, uma garota pega meu celular, guarda-o num saco de tecido e o tranca em um armário. Adeus selfie com Denise Fraga. Quem vai acreditar que estive tão perto? Sem fotos, eu escrevo. Escrevo de qualquer jeito. Escrevo com as lembranças de uma noite.
Aceitei ficar perto de pessoas desconhecidas. É uma turma que gosta de conversas longas. Sou apresentada a algumas. Para eles, o mundo ainda tem jeito. Eu acredito. Cheguei ressabiada. Sou a única de fora de São Paulo e do Rio de Janeiro. Deixo o vinho numa mesa já cheia de garrafas. Ao lado, antepastos preparados pela anfitriã. Sento-me atrás de uma mulher. Alguém a chama de Denise.
O sarau
Cinco horas de conversas. Ninguém fotografou, ninguém gravou, ninguém postou. No horário planejado, os anfitriões falam. Depois recebemos um livreto com textos selecionados. São 15 minutos para ler. “A experiência neste planeta nunca é individual” é o da Denise Fraga. Sem pensar, cutuco seu braço.
“A vida em sociedade confirma a minha existência. Somos o que somos a partir do outro”.
Hora de falar sobre algum texto lido, ou outro assunto. A atriz abre a conversa. O corpo todo e seus gestos falam juntos.
“O celular nos distancia. Fugimos dos encontros”.
O microfone é aberto à plateia. Vai passar de mão em mão. Sou a primeira a pegá-lo. Digo que voltei a fazer psicanálise e que o analista me recomendou um filme em que ela é a protagonista. Reconheço-me na história de Livros restantes. Não digo muito, nem quem sou ou o que faço. Sempre penso que não tenho o direito de tomar o tempo dos outros. Carrego o medo de sentir, de mergulhar para dentro.
Um homem negro lembrou que, numa plateia com cerca de 50 pessoas, havia entre nós apenas dois. Confessou que a sua invisibilidade não começou com o celular. Sempre foi assim. Conseguiu chegar à universidade e até à pós-graduação no exterior. É uma exceção. Os indígenas ainda conseguem olhar o que nós já não vemos. Eles não entram no mercado de Porto Alegre enquanto veem duas crianças negras sentadas no chão, comendo na sujeira frutas já meio passadas. São as telas, a cor, a ideia que temos de nós, a falta de empatia.
Denise Fraga anda obcecada em lembrar de partes das pessoas que talvez elas nem se lembrem. Quando vê um casal que convive há muito tempo quer perguntar:
“O que você sabe dela que você acha que ela não sabe?”
“Contar a história de alguém para a própria pessoa pode ser um ritual poderoso”, escreve Denise.
Onde termina o “eu” e começa o “outro”? Sei. Carrego em mim histórias alheias, fantasmas que não são meus. A emoção de ver o que me formou a partir do outro.
Dias depois, entro na exposição da Es Devlin, Sou o outro do outro. Caminho entre as instalações. A mostra começa em uma biblioteca pintada na parede. Um texto é projetado e narrado quando as portas se fecham.
“Sou todos os escritores que li, todas as pessoas que amei. Sou todos os lugares que visitei. Somos moldados pelas histórias que contamos e pelas que esquecemos”.
Um dia vou fazer teatro.
O sarau On, live foi pensado por Gigi Vilela (do Eureka) e Lourenço Bustani e Victor Cremasco (da consultoria Mandalah).
@onlive_br @gigivilela @mandalahsp @vccremasco @denisefragaoficial @nojanela

