Aurélio Michiles é um artesão de extrema habilidade. A cada filme, a simbiose entre afeto e estética se apura. Ganhamos todos. Agora, com Honestino.

Seu filme anterior, Segredos do Putumayo (2022), é uma obra-prima que ainda ganhará o devido lugar na panteão do documentário mundial. Espero que o reconhecimento seja breve e o filme relançado nos cinemas, afinal seguimos o embate diário contra a desumanização entre nós, humanos. A história de Putumayo representa a desumanização pelo espúrio interesse do capital colonial, contada com primazia visual sem perder sua essência documental histórica.
Mas, e Honestino? Vamos a ele.
Honestino impõe a Aurélio o desafio de recuperar a história de vida de um jovem barbaramente executado pela máquina de repressão da ditadura militar. E mais, Honestino foi amigo de Aurélio, que em tenra juventude deixou sua Manaus para estudar na capital recém inaugurada.
A Universidade de Brasília, implementada sob a concepção institucional e educacional de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, tinha o objetivo de fazer pontes entre áreas distintas do saber e formar profissionais com espírito transformador com capacidade de criar novas perspectivas econômicas e sociais para o país onde um dos propósitos era a diminuição da extrema pobreza social do país.
Imaginem aquele planalto vermelho em meio a um cerrado aberto, de céu azul gigante, ouvindo Travessia de Milton Nascimento depois de uma palestra do Darcy Ribeiro? Sonhos.
E Aurélio estava lá, entre jovens estudantes, acompanhando a força e altivez daquele líder estudantil com alguns anos a mais. Mas a repressão pós AI-5 sentenciou Honestino a sair de Brasília para uma vida, senão totalmente clandestina, mas de muita restrição, no Rio de Janeiro, impactando suas relações familiares.
O filme é construído com alguns dispositivos, entre os quais as entrevistas e materiais de arquivo. No entanto, o destaque é o ator Bruno Gagliasso dando vida a Honestino. Ficcionalizações com atores são sempre um ponto de inflexão no fazer documental pelos riscos que infligem na narrativa. Pode soar didático, melodramático, falso, além da eterna comparação novelística. Afinal, se ficcionalizar, então por que não fazer logo uma ficção? E por aí vai as discussões. Mas Aurélio é sábio. Ele cria situações emocionais, imagens sínteses que perpassam medo, angústia, solidão. Potencializa o drama da vida. Não há textos a decorar, discursos ao espectador; propaganda. Há imagens-drama. E a articulação entre os elementos gera um filme potente, que recupera histórias de vida, valores éticos e reencontros.
Após a sessão, soubemos de laços de amizade reconstituídos pelo filme. Há um ditado sobre “o que é a verdade” que diz: existe a minha verdade, a sua verdade e um terceiro lugar, onde mora a verdade. Honestino, o filme, está na terceira margem.

