Ney Matogrosso completou 85 anos no sábado (1), consagrado como um dos intérpretes mais inventivos da música brasileira. Em mais de cinco décadas de carreira, o artista transformou canto, dança, figurino e iluminação em ferramentas para enfrentar convenções sociais, ampliar os limites da performance e renovar obras de diferentes gerações de compositores.
A longevidade artística impressiona tanto pela extensão da discografia quanto pela disposição de permanecer em movimento. Dos Secos & Molhados aos espetáculos recentes, Ney atravessou mudanças políticas, comportamentais e musicais sem se acomodar na imagem que o tornou conhecido durante os anos 1970.
Sua obra reúne MPB, rock, samba, forró, bolero, música latino-americana e experiências próximas do repertório erudito. Canções de Chico Buarque, Rita Lee, Cartola, Tom Jobim, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cazuza, Itamar Assumpção e Vinicius de Moraes ganharam novas leituras por meio de uma voz que a Rolling Stone Brasil colocou, em 2012, na terceira posição entre as maiores do país, atrás apenas de Elis Regina e Tim Maia.
Antes da fama, Ney passou por caminhos improváveis

Registrado como Ney de Souza Pereira, o cantor nasceu em Bela Vista, no atual estado do Mato Grosso do Sul, mas que, na época de seu nascimento, ainda era conhecido apenas como Mato Grosso. Após o desmembramento do estado, a região que deu sua origem foi renomeada.
Ney passou parte da infância mudando de endereço em razão da profissão do pai, o militar Antônio Mattogrosso Pereira. Aos 18 anos, ingressou na Aeronáutica e viveu por algum tempo sob a disciplina de uma instituição muito distante da liberdade que posteriormente representaria nos palcos.
Em Brasília, trabalhou em um laboratório de anatomia patológica, exerceu atividades ligadas à enfermagem e começou a se aproximar do teatro e dos festivais universitários. Também participou de experiências vocais, embora ainda não considerasse seriamente a possibilidade de viver como cantor.
Ney contou, em entrevista concedida em 2019, que sentia vergonha da própria voz. A percepção começou a mudar em 1961, quando entrou em um coral com amigos e recebeu do maestro uma avaliação positiva sobre seu canto. A mudança para o Rio de Janeiro, em 1966, abriu uma nova etapa. Enquanto buscava oportunidades artísticas, produzia objetos de artesanato, confeccionava roupas e figurinos e se aproximava do ambiente cultural ligado à contracultura e ao movimento hippie.
O nome Matogrosso foi adotado no início da década seguinte, recuperando uma referência presente na família paterna e reforçando o vínculo com a região de nascimento. Conforme relatou no livro de memórias “Vira-Lata de Raça”, a escolha também representou uma forma de incorporar simbolicamente o sobrenome que não havia recebido no registro.
A entrada nos Secos & Molhados ocorreu por intermédio de Luhli, cantora e compositora que o apresentou a João Ricardo e Gérson Conrad. O grupo procurava uma voz masculina aguda, mas encontrou também um artista com repertório visual, experiência teatral e capacidade de transformar cada música em uma interpretação forte e concisa.
Ney já tinha 32 anos quando o primeiro disco dos Secos & Molhados chegou às lojas, em 1973. O sucesso foi imediato, ultrapassou a marca de um milhão de cópias e levou músicas como “Sangue Latino”, “O Vira”, “Rosa de Hiroshima” e “Primavera nos Dentes” a um público muito mais amplo, transformando-se em alguns dos maiores hits da história da música brasileira.
O corpo como instrumento político

A aparência dos Secos & Molhados não funcionava apenas como embalagem para as canções. Inspirado pelas artes plásticas, pela dança e pelo teatro, Ney participou diretamente da criação das pinturas faciais, das roupas e da movimentação que aproximaram o grupo do glam rock, sem simplesmente reproduzir a estética internacional popularizada por nomes como David Bowie.
Em um Brasil submetido à ditadura militar, sua presença desafiava modelos rígidos de masculinidade e comportamento. O corpo magro, os movimentos sensuais, a voz aguda e os figurinos andróginos compunham uma linguagem artística que provocava o conservadorismo mesmo quando as letras não faziam ataques políticos explícitos.
A vigilância continuou depois da saída dos Secos & Molhados. Espetáculos como o de “Bandido”, lançado em 1976, despertaram a atenção dos órgãos de repressão, e o cantor enfrentou ameaças, perseguição e restrições ao longo daquele período.
Em 1978, o LP de “Feitiço”, no qual aparecia nu em uma foto na parte interna, foi considerado ofensivo pela censura. O álbum passou a ser comercializado dentro de uma embalagem plástica preta, medida que ampliou a curiosidade do público e ajudou a impulsionar as vendas.
A provocação, porém, nunca esteve separada do domínio técnico. Ney passou a acompanhar de perto a iluminação, os cenários, os figurinos e a direção musical dos próprios espetáculos, além de colaborar na concepção de shows de Cazuza, Simone e Ana Cañas.
Sua estreia no primeiro Rock in Rio, em janeiro de 1985, também demonstrou sua força diante de ambientes hostis. Primeiro artista a ocupar o palco na história do festival, ele enfrentou vaias e objetos lançados por uma parcela dos fãs de heavy metal, mas sustentou a apresentação diante da multidão.
A relação com a natureza tornou-se outra frente de atuação fora dos holofotes. No estado do Rio de Janeiro, o cantor mantém uma área dedicada à conservação ambiental e à proteção dos micos-leões-dourados, espécie ameaçada de extinção.
Dez álbuns essenciais para compreender a obra de Ney
Secos & Molhados (1973)

A estreia do grupo reuniu rock, poesia, ritmos populares, psicodelia, teatralidade e crítica social em uma combinação inédita no país. “Sangue Latino”, “O Vira” e “Rosa de Hiroshima” tornaram-se verdadeiros hinos da música brasileira, mostrando como a interpretação de Ney transformava cada faixa em um acontecimento.
Água do Céu – Pássaro (1975)

No primeiro trabalho solo, o cantor evitou repetir a fórmula que havia garantido o êxito dos Secos & Molhados. Sons de pássaros e outros elementos da natureza conectam um repertório experimental, marcado por sensualidade, tensão política e contribuições de Aldir Blanc, João Bosco, Sueli Costa, Milton Nascimento e Astor Piazzolla.
Bandido (1976)

O disco aproximou Ney de uma comunicação mais direta, dançante e popular, sem abandonar a transgressão. Ritmos latinos e brasileiros sustentam o personagem do fora da lei sedutor, especialmente em “Bandido Corazón”, de Rita Lee, e na leitura crítica de “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque e Augusto Boal.
Feitiço (1978)

Mais romântico e assumidamente sensual, o álbum equilibrou bolero, música brasileira e influência da disco music. “Bandolero”, “Mal Necessário”, “Angra” e “Não Existe Pecado ao Sul do Equador” revelam um intérprete seguro, capaz de alternar canções íntimas e políticas na mesma proporção, e sem perder a identidade.
Ney Matogrosso (1981)

Produzido por Marco Mazzola, com arranjos de César Camargo Mariano e Lincoln Olivetti, o trabalho consolidou uma fase de grande alcance comercial. Ney hesitou antes de gravar “Homem com H”, de Antônio Barros, mas mudou de ideia após o incentivo de Gonzaguinha e transformou o forró em um dos maiores sucessos de sua trajetória.
Matogrosso (1982)

O álbum encontrou equilíbrio entre sofisticação instrumental e diálogo com o grande público, entregando grandes marcos de sua trajetória como “Tanto Amar”, “Por Debaixo dos Panos”, “Promessas Demais” e “Aquela Fera”.
…Pois É (1983)

Criado quando o cantor comemorava dez anos de projeção nacional, o disco registra uma tentativa de aproximar sua música das tendências tecnológicas e comerciais da época. Apesar dos resultados irregulares, reúne “Coração Civil”, “Cobra Manaus” e a decisiva gravação de “Pro Dia Nascer Feliz”, que ajudou a impulsionar o reconhecimento do Barão Vermelho e, principalmente, de Cazuza.
Pescador de Pérolas (1987)

Ney retirou a maquiagem, vestiu terno e direcionou os refletores para a interpretação, em um dos maiores discos ao vivo da MPB. Ao lado de Arthur Moreira Lima, Paulo Moura, Rafael Rabello e Chacal, percorreu canções brasileiras, latino-americanas e peças líricas com arranjos acústicos e uma contenção que contrariava a imagem exuberante associada a ele.
Olhos de Farol (1998)

O projeto aproximou o intérprete de autores então ligados a novas cenas da música brasileira, entre eles Pedro Luís, Lenine, Paulinho Moska e Samuel Rosa. “Poema”, criada por Cazuza ainda jovem, tornou-se o grande destaque de um repertório que combina inquietações pessoais e uma observação crítica do Brasil daquele final de século.
Beijo Bandido (2009)

Com direção musical de Leandro Braga, o disco colocou a voz no centro de arranjos camerísticos construídos com piano, cordas e percussão. O repertório aproxima Vinicius de Moraes, Vitor Ramil, Roberto e Erasmo Carlos, Chico Buarque, Cazuza e Herbert Vianna em um trabalho de atmosfera íntima e sedutora.
Cazuza, cinema e uma influência renovada

Ney conheceu Cazuza em 1979, antes de o Barão Vermelho alcançar projeção nacional, e os dois mantiveram um relacionamento por cerca de três meses. Em depoimento ao documentário “Cazuza – Além da Música”, o cantor abordou o vínculo afetivo, o término e a amizade preservada até a morte do compositor, em 1990.
A gravação de “Pro Dia Nascer Feliz” por Ney, em 1983, teve papel importante na divulgação da obra de Cazuza e Frejat. O Barão Vermelho pretendia trabalhar a música com sua própria formação, mas a versão lançada em “…Pois É” chegou antes ao grande público e ajudou a ampliar o interesse pela banda.
A proximidade continuou durante os anos seguintes, e Ney produziu a última turnê de Cazuza, “O Tempo Não Para”, realizada em 1988. Também gravou “Poema”, texto escrito pelo compositor para a avó paterna, transformando a canção em um dos momentos mais conhecidos de “Olhos de Farol”.
O cinema apresentou essa trajetória a uma nova geração em 2025, com “Homem com H”, dirigido por Esmir Filho e protagonizado por Jesuíta Barbosa. O filme retomou episódios da vida pessoal, os conflitos familiares, a experiência militar, a ascensão com os Secos & Molhados e os enfrentamentos com a censura.
A permanência de Ney também pode ser medida pela circulação de seu repertório. Em levantamento do Ecad sobre execuções públicas nos cinco últimos anos, aparecem entre as músicas mais tocadas “Sangue Latino”, “Poema”, “Balada do Louco”, “Tanto Amar”, “Rosa de Hiroshima”, “Homem com H”, “Flores Astrais”, “Promessas Demais”, “O Vira” e “Não Existe Pecado ao Sul do Equador”.
Ao completar 85 anos, Ney Matogrosso não ocupa apenas o lugar reservado às grandes vozes da MPB. Sua importância está igualmente na coragem de tornar visíveis outras maneiras de cantar, vestir, desejar e permanecer livre, fazendo do palco um território que o autoritarismo jamais conseguiu domesticar.
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