Veneno nos rios: mercúrio ameaça quase mil comunidades na Amazônia
Ao menos 951 comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia estão contaminadas por mercúrio ou vivem sob risco de exposição no Brasil, na Bolívia e no Peru. O levantamento da Mongabay Latam, publicado em agosto, reuniu dados científicos coletados entre 1997 e 2024 ao longo de 2.763 quilômetros dos rios Madeira, Beni e Madre de Dios.
A investigação revisou 39 estudos, com 7.725 amostras de pessoas e 5.939 análises de tecidos de peixes. Entre as 249 comunidades avaliadas, 220 apresentaram concentrações superiores aos parâmetros de segurança da Organização Mundial da Saúde, enquanto outras 702 permanecem sem diagnóstico apesar da proximidade com áreas atingidas.
A situação mais grave foi registrada no rio Madeira, em território brasileiro, onde moradores apresentaram até 150 microgramas de mercúrio por grama de cabelo, índice 75 vezes maior que o limite adotado pela OMS. Claudia Vega, coordenadora do Programa de Mercúrio do Cincia, explicou que a exposição pode provocar perda de memória, dores de cabeça e danos aos sistemas nervoso e cardiovascular.
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O metal utilizado para separar o ouro dos sedimentos chega aos rios principalmente por meio do garimpo ilegal. Depois, transforma-se em metilmercúrio, acumula-se nos peixes e alcança comunidades cuja alimentação depende da pesca, como relatado por Dora Quispe, na Bolívia, e Raimundo Nonato dos Santos e Maria Rogelina Soares da Silva, no Amazonas.
Gestantes e crianças aparecem entre os grupos mais vulneráveis, pois a substância pode atravessar a placenta e ser transmitida pela amamentação. Adriano Karipuna, liderança indígena de Rondônia, associou o avanço do problema ao aumento de doenças cardíacas, dificuldades respiratórias e deficiências motoras entre moradores mais jovens.
Especialistas como Mariano Castro, William Pan e Eduardo Bessa alertam para danos neurológicos irreversíveis e impactos entre gerações. Apesar disso, a apuração aponta falta de monitoramento, assistência especializada e políticas integradas, enquanto o garimpo continua espalhando contaminação por rios conectados entre os três países.
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