Maria Bethânia chega aos 80 anos como voz soberana da música brasileira
Maria Bethânia completou 80 anos na quinta-feira (18), consagrada como uma das artistas mais importantes da cultura brasileira. Nascida em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, a cantora atravessou mais de seis décadas de carreira sem se curvar a modismos, construindo uma obra marcada pela força da palavra, pela espiritualidade, pela dramaturgia e por uma interpretação que transformou canções em acontecimentos.
A artista, que ganhou projeção nacional em 1965 ao substituir Nara Leão no espetáculo “Opinião”, no Rio de Janeiro, tornou-se símbolo de uma geração que mudou a música popular brasileira. Desde então, Bethânia gravou o que quis, cantou autores de diferentes estilos e levou ao palco uma linguagem própria, misturando música, poesia, teatro e devoção, em uma caminhada única dentro da cultura brasileira.
Do Recôncavo para o Brasil

A trajetória de Maria Bethânia começa em Santo Amaro, cidade baiana cercada por festas populares, procissões, sambas de roda, terreiros e tradições orais. Filha de Dona Canô e José Teles Veloso, ela cresceu em uma casa onde música, literatura e religiosidade faziam parte da rotina.
Em 1964, já em Salvador, participou do espetáculo “Nós, por exemplo”, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e Gal Costa, na inauguração do Teatro Vila Velha. A apresentação marcou o início de uma geração que logo ganharia o país.
No ano seguinte, aos 19 anos, Bethânia chegou ao Rio de Janeiro para integrar o elenco de “Opinião”. Sua interpretação de “Carcará”, de João do Vale e José Cândido, causou impacto imediato. A voz grave, a presença cênica e a intensidade dramática fizeram daquela jovem baiana uma revelação nacional.
Apesar do sucesso, Bethânia logo recusou a ideia de ser reduzida à imagem de cantora de protesto. Evitou por anos a música que a projetou e ampliou o repertório com sambas-canção, poemas, canções de amor, temas religiosos e composições populares.
A intérprete que escolheu o próprio caminho

Ao longo da carreira, Bethânia construiu uma discografia extensa e incomum. Gravou Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Djavan, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata, Chico César, Dorival Caymmi, Dona Ivone Lara, Raul Seixas, Tim Bernardes e tantos outros.
Seu primeiro disco, lançado em 1965, já trazia “De manhã”, primeira composição de Caetano gravada por ela, além de “Carcará”. Nos anos seguintes, consolidou uma relação profunda com Chico Buarque, de quem interpretou obras como “Olhos nos olhos”, “Cotidiano”, “Carolina” e “Rosa dos ventos”.
Em 1978, com “Álibi”, Bethânia alcançou um marco histórico: o álbum tornou-se o primeiro de uma cantora brasileira a ultrapassar 1 milhão de cópias vendidas. O disco reuniu sucessos como “Sonho meu”, “Explode coração” e “Álibi”, sem que a artista abrisse mão de sua exigência estética.
Nos anos 1990, voltou a surpreender ao dedicar um álbum inteiro às composições de Roberto e Erasmo Carlos. “As canções que você fez pra mim”, lançado em 1993, aproximou ainda mais o repertório da dupla de sua trajetória e mostrou a capacidade da intérprete de transformar canções populares em peças de forte carga emocional. O resultado? Seu trabalho mais vendido, com 1,5 milhão de cópias.
Maria Bethânia, 80 anos: palco, poesia e devoção

Mais do que cantora, Maria Bethânia se tornou uma criadora de espetáculos. Em seus shows, a palavra falada tem o mesmo peso da palavra cantada. Textos de Fernando Pessoa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, Adélia Prado e outros autores ganharam projeção popular por meio de sua voz.
A literatura sempre ocupou papel central em sua obra. Bethânia aproximou o grande público da poesia sem transformar isso em gesto didático. Em sua interpretação, o poema surge como parte natural da cena, unido à música, ao silêncio, ao gesto e à luz. Porém, a espiritualidade também atravessa toda a sua produção.
Criada no catolicismo popular de Dona Canô e ligada ao candomblé, Bethânia incorporou santos, orixás, rezas, louvações e cantigas tradicionais ao próprio universo artístico. Iansã, Oxum, Iemanjá e outras referências religiosas aparecem em sua obra como parte essencial de sua construção artística.
Discos como “Brasileirinho”, “Mar de Sophia”, “Meus quintais” e “Noturno” reafirmam essa ligação com as raízes brasileiras, a poesia e a ancestralidade. Em cada fase, Bethânia manteve a mesma postura: escolher o repertório com rigor e defender sua liberdade artística.
Uma artista que atravessa gerações

Aos 80 anos, Maria Bethânia segue em atividade e continua mobilizando plateias de diferentes idades. Nos últimos anos, dividiu os palcos com Caetano Veloso em uma turnê de grande repercussão, celebrou seis décadas de carreira e voltou a mostrar que sua presença cênica permanece rara.
Sua imagem se tornou parte da memória cultural do Brasil: pés descalços, cabelos soltos, gestos largos, olhar firme e uma voz capaz de passar da delicadeza à explosão em poucos segundos. Essa combinação fez dela uma artista imediatamente reconhecível.
Bethânia também foi homenageada pela Mangueira no carnaval carioca, com o enredo “A menina dos olhos de Oyá”, que ajudou a escola a conquistar o título. A reverência confirmou aquilo que sua obra já indicava: a cantora ultrapassou o campo da música e se tornou personagem central da cultura brasileira.
Em uma indústria cada vez mais acelerada, Maria Bethânia permanece como um símbolo de escuta, ajudando a fortalecer a memória e a permanência do que há de melhor na nossa cultura. Sua carreira mostra que popularidade e profundidade podem, sim, caminhar juntas, proporcionando as melhores formas de criação para as suas interpretações.
O Brasil cantado por Bethânia é múltiplo: tem o Recôncavo e as grandes cidades, o terreiro e a igreja, o samba e o rock, o sertão e o mar, o amor e a política, a dor íntima e a celebração coletiva. Por isso, sua obra continua viva. Aos 80 anos, Maria Bethânia não precisa caber em rótulos. Ela mesma se tornou um gênero, uma linguagem e uma forma de entender o país.
BookmarkContinue lendo
Como “Nó na Orelha” mudou a carreira de Criolo e ampliou o alcance do rap
Lançado em 2011, Nó na Orelha levou Criolo a um público que ainda desconhecia sua trajetória ao combinar rap, samba, bolero, reggae e soul em um...
Chefe jurídico de Flávio atuou com irmã e amigo de Nunes Marques
O advogado que coordena a área jurídica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) possui histórico de atuação em processos ao lado da irmã do ministro...
TSE manda Nikolas remover vídeo que deturpa fala de Lula sobre exames preventivos
A ministra do Tribunal Superior Eleitoral, Estela Aranha, deu 24 horas para que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) remova de seu perfil no X (antigo...
Espetáculo inspirado em Hilda Hilst escancara pressões contra mulheres
O espetáculo “(IN) FLUXO” estreia em 1º de outubro no Miniauditório Glauco Flores de Sá Brito, no Teatro Guaíra, em Curitiba, com sessões gratuitas até o...
Lavagem de dinheiro: PF abre nova investigação sobre amigo de Flávio Bolsonaro que “apostou” R$ 5 bi em bets
A Polícia Federal abriu investigação para apurar o crime de lavagem de dinheiro por parte do advogado Willer Tomaz, amigo próximo e parceiro de viagens do...
Você viu todas as matérias.
Não foi possível carregar. Toque para tentar de novo.






1 Comentário