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“A pena de morte é aplicada no chão da favela todos os dias”, diz Renata Souza

Nascida e crescida no Complexo da Maré, conjunto de favelas mais populoso do Rio de Janeiro (RJ), Renata Souza conheceu a violência policial nas comunidades periféricas cariocas de perto. No dia das eleições de 2006, seu sobrinho, Renan, de apenas 3 anos de idade, foi vítima de uma bala perdida desferida pelo fuzil de um policial.

A tragédia pessoal serviu de gatilho que a fez despertar para o ativismo político, até por uma questão de sobrevivência.

“Defender os direitos humanos é uma questão existencial para mim e para os meus”, explica.

Renata conheceu Marielle Franco no cursinho pré-vestibular comunitário da favela. As duas entraram em seguida na Pontífice Universidade Católica (PUC) – reduto da elite carioca – e lá experimentaram a discriminação por serem mulheres, negras e moradoras de comunidade.

Em 2016, quando Marielle foi eleita vereadora após assessorar o deputado Marcelo Freixo, convidou Renata para ser sua chefe de gabinete, cargo em que ela permaneceu até o assassinato da amiga em 14 de março de 2018. Mesmo em meio à dor do luto e o medo, Renata assumiu a tarefa de continuar a missão de Marielle, candidatando-se e elegendo-se vereadora naquele mesmo ano.

As perseguições continuaram, primeiro do então governador Wilson Witzel, depois cassado em abril de 2021 por corrupção. E também do deputado Rodrigo Amorin (PL) – que ficou conhecido por quebrar uma placa em homenagem à Marielle. Ambos tentaram cassar o mandato de Renata. Nada que a fizesse recuar.

Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, a deputada estadual fluminense conta um pouco dessa história cheia de dificuldades e resiliência e afirma como a eleição no Rio de Janeiro – berço político do bolsonarismo – será importante para reafirmar os valores democráticos e a defesa dos direitos humanos em um cenário onde a violência é um fato cotidiano.

BFC: infância humilde e feliz

Renata Souza: a minha infância na Maré foi muito feliz, muito assertiva daquilo que era também a possibilidade de reconhecer uma infância feliz. Eu cresci com os meus irmãos, com os meus primos. Cresci na rua brincando de bicicleta, jogando bola, soltando pipa. Foi uma infância em que a gente sentiu o que era estar na rua e o que era se sentir seguro. Mas também uma infância muito difícil, com muitas limitações no que tange o acesso às coisas. Era isso: era uma bicicleta dividida para todo mundo, era uma boneca dividida para todo mundo.

E, claro, a questão não era a divisão em si, mas era ver que a desigualdade já batia ali de uma maneira muito forte. Seja na hora do café da manhã, que não tinha pão para todo mundo; seja na hora do almoço, que dificilmente tinha um ovo para comer com arroz e feijão — mas arroz e feijão nunca faltou.

Eu sempre vi meus pais lutando muito, trabalhando muito para garantir dignidade para a gente, seja na nossa alimentação, mas seja também no nosso crescimento. Numa rua que não tinha asfalto, que também não tinha saneamento básico, eu bebi água contaminada da bica da minha casa e tive hepatite. Situações muito limites que geram para uma vida dentro da favela uma vida de muito descaso com relação à dignidade humana de todos que vivem lá. Mas foi uma infância feliz.

BFC: violência e ativismo

Renata Souza: o ativismo político, na verdade, chegou até a mim, não fui eu que fui procurar, porque isso tem muito a ver com a decisão de ser uma defensora de direitos humanos. Eu não acordei um dia e falei: “Vou lutar pela vida das pessoas”, não. Isso bateu à minha porta muito cedo, quando a gente viu os nossos amigos sendo assassinados a cada operação policial.

De fato, 2006 foi um ponto limite para mim. O Renan (sobrinho da deputada assassinado pela polícia em 2006) tinha três anos e eu ouvi o tiro que matou o Renan. Foi um tiro de fuzil de um policial na barriga de uma criança de três anos. Isso marcou a minha vida de maneira muito concreta, e foi no dia das eleições de 2006. Eu encarei aquilo dali também como a grande farsa que representa um processo eleitoral que não vê a dignidade humana das favelas como algo central.

Nesse sentido, foi quando teve também esse despertar, e mesmo achando que essa democracia estava incompleta — afinal de contas, foi uma criança de três anos que foi assassinada no dia das eleições em 2006 —, ao mesmo tempo a gente estava ali discutindo direitos humanos, querendo e brigando pela eleição do (deputado federal) Marcelo Freixo (PSOL), que à época era a figura que despertava esse debate com relação aos direitos humanos. Entendemos que tínhamos que ir para a linha de frente da luta política, dentro desses palácios que historicamente não foram feitos para nós, pessoas negras de favelas e periferias, nós mulheres. Defender os direitos humanos é uma questão existencial para mim e para os meus.

BFC: educação e preconceito

Renata Souza: eu fui a primeira da família do meu pai, da minha mãe a ingressar na educação superior. Algo que a gente não imaginava que pudesse ser possível, mas a partir do pré-vestibular comunitário dentro da favela, foi onde eu passei a lidar cotidianamente com a Marielle Franco, que fazia o pré-vestibular. Depois a gente entrou para a PUC. Que aqui no Rio de Janeiro é a universidade da elite carioca. Ali eu já vi também a desigualdade batendo de maneira muito concreta na nossa porta. Nossos amigos iam para férias na Europa e a gente estava ali tentando juntar o dinheirinho para conseguir comprar o almoço, para conseguir garantir a xerox para ter as aulas de maneira concreta com os textos que os professores passavam. Essa desigualdade social levou, evidentemente, a uma desigualdade no acesso ao ensino público e de qualidade.

Ainda que tivéssemos 100% de bolsa, eu e Marielle, na PUC, pesou demais a desigualdade ali. Desde a desigualdade de classe — obviamente estou falando de uma jovem negra da favela —, mas a desigualdade racial também, porque eu era a única negra da turma. Chegar ao ensino superior também fez parte dessa construção do ser político em que me transformei. De entender que a universidade era um caminho importante, possível, mas não se esgotava ali. Que a luta no território, na favela, sempre foi a luta que mais me constituiu pela nossa dignidade. Eu estou falando da minha vida, mas não é só a minha vida. É a vida de tantas pessoas que vivem em condições sub-humanas dentro desses territórios.

A nossa história começa no Pré-vestibular Comunitário da Maré. A gente viveu 20 anos juntas, quase cotidianamente, seja nos movimentos dentro da própria favela, em que a gente fazia a discussão sobre questão de gênero sem utilizar a palavra “de gênero”. A gente estava ali discutindo sobre a vida das nossas mulheres, mas as questões relacionadas aos direitos humanos em si. Acaba que depois dessa situação que eu já relatei do assassinato do meu sobrinho de três anos, a gente foi para a linha de frente da política, nesse caminho de assessoramento do Freixo. Entramos na assessoria do Freixo a convite dele e dali a gente começou a tabular também o que seria o papel da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos na ALERJ.

Marielle coordenou essa comissão, e eu trabalhava basicamente com a questão da humanização dessas pessoas atendidas por essa mesma comissão. Eram mães, familiares destroçados pela bala de fuzil do próprio Estado. Chegar ali naquela comissão também foi uma experiência importante para que eu pudesse compreender essas pessoas na sua humanidade, quem eram aquelas mulheres que perdiam seus filhos. Esse é um debate importante da gente fazer, porque elas não perderam só seus filhos, muitas vezes elas já tinham perdido seus pais nessa mesma lógica de violência do Estado dentro da favela.

Chegamos a partir desse lugar também da compreensão que a política precisaria ter mulheres negras. Foi uma situação bem interessante porque em 2015 (ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara) Eduardo Cunha queria criminalizar o aborto até previsto em lei, em casos de estupro, feto anencéfalo e risco para a mãe, e teve um levante feminista em todo o Brasil. Nós entramos nesse levante e definimos candidaturas de mulheres, de mulheres negras.

Aqui no Rio a gente definiu a candidatura da Marielle Franco e a ela me convidou para coordenar a sua campanha. Coordenei a sua campanha tanto na área da comunicação quanto na área política em si, e depois ela me convidou para ser chefe de gabinete dela. Fui chefe de gabinete da Marielle até o seu assassinato, que eu considero um feminicídio político. É importante dar nome ao que aconteceu com Marielle Franco, mas com tantas outras mulheres na linha de frente da política.

O impacto foi de muita incerteza sobre esse papel e esse lugar, e assumir esse papel nesse lugar da política. As pessoas que construíram o mandato da Marielle junto comigo falaram: ‘Renata, você tem que vir agora, porque a gente precisa dar uma resposta para as pessoas que tentaram silenciar a Marielle, mas também para a luta política que precisa seguir com os temas que a Marielle pautou’. Eu considero que não foi uma decisão racional. Afinal de contas, chegar numa linha de frente onde a minha amiga foi assassinada — isso é importante ser dito — era uma dor, é uma dor gigante ainda hoje.

Eu não consigo falar da Marielle no passado, porque essa ausência dela é muito presente na nossa luta e na nossa construção. Foi uma decisão coletivizada com os movimentos sociais, em especial o movimento de direitos humanos, de favelas, de mulheres, negro. Esses movimentos me deram força para chegar nessa candidatura e ser eleita nessa época como a mulher do campo da esquerda mais votada e depois, em 2022, fui eleita a mulher mais votada da história do estado do Rio de Janeiro. É uma trajetória que vem da dor, mas transformando essa dor em luta e concretude para o nosso povo também. É muito difícil falar no passado da Marielle. Eu não consigo. É muito louco isso.

BFC: o papel da mídia

Renata Souza: o papel da mídia tem sido de desserviço. A gente viu, por exemplo, diante do assassinato de 122 pessoas no Complexo da Penha e do Alemão, aquilo ser chamado de megaoperação e não de chacina. A maior chacina da história desse país não foi nomeada pelos meios de comunicação como chacina. Isso é um desserviço. Afinal de contas, o Estado precisa prover segurança, mas não sendo tão cruel quanto aqueles que busca enfrentar.

Nesse sentido, acho que furar a bolha dessa lógica, desses meios de comunicação que se utilizam dessas tragédias só para ganhar mais cliques, para ganhar visibilidade e não para fazer o debate que a gente precisa fazer sobre o Estado Democrático de Direito e o direito das pessoas. Segurança precisa ser a segurança dos direitos e não o contrário disso, fazendo com que a pena de morte seja aplicada no chão da favela e da periferia todos os dias.

Acho que o papel dos meios de comunicação deveria ser questionar esse lugar desse suposto Estado punitivista que acha que tem que punir no chão da favela e da periferia com um tiro na cabeça. Os meios de comunicação precisam trabalhar sob uma outra ótica, que é exatamente essa, de garantir a segurança dos direitos e não o contrário.

BFC: violência política de gênero

Renata Souza: a primeira dificuldade enfrentada quando eu fui eleita em 2018 foi exatamente como me manter viva depois do assassinato de Marielle, que foi uma parceira gigante e foi morta nessa lógica de podres poderes que dominam hoje o Rio de Janeiro. A primeira situação que eu combinei com a coordenação do mandato foi ter segurança e carro blindado. Isso foi determinante para eu me sentir minimamente segura para assumir esse lugar tão importante na luta política do Rio de Janeiro. Mas os desafios se perpetuaram.

Num primeiro momento eu já tive (o ex-governador do RJ) Wilson Witzel — lembra aquele que dizia que era para mirar e atirar na cabecinha? Ele foi o primeiro que pediu a cassação quando eu tinha três meses de mandato, porque eu denunciei ele para a ONU e para a OEA por genocídio da juventude negra ao utilizar o helicóptero como plataforma de tiros nas operações policiais. Isso fez com que o ex-juiz, ex-governador, que tinha naquele momento cinco deputados presos na ALERJ, mirasse em mim para pedir uma cassação. Mas a gente deu a volta por cima. Na verdade, fomos nós que cassamos ele, que superfaturou respiradores que não chegaram para a nossa população em plena pandemia da COVID-19.

Os autores são homens, homens brancos de uma elite política e econômica que não suporta ver uma mulher negra como eu enfrentando eles. Afinal de contas, toda a narrativa que eles tentam construir para inviabilizar o nosso mandato são narrativas do tipo: “Ah, ela falou que eu sou corrupto”, como se isso fosse motivo suficiente para pedir a cassação de mandatos. São pedidos que não têm materialidade com relação a qualquer coisa que justificasse um pedido de cassação, mas que demonstra cada vez mais essa violência política de gênero direcionada a mim.

Afinal de contas, fomos nós que denunciamos toda a lógica fraudulenta com relação ao Banco Master, com relação à Refit. Nesse sentido, denunciamos os podres poderes e a resposta deles é exatamente cassar o nosso mandato. O autor desses três pedidos é o cara que quebrou a placa da Marielle (deputado Rodrigo Amorim, do PL do RJ), então nada diferente. Ele tentou assassinar a memória de Marielle e hoje tenta me silenciar com esses pedidos absurdos de cassação na Assembleia Legislativa. Mas nós continuaremos enfrentando.

É um absurdo esse processo (de retirada da deputada da Comissão de Defesa de Direitos da Mulher da Alerj). Afinal de contas, quando eu assumi a presidência da Comissão, eu assumi porque fui a mulher mais votada, então eu pedi essa comissão. Essa comissão sequer tinha sala na Assembleia Legislativa. Todas as outras comissões têm sala, mas a Comissão da Mulher não tinha. Ou seja, essa não era uma prioridade política da Assembleia : garantir os direitos da mulher.

Não só abri uma sala, como abri uma sala de atendimento às mulheres vítimas de violência. Foram mais de 700 mulheres atendidas com psicólogas, com assistente social e com advogados. Isso fez toda a diferença do nosso trabalho. Não se joga pedra em árvores que não dão frutos. Eles ficaram extremamente incomodados com a nossa atuação à frente desta comissão, e nesse rol das perseguições políticas, tentaram me tirar da presidência da Comissão da Mulher. Como resposta, a gente conseguiu um mandado de segurança do Tribunal de Justiça do estado, que me recolocou nessa presidência, e agora é a batalha política que a gente quer e vai ganhar.

BFC: a candidatura à prefeitura do RJ

Renata Souza: foi uma experiência muito difícil. Em 2020 era pandemia e a gente tinha ali uma situação extremamente dramática de pessoas que estavam morrendo concretamente. A rua, um espaço que é o nosso espaço prioritário para fazer campanha política, era uma rua onde as pessoas tinham medo de estar. Foi uma campanha muito difícil, também pela desigualdade financeira que representa uma campanha de uma mulher negra da favela junto a outros candidatos, outras candidaturas que tinham um poder econômico gigantesco.

Ainda assim a gente fez um papel importante, que é mostrar que é possível uma mulher negra ser candidata e fazer o que nós fizemos. Ainda que chegássemos em quinto lugar nessas eleições, foi a eleição que mais elegeu vereadores na história do PSOL no Rio de Janeiro. Elegemos sete vereadores com o meu nome como cabeça de chapa. Isso não é qualquer coisa, nenhum homem branco fez isso até hoje.

BFC: a eterna crise no RJ

Renata Souza: o Rio de Janeiro é um castelo de cartas marcadas desabando. São sempre as mesmas figuras. Se essas figuras não estavam com o rostinho dela nessas cartas, elas estavam por trás de outros rostinhos que tornaram o Rio de Janeiro um abismo político, econômico e social. Essa é uma lógica que já vem há muito tempo, ou seja, os mesmos grupos da extrema-direita se organizando ali com o Centrão, que vende até a mãe para se tornar o lugar palatável no Rio de Janeiro, onde a gente já teve sete governadores, se não presos, afastados. E, obviamente, a gente sabe que a esquerda tem um papel central e o campo progressista também no enfrentamento.

Enfrentamos trazendo o debate não só contra a corrupção, que nós fizemos, inclusive nas denúncias que nós trouxemos, mas também de garantir que o povo possa olhar com algum tipo de esperança para a política do Rio de Janeiro, que o povo precisa compreender que a sua arma, sem dúvida nenhuma, é o voto. E tirar esses podres poderes da administração pública é central para que a gente possa ter um Rio de Janeiro que respire, um Rio de Janeiro com a cara da gente, mas com as pautas que o povo necessita e demande como prioridade.

BFC: eleição no berço do bolsonarismo

Renata Souza: sem dúvida nenhuma, a eleição do Lula no berço do bolsonarismo é central. A gente está no Rio de Janeiro, onde o bolsonarismo se consolidou a partir da pauta da segurança pública, então esse é um debate que a gente não pode abrir mão de fazer, mas sem cair nas armadilhas que a extrema-direita nos coloca a partir desse debate, que é exatamente chegar na favela, matar 122 e achar que foi resolvido. Chega lá no Complexo do Alemão para saber se foi resolvido alguma coisa. É óbvio que não.

A gente precisa de políticas estruturantes e a esquerda precisa dar conta de apresentar essas políticas, seja com o papel da educação como fundamental, emprego e renda para nossa juventude, disputar a nossa juventude dentro das favelas com o crime. Por que não se disputa? A gente tem essa disposição de trabalho, de construção e eu não tenho dúvida que, diante das alianças serem colocadas no Estado do Rio de Janeiro, para termos a extrema-direita afastada desse lugar da política no estado, a gente vai ter que ser muito estratégico, entender que eleger o presidente Lula é algo fundamental e existencial para a soberania do nosso país, inclusive porque a extrema-direita quer entregar o Brasil para o Donald Trump.

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