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De jornalista “por acaso” a biógrafo de Lula: a incrível trajetória de Fernando Morais

Fernando Morais começou no jornalismo por acaso. Em 1961, quando tinha 15 anos, trabalhava como office boy em um banco em Belo Horizonte (MG). Um dia, quando o único repórter de uma revistinha que o banco publicava faltou ele foi escalado para substituí-lo em uma entrevista coletiva.

Foi o que bastou para iniciá-lo na profissão que o levaria a aventuras para toda a vida. Aos 18, mudou-se para São Paulo, onde deslanchou na carreira trabalhando em grandes veículos, como Folha de São Paulo, revista Veja e Jornal da Tarde.

Em 1970, ganhou, aos 23 anos, o primeiro dos três prêmios Esso que conquistaria, com uma matéria sobre a Transamazônica produzida junto com o repórter Ricardo Gontijo e o fotógrafo Alfredo Rizutti para o Jornal da Tarde. Quando um editor sugeriu publicar o trabalho em livro, percebeu que se descobrisse temas de fôlego de maior interesse poderia migrar do jornalismo diário para a grande reportagem literária.

“Se eu descobrisse uma boa história, tratasse com carinho, com rigor profissional e depois, na hora de fazer o texto, tratasse o texto de uma maneira elegante (…) talvez fosse possível viver de livros sem ter a obrigação diária com a redação”, conta.

O primeiro best seller veio com “A Ilha”, de 1976, onde desvendava os segredos da Cuba de Fidel Castro em pleno período da ditadura militar brasileira. Desde então, Morais colecionou títulos de sucesso, como “Olga” (1985) e “Chatô, o Rei do Brasil” (1994), ambos transformados posteriormente em filmes também exitosos.

Ao mesmo tempo em que trilhava as carreiras jornalística e literária, Morais vivenciava de perto a luta pela redemocratização do País. Em 1978, foi eleito deputado estadual pelo MDB de São Paulo, reeleito em 1982. Foi secretário de Estado da Cultura e também da Educação nos governos Quércia e Fleury, mas desencanou da política partidária eleitoral ao ver que não tinha temperamento para lidar com o “varejo” da atividade.

A dupla militância jornalística e política o levou a conhecer o torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva quando ele ainda era apenas um líder sindical regional. Em 2002, quando Lula chegou pela primeira vez à Presidência da República, Morais – inspirado na obra “Mil Dias: John F. Kennedy na Casa Branca”, de Arthur M. Schlesinger Jr. (1966) – teve a ideia de escrever um livro sobre o período do petista no Palácio do Planalto.

Rejeitada inicialmente por Lula, a ideia foi retomada em 2011, quando ele já não estava mais no poder. Em 2021, saiu o primeiro volume, cobrindo a infância, e a juventude, o início como líder sindical no ABC paulista, a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e as primeiras disputas eleitorais. O segundo, que saiu agora em 2026, foca no período entre a campanha das “Diretas Já”, as três derrotas para a Presidência (1989,1994 e 1998), até a vitória de 2002.

Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, Fernando Morais relata detalhes dessa trajetória incrível, cinematográfica, descrevendo, por exemplo, a aventura que foi voltar de Cuba ao Brasil – contando com a inesperada ajuda do então ditador presidente general Ernesto Geisel – e o acordo que fez com Lula quando começou a escrever a biografia daquele que o jornalista coloca ao lado de D. Pedro 2º e Getúlio Vargas como um dos maiores estadistas da história do Brasil.

BFC: o começo no jornalismo

Fernando Morais: a série (de reportagens sobre a rodovia Transamazônica em 1970), que tinha sido publicada no Jornal da Tarde também foi adaptada e transformada em livro, e aquilo me seduziu um pouco. Mas ainda não foi a virada. A virada foi com “A ilha” (1976). Quando eu fui fazer uma reportagem sobre Cuba e o patrão não gostou e me demitiu. Eu tive de publicar até para salvar minha pele, porque eu preciava provar que fui fazer jornalismo e não guerrilha. E lancei o livro.

E para minha sorte, porque era o mistério, sabe: Cuba, o socialismo num país latino, a 150 quilômetros de Miami. Então, isso tudo gerou uma expectativa muito grande, o que fez com que o livro vendesse muito. Comecei a perceber que se você acertasse a mão, a receita, seria possível fazer jornalismo de boa qualidade sem patrão e sem a inconveniência dos prazos, que é o desespero do jornalismo diário. Foi no “A ilha” que eu dou a virada. E depois continuo já com o Olga (1985), que eu já fiz para ser livro.

BFC: a aventura em Cuba e a volta ao Brasil

Fernando Morais: eu estava cobrindo a Revolução dos Cravos em Portugal. E saiu o visto que eu estava pedindo de entrada em Cuba desde 1970. Aí nós já estávamos em final de 74, começo de 75. Já tinha muito tempo e eu trabalhava num jornal conservador, no “Estadão”. Família Mesquita. Não tinha voo direto da Europa Ocidental para Havana. Então eu tive que ir para a Tchecoslováquia – ainda não era República Tcheca e Eslovênia. De lá peguei um avião que estava vindo de Moscou, que era um “pinga-pinga” que vinha parando pela Europa Oriental.

Fazia uma última escala em Praga e de Praga ele ia até os Açores. Reabastecido nos Açores ia para Havana. A única dificuldade foi logística. Agora, para voltar para o Brasil foi uma aventura com um final curiosíssimo. Porque a matéria terminou, não tinha comunicação telefônica entre os dois países e eu, de Havana, me comunicava com a correspondente em Nova Iorque e ela ligava para o Brasil.

E aí disseram o seguinte: “olha, vai para a Jamaica, vai a Kingston e fica hospedado no hotel Hilton”. Eu fui para a Jamaica e fiquei esperando ordens do Brasil. Aí me ligaram, disseram; “vai para o México, fica no hotel tal, na Cidade do México”. Daí recebi o telefonema dizendo: “vai para Buenos Aires e se hospeda no hotel tal”. Fui para o hotel, recebi uma chamada dizendo o seguinte: “corta a barba, destrói o seu passaporte, pica em pedacinhos, joga no esgoto, no lixo, vai ao consulado brasileiro sem barba, tira fotos, vai num fotógrafo, faz fotos sem barba”. Foi a única vez desde a adolescência que eu cortei a minha barba. Fui e fiz a foto.

Fui ao consulado e procurei um determinado funcionário. Tive que procurar o senhor fulano de tal e dizer: “olha, eu sou turista e perdi meu passaporte, já tirei as fotos, quero renovar o passaporte”. E aí fiz o passaporte novo e veio o diretor da revista do Brasil me pegar em Buenos Aires e me acompanhar para entrar em segurança no Brasil sem ser preso.

Só muito tempo depois que eu soube que quem armou essa volta toda cheia de truques de códigos de capa, barba, jogando passaporte fora e tal, tinha sido o presidente (Ernesto) Geisel (1974-79) e quem pilotava isso aí era o Carlos Átila (diplomata que foi porta-voz do presidente João Figueiredo, sucessor de Geisel). Por que isso? Porque havia uma guerra interna no exército entre a linha dura e o governo Geisel. Queriam “furar o olho do Geisel” e beber o caldo. Tanto que o Geisel consegui dar o golpe no (general e ministro do Exército) Silvio Frota (da linha dura, demitido por Geisel em 1977).

Minha volta para o Brasil foi uma volta complicada, que se complicou mais, porque veio a verdadeira razia dos órgãos de segurança contra o “Partidão”, o Partido Comunista Brasileiro, do qual eu não fazia parte. Mas o Exército desconfiava que eu fosse um militante do partido. Eu fiquei sabendo dessas coisas todas depois pelos presos, pelo (jornalista Paulo) Markun, o (jornalista) Rodolfo Konder, os que tinham sido presos.

O pessoal perguntava para eles: “o que Fernando Morais foi fazer em Cuba? Uma reportagem. Mas que reportagem é essa que não saiu em lugar nenhum?” Então, a publicação do livro tinha sido também uma maneira de provar que eu tinha ido como jornalista e não como guerrilheiro. Não tinha ido buscar dinheiro nem levar dinheiro, não tinha ido buscar arma nem fazer curso de artilharia. A publicação do “A ilha” está fazendo 50 anos agora. Ao mesmo tempo que foi o livro com essa complicação toda, com esse mistério, esse “engana gato” foi o que me deu a convicção de que era possível viver de livro. Que eu já poderia deixar as redações e descobrir o meu amor. Se eu descobrisse uma boa história, tratasse com carinho, com rigor profissional e depois, na hora de fazer o texto, tratasse o texto de uma maneira elegante. A maneira literária, não ficcional e literária, mesmo no melhor sentido da palavra, talvez fosse possível viver de livros sem ter a obrigação diária com a redação.

BFC: a carreira política

Fernando Morais: (não segui na carreira política) porque no meu primeiro mandato eu era oposição à ditadura militar e, portanto, me dei muito bem. Foi um mandato que me gratificou muito pessoalmente, politicamente, e fui reeleito com uma votação maior ainda. Já tinha tido uma votação muito boa para quem não tinha dinheiro, base partidária, não tinha sindicato por trás, nada. Tinha o meu nome como repórter. Ia pedir voto para as pessoas, no palanque nas cidades do interior dizendo isso: “eu sou um jornalista que vai exercer a profissão na tribuna do Parlamento”.

O segundo mandato a gente já era governo. Foi quando foi eleito (Franco) Montoro (MDB), governador de São Paulo, e aqui foi eleito o (José) Richa. Foram os primeiros governadores desde a ditadura militar, em 1982. O exercício do mandato passou a ser um negócio chatíssimo, um pé no saco. Porque prefeito que arranja 5 mil votos, você elege deputado, prefeito. Tá precisando da ponte, de um posto de saúde, da delegacia de polícia, precisando de recursos. O deputado acabou virando um despachante de luxo. Essa coisa do varejo não me agradou. Não me seduziu.

Achei que tinha abandonado a vida pública para me dedicar só aos livros. Quando veio o convite para secretário de Cultura do Estado. Vai, não vai. Não sabia se topava. A tentação era grande porque o governador tinha planos de fazer o Memorial da América Latina, que era um negócio muito bonito e, para me seduzir, disse que não ia faltar dinheiro. Acaba faltando sempre, mas me atraiu para a Cultura e eu acabei fazendo um trabalho legal. Primeiro, porque não tive preconceito de natureza partidária. Eu era do MDB, o governo era do MDB, mas chamei gente do PT, chamei brizolista, socialistas. Não fiz uma seleção partidária que me obrigaria a atender deputado, senador, nomear fulano para dirigir biblioteca do Estado. Foi a única exigência que eu fiz para o governador. Topou. Valeu a pena. Quando terminou o governo, nós ganhamos a eleição. Fui convidado para ser secretário de Educação. (Aceitei) porque eu tenho convicção de que o que vai consertar o Brasil é a educação. Antes de qualquer coisa, da saúde. Se você consertar a educação, você vai deixar de ter problemas na saúde. (Foi uma) missão. Salários muito baixos. Ganhava mal, não roubava. Compensava se fosse para fazer uma transformação profunda. E o governador não estava interessado. Eu peguei meu chapéu, fui embora e voltei para os meus livros.

BFC: biografias de pessoas vivas

Fernando Morais: o (escritor) Ruy (Castro) tem razão (de não fazer biografias de pessoas vivas). O Ruy falou uma coisa mais: diz que tem que estar morto, não pode ter descendentes, filho, neto, sobrinho, afilhado. Agora tem um lado positivo você estar fazendo o personagem vivo: não há nada que substitua o olhar do autor e ninguém pode dizer melhor quem é o Lula do que uma pessoa que convive com o Lula. Se você tem, como eu tenho, um distanciamento político ideológico em relação ao personagem.

Eu, por exemplo, não sou do PT. Então isso aí já me deu uma liberdade muito grande. Eu conheci o Lula antes do Lula ser uma personalidade. Eu era deputado, ele era um metalúrgico. Não era nem uma liderança nacional ainda. Me aproximei dele durante as greves porque a polícia ia lá bater nos piquetes. Alguns deputados iam lá protegê-los.

O Ruy tem razão quando ele diz que não quer retrato de quem está vivo, que não pode ter sobrado nem o pó do cadáver. Mas ao mesmo tempo, ele perde uma oportunidade ao tomar isso como um dogma. De fazer algo que é insubstituível, que é o olhar do autor.

Eu não preciso entrevistar para perguntar o que foi que o Lula falou naquele dia do comício aqui em Curitiba. Se eu estava nesse comício, eu sei o que eu quero do que ele disse. Então tem esse lado bom, favorável. Por falar em Curitiba, como coincidência curiosa: os dois volumes (da biografia) do Lula começam com Curitiba. O primeiro começa na cadeia (na sede da PF em 2018) e o segundo começa no comício das Diretas Já, aqui na Boca Maldita (1984, região Central de Curitiba).

BFC: biografia de político em ano eleitoral

Fernando Morais: na verdade, se pudesse eu preferia não publicar num ano eleitoral para evitar exatamente isso, que eu atrapalhasse. Imagina você fazer um livro que vai permitir que volte o bolsonarismo de alguma maneira, contribuir para que volte a extrema-direita ao poder? Pô, eu ia carregar essa cruz para o resto da minha existência. Ao mesmo tempo, eu não me disporia a fazer um livro para fazer campanha eleitoral, um livro chapa branca. Eu falo coisas do Lula no livro, conto bastidores da história do Lula, que eu próprio desconhecia, embora tivesse uma proximidade grande.

Eu comecei a trabalhar no projeto há 20 e tantos anos, quando o Lula se elegeu presidente pela primeira vez. Eu tinha ideia de fazer um outro livro que não tinha nada que ver com o que eu fiz. A minha ideia era inspirada no (Arthur M.) Schlesinger Jr, que era um jornalista muito próximo do (presidente dos EUA) John F. Kennedy e que fez um livro para contar o exercício da presidência. Do ponto de vista do presidente. Era para ser um livro que ia durar o mandato inteiro do Kennedy e acabou sendo interrompido pelo assassinato dele.

Quando eu falei pro Lula ele falou: “não, nem pensar. Eu não vou topar. Esse negócio de biografia é para quem está velho. Eu não estou na idade ainda”. Ele se reelege presidente, voltei à carga e agora “vou fazer o segundo mandato. Você já sabe como é, já mexe com as peças do jogo de xadrez com uma familiaridade muito grande. A gente podia fazer o livro agora”. Ele não quis saber. “Pode tirar o cavalo da chuva”.

Eu larguei e fui cuidar dos meus outros livros. Um dia eu estava na França de férias, passando uma semana com a minha neta e toca o telefone. Era ele (Lula) convidando para tomar um café. Não sabia que eu estava fora. Isso já depois do segundo mandato. Ele já não era mais presidente. Tinha acabado de passar o governo para Dilma Rousseff. Foi no comecinho das férias presidenciais e ele falou: “vamos fazer o livro que você tinha imaginado”. Falei: “vamos, eu topo, Continuo tendo interesse”. Eu, na verdade, estava pensando em escrever um livro naquela época sobre o Antônio Carlos Magalhães. Ainda não desisti.

Levantei material suficiente para fazer o livro e aí furei a fila e botei o Lula na frente e começamos a trabalhar, gravar. Eu grudado nele, ele recebia gente do sindicato. Eu só fiz um exigência para ele. Falei: “presidente, vamos resolver um problema agora para não dar problema depois, que é o seguinte. O senhor não vai ler os originais. Só vou entregar na hora que o livro tiver impresso o primeiro exemplar. Eu me comprometo a levar na sua casa para o senhor ler. Mas o senhor não vai ler os originais ou não vai saber sobre o que é que eu estou escrevendo”.

Nem cheguei a ter uma discussão ali. Ele disse: “faz o que tem que fazer”. E aí trabalhamos durante mais ou menos uns seis ou sete meses. E teve um problema dramático. Foi o câncer. Ele não só descobriu que estava com câncer, mas com câncer na garganta que impedia de falar. Fosse no dedão do pé a gente continuava trabalhando, mas era na garganta. Ele ficou quase um ano sem dar depoimento, sem falar continuamente diante o gravador. Retomamos quando acabou. Já não tinha mais nada. Estava comprovado. O câncer tinha sido extirpado e eu colei nele. Portanto, se você for considerar que isso aconteceu em 2011, tem 15 anos trabalhando nesses dois ou nesses três volumes. Porque tem um terceiro ainda por vir.

O que eu imaginava era fazer um volume só. Eu achava que podia fazer um livro grosso, de 700, 800 páginas, mas que coubesse num volume só. Quando eu terminei o primeiro volume, descobri que o hábito brasileiro de ler não é tão arraigado assim. E os livros muito grossos espantam o leitor. Você entra na livraria e vê um livro de 600 páginas e o outro de 300. Se ele puder escolher pelo tamanho, ele escolhe uns 300, sem falar no preço. O livro custa duas, três vezes mais. E aí resolvi fazer primeiro o livro. Eu não queria perder uma parte que considero importantíssima da vida dele, que foi o período que ele passou preso aqui em Curitiba. Eu ia na prisão, conversava com ele, não podia gravar, não podia anotar. Tive que sair do xadrez ao lado da “Vigília Lula livre” (acampamento de apoiadores ao lado da sede da PF em Curitiba) e anotar de cabeça o que eu tinha levantado lá dentro.

E assim foi até ele ter sido solto. Quando ele foi solto, começou viagens pelo mundo para fazer palestras. Convidado às vezes por sindicatos de trabalhadores, federações industriais, grandes conglomerados de empresas. Todo mundo queria saber o que ele tinha feito no Brasil. Que milagre era esse que, sem dar um tiro, tinha conseguido tirar da miséria 40 milhões de pessoas. Onde é que estava o truque disso. Ele era convidado para sair pelo mundo fazendo palestras. Era muito bem pago. Eu conto isso no livro, que ele recebia 200 mil dólares por palestra, fora as despesas avião, hotel, equipe, segurança. E quando tinha vaga no avião, eu ia de carona. Quando não tinha vaga a editora pagava passagem para mim e eu ia me encontrar com ele no destino.

Eu preferia sempre viajar junto com ele dentro do avião. Porque o Lula é um presente para o biógrafo. Ele dorme pouco e fala muito. Você pegava um voo daqui para Beijing, por exemplo, na China, são 23, 24 horas de voo. Ele dormia quatro horas as outras 20 horas era conversa, conversa, conversa. E depois mais 24 horas para voltar. Parava no meio do caminho para reabastecer o avião. Eu descia, fumava meu charutinho, voltava, pegava de novo e tinha uma vantagem adicional de ouvi-lo dentro no avião e não apenas no destino para o qual eu estivesse indo que é o seguinte: não tinha telefone. Hoje tem telefone no avião. Naquela época não tinha telefonema para interromper nossa conversa. Não tinha audiência com o senador, com deputado federal. Não tinha puxa saco, áulico. Eram conversas de horas, horas e horas em que ele ficava muito à vontade. Às vezes à vontade até demais. Eu já comentei isso, que em algumas ocasiões cheguei a dizer para ele: “presidente, o senhor está me confundindo com o seu amigo Fernando Morais. Eu não estou aqui de amigo, estou aqui de biógrafo. Está falando coisas aí. Pode ser que depois não vá gostar de ver isso impresso no livro”. Ele dizia o seguinte: “você cuida do seu livro, eu cuido da minha vida”.

BFC: “PT envelheceu e ninguém diz não pro Lula”

Fernando Morais: ele se arrepende profundamente, por exemplo, de ter ido buscar apoio do Paulo Maluf para a candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. Se ele estivesse cercado por meia dúzia de sindicalistas ou velhos militantes petistas que dissessem: “está fazendo cagada”, ele teria se poupado desse arrependimento. Tem algumas pessoas e eu acho que o Zé Dirceu é um cara que fala não para ele. Tem um que eu tenho certeza que fala não para ele e que quando me perguntaram isso, eu não sabia dizer com tanta convicção ou me escapou da memória que eu nem sei se é filiado ao PT, que é o Frei Beto. O Beto é um cara que fala não para o Lula e às vezes por escrito. Eu tenho muito bilhete do Beto para o Lula, muita carta em que ele contesta posições do Lula com toda clareza. Agora, a impressão que eu tenho é que ele próprio está percebendo isso, tanto que ele está estimulando a renovação nas candidaturas do PT.

Eu vejo que aqui o fenômeno que achava que era paulista se repetindo no PT também do Paraná, que é a possibilidade e a perspectiva de tirar a molecada jovem que está em universidade, em fábrica, em sindicato. Que tem associação de classe. Trazer essa molecada para ser candidato a deputado federal, ir para o Congresso, para mudar a cara desse Congresso. Para ele (Lula) não enfrentar o que está enfrentando há quatro anos, que é um dos piores congressos que a história brasileira já viu.

Eu tenho visto e posso falar isso com segurança e liberdade muito grande, pelo fato de não ser do PT. É uma observação de fora. Posso estar errado também, mas eu vi em São Paulo jovens militantes do PT que não tinham planos de sair candidato a deputado federal, que mudaram de ideia por recomendação do Lula. E eu comentei isso com amigos aqui em Curitiba. Eles disseram que um fenômeno semelhante está acontecendo aqui. Me falaram, por exemplo, de uma mocinha de 20 e poucos anos que é candidata a deputada federal (a deputada estadual do PT do Paraná Ana) Julia (Ribeiro). Em São Paulo, nós temos um fenômeno muito parecido a (vereadora de SP) Luna Zarattini, neta do velho Zara (ex-deputado federal Ricardo Zarattini), meu camarada, meu querido amigo. A Luna, uma vereadora que teve 180 mil votos. Ela não ia sair candidata agora a nada, além de se preservar para ser candidata a prefeita. E ela é uma menina. Ela tem 30 anos, se tanto. Como essa moça aqui de Curitiba, o Lula recomendou a ela que saísse candidata a deputada federal.

A impressão que eu tenho é que doeu na carne, doeu na pele. Que eles estão sentindo que o partido envelheceu, que é preciso renovar. Chamando gente jovem. Não adianta você ter ideias jovens com velhinhos de 80 anos como eu, como Lula, o Zé Dirceu. Somos todos octogenários. Você precisa trazer a moçada para a vida política, para a vida partidária, para a vida eleitoral do partido.

BFC: a uberização do trabalho e a esquerda

Fernando Morais: a gente pode refazer essa base, já que a realidade é completamente diferente. Isso é um problema no qual lideranças socialistas e internacionais já tinham preocupação desde sempre e mundial. Eu me lembro que uma vez, conversando com o comandante Fidel Castro em Cuba, eu disse para ele; “olha, todo mundo aqui tem escola gratuita e é obrigatória. Dentro de um determinado espaço de tempo, toda a população adulta de Cuba vai ter curso superior de engenharia, de química, de física, do que for. E quem vai fazer o trabalho braçal? Quem é que vai limpar a privada em hotel?” Ele disse: “o socialismo ainda não conseguiu resposta para isso”.

Então a tecnologia andou mais depressa do que a ideologia e esses problemas são problemas que um partido progressista como o PT tem. Outros também, igualmente progressistas. Mas um partido que tem uma configuração tão rigorosa como a do PT tem que ter resposta para isso. Sob pena de desaparecer. Se não tiver resposta para isso, o PT vai virar um MDB, uma salada de fruta. Um destino daqueles que não têm exatamente onde estacionar.

BFC: a ascensão da extrema-direita

Fernando Morais: eu tenho filhos e netos, pessoas que estão sendo, de alguma maneira, vitimados por esse processo de alienação. Na melhor das hipóteses, porque às vezes pode não ser nem alienação. Eu começo a me convencer de que, em primeiro lugar, isso não apareceu na época da ditadura militar porque a ditadura foi de tal forma brutal que era feio ser a favor. Ter um vizinho, um parente, um primo, um conhecido que tinha sido vítima de alguma maneira da ditadura militar, ou alguém foi aposentado no serviço público, foi assassinado, que foi mandado para o exílio. Então, ser a favor da ditadura militar era muito feio. Não era uma virtude, era uma mazela que ninguém gostaria de assumir.

A mudança para um regime de direita, que não é o regime agressivo como era a ditadura militar. O governo Bolsonaro não matou, não prendeu, não exilou, apesar de ter feito males ao Brasil. Tão graves quanto torturar, exilar e aposentar compulsoriamente as pessoas. Mas deixou de ser uma coisa vergonhosa. A impressão que eu tenho é que uma parcela expressiva da sociedade brasileira é muito conservadora. E esse conservadorismo emergiu. E olha, falar disso aqui no Sul, mas eu estou acabando de vir do Nordeste. Fui a Salvador (BA) lançar livro, estou indo para Recife (PE), para Teresina (PI).

Não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Na França, regiões em que o Partido Comunista era hegemônico, regiões operárias, a esquerda em geral, não só o Partido Comunista era hegemônico. O Jean-Luc Mélenchon, por exemplo, que é o candidato da “França Insubmissa” (La France insoumise, LFI), ele era eleito fundamentalmente em bases operárias que hoje estão sendo tomadas pela Marine Le Pen, pela extrema-direita francesa. É um fenômeno internacional que eu acho que tem que ver com sua pergunta anterior, que é a mudança nas formas de produção do trabalho humano e que o mais grave é que a tendência é que isso piore. Então, se um partido como o PT não tiver resposta para isso, tende a desaparecer.

BFC: Pós-lula

Fernando Morais: primeiro que eu acho que o Lula, desde antes do (caso) do Banco Master, desde antes da crise do (filme) “Dark Horse”, já tinha convicção, dizia publicamente que não tinha medo da gente perder as eleições. Eu defendia que a direita ia se fragmentar e que a direita só conseguiria ameaçar a perspectiva de ganharmos as eleições se tivesse um Bolsonaro (de candidato). E agora, pelo jeito nós não teremos um Bolsonaro na cabeça da chapa. Muito dificilmente a candidatura do Flávio Bolsonaro vai sobreviver a esse furacão que eles estão vivendo.

Então, por tudo isso e pelo fato do Lula estar fazendo o último mandato dele. Não só porque legalmente não pode mais, mas porque a idade dele, vai ter 85 anos: eu estou convencido de que esse vai ser o mandato em que ele vai escolher qual é a porta da história pela qual ele vai entrar nos livros. Acho que daqui a 200 anos, quando seus tataranetos estiverem olhando para o Brasil da Proclamação da República até agora, até o fim do (governo) Lula, vão identificar três grandes brasileiros: D. Pedro 2º, Getúlio Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva. E se tiverem escolher um só, eu estou convencido de que vão escolher o Lula.

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Ivan Santos

Jornalista com três décadas de experiência, com passagem pelos jornais Indústria & Comércio, Correio de Notícias, Folha de Londrina e Gazeta do Povo. Foi editor de Política do Jornal do Estado/portal Bem Paraná.

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