Elton Welter nasceu na zona rural de Toledo, cidade do Oeste do Paraná, filho de agricultores que cultivavam e mantinham criações para a própria subsistência. A infância simples e os bancos da escola multisseriada não o impediram de perceber, logo cedo, as desigualdades sociais que cercavam sua família. A faculdade de Filosofia e o movimento estudantil o ajudaram a desenvolver uma visão de mundo mais crítica e complexa e a encontrar no PT um caminho para enfrentar essas contradições.
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Eleito vereador em sua primeira disputa, em 1996, Welter encarou as dificuldades e o preconceito de ser um candidato de esquerda em uma região conservadora, em que, muitas vezes, a “comunicação do medo” afasta aqueles que mais precisam de representação.
Em 2002, se elegeu deputado estadual no mesmo ano em que Lula chegou a primeira vez à Presidência da República, sendo reeleito duas vezes. Em 2014, no mesmo momento em que o partido começava a enfrentar sua mais grave crise, Welter acabou sem mandato. Ao invés de se abater, voltou aos bancos da universidade, concluindo um mestrado em Desenvolvimento Rural Sustentável, que lhe deu o embasamento acadêmico para entender como a organização comunitária e a articulação local são fundamentais para viabilizar políticas públicas.
Hoje deputado federal e pré-candidato à reeleição, Welter tem uma visão cautelosa, mas otimista do futuro. Apesar da polarização ainda presente, e do crescimento da extrema-direita no meio rural, acredita que é possível enfrentá-la com pautas claras em defesa do trabalhador do campo e de suas famílias. E mostrando que essa direita não debate propostas reais, mas foca em ataques pessoais, transformando a política em uma “rinha” de briga que não leva a lugar algum.
Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, Welter conta como se reinventou após o revés eleitoral e encontrou a receita para a esquerda se reaproximar do homem do campo e levar a proposta progressista aqueles que mais dela necessitam.
BFC: a infância no meio rural e a política
Elton Welter: eu nasci e me criei no interior de Toledo, na Linha Floriano. Uma vida muito simples, sempre ajudando. Eu estudei numa escolinha do interior, lá onde era multiseriado, tudo misturado na mesma sala. Eu ia de bicicleta nessa escola do interior. Muito cedo já ajudava a minha mãe também fazer canteiro. Tinha de tudo. Era uma agricultura de subsistência. A gente plantava e criava também. Tinha galinha, tinha porco. Tinha mandioca, se plantava pipoca, amendoim, tudo isso. A gente plantava batata doce e fazia uma horta. Tinha de tudo beterraba, cenoura. Aprendi muito jovem.
Eu sempre quis estudar. Meu pai dizia que eu tinha que ser padre, advogado. Depois fui para o ensino médio também numa escola pública no Colégio Castelo Branco. Quando tentei fazer um vestibular para Agronomia e não passei, passei foi em Filosofia. Foi ali que me interessei pela política. Foi no movimento estudantil e aí que me identifiquei com o PT. Em (19)89.
A (filosofia) influenciou muito, porque ali eu aprendi que o mundo é muito mais complexo. A gente passou a perceber muitas coisas, tem uma observação mais crítica, observar o mundo de outra forma. A gente leu algumas coisas importantes. Ver o que está por trás da notícia. Aquilo que está implícito ou não está muito claro. Fazer uma leitura mais apurada da realidade. Foi na universidade que eu aprendi isso. (Escolhi o PT) porque é o partido que eu me identifiquei desde o início. O único partido que eu me filiei e é o partido que se preocupa com as bases sociais. Era muito forte isso. Essa relação que teve com a igreja, os movimentos sociais, sindicatos e tudo mais. E eu aprendi muito também quando me filiei no PT de formação, junto com lideranças ligadas ao Sindicato dos Bancários, que era muito presente e forte na minha cidade
Minha primeira disputa foi no ano de 96. Fui candidato a vereador e me elegi. Tomei posse em janeiro 97. O PT montou uma chapa de vereadores. Eu ajudei na organização dessa chapa também. Fizemos dois vereadores. Eu fui um deles. Foi uma campanha muito simples. Eu lembro que eu tinha um Fiat Prêmio e os adolescentes iam junto comigo. Iam todos nesse carro. A gente ia panfletar nos bairros, fazia só na parte da tarde que estudavam de manhã e no meio da tarde tomar um refrigerante com eles.
Foi uma campanha muito bonita, baratíssima assim. Foi muito, acho, por causa da relação que eu tinha na associação de moradores do bairro. Mas eu morava no interior, onde nasci. A gente participava da associação, da igreja também, com o um grupo de jovens. Tudo isso ajudou. Acho que o pessoal se identificou com o meu perfil por ser agricultor. Tinha terminado a faculdade, feito Filosofia, continuava trabalhando na roça. Tudo se somou: a militância, a disposição, carisma. A história anterior ligada à minha família, ao partido, a Igreja e ao movimento comunitário.
BFC: o preconceito contra o diferente
Elton Welter: na época havia muito preconceito, muitas barreiras. Tem muito ainda. O pessoal acha ainda que o cara é um produtor, agricultor, que nem eu ter uma granja de suínos ou de aves, que o MST vai tomar terra dele. O medo que setores da agricultura passam para os nossos pequenos agricultores. O pessoal hoje ainda vem assim: “você é um dos nossos. Como é que você defende os sem teto, sem terra E os indígenas e tudo mais?” Eu faço opção preferencial pelos que mais precisam. Pratico aquilo que eu sou, um cristão autêntico. O preconceito não pode me fazer deixar de lutar por quem mais precisa. Espero que algum dia esses agricultores compreendam que eu sou um dos maiores defensores deles. Eles, às vezes aplaudem quem usa o crime e ofendem quem os representam e muito. Mas é do jogo.
Falo de formação, e percepção do mundo. Até não condeno eles. Talvez não tiveram a oportunidade de compreender a sociedade, como ela funciona de fato. Acho que muitas vezes também os próprios grandes proprietários acabam manipulando as informações e fazendo com que as pessoas tenham esse tipo de preconceito. Existe uma forma de é uma comunicação do medo que impõe sobre as pessoas, e as pessoas optam, criam ódio, intolerância para quem é de esquerda. Vejo que as pessoas, os muito grandes – não são todos eles – que querem manter uma certa opressão. Não aceitam a igualdade de oportunidade para o conjunto da sociedade. Acho que está no imaginário das pessoas. E que isso se revelou nessa questão recente. Tinha gente que começou a odiar pessoas muito próximas. Não só no PT, os que mais gente tinha uma convivência muito legal. Às vezes um parente próximo não consegue te estender a mão por causa do ódio, da intolerância. A maldade que fizeram, inclusive com essas pessoas. Se revelou por dentro. A intolerância não é só no Brasil. Se criou uma antipatia, uma intolerância contra quem é de esquerda. Mas quem é convicto quer ajudar a quebrar paradigmas.
BFC: a comunicação nas redes
Elton Welter: É sempre desafio o meu pessoal que a gente tem que se comunicar o tanto quanto possível com os públicos diferentes. Obviamente, tentar passar conteúdos digitais que não percam a identidade e também para chegar a alcançar mais pessoas, porque a disputa é muito concorrida mesmo dentro do partido, da federação. Temos que estar preparados, entender de impulsionamento, de tráfego pago, de gestão de rede. Não é simples.Acho que todo mundo bate cabeça com isso. Fazer viralizar um assunto. Às vezes você tem que meio que radicalizar demais e nem sempre isso é bom. O povo quer confusão nas redes. Eu já fiz isso e faço de vez em quando uns testes. Isso incomodava. Aliás,o que me jogou para cima, no fundo foram os adversários. Que deu o engajamento nas redes em 2022.
BFC: volta ao campo e aos estudos
Em 2002, me elegi (deputado estadual pelo Paraná) junto com o Lula. Fiz três mandatos. Eu fiquei até 31 de janeiro de 2015. Não disputei eleição em 2018.
Daí eu reorganizei minha vida com pequeno agricultor, fiz minha declaração de aptidão Pronaf. Financiei duas estufas de morango e também mexi num tanque de peixe. Retomei as atividades rurais, fiz um investimento numa chácara também. Paralelo a isso fiz um mestrado. Um professor me estimulou a fazer. Fiz mestrado em Desenvolvimento Rural Sustentável no programa de pós graduação da Unioeste Campus Marechal Rondon e eu estudei uma coisa que eu mais sou apaixonado na vida: Como é que induz o desenvolvimento local. Estudei Capital social e desenvolvimento e o meu mestrado foi em cima disso. Isso me deu uma convicção usando a ciência para dialogar com uma pequena cooperativa ou com um gestor público municipal, ou dentro de um sindicato. Como é que os atores locais têm força suficiente para agir junto para mudar uma regra estadual ou federal?Passei a compreender por que alguns lugares desenvolvem mais do que os outros. Por que a gente não consegue, às vezes, estrutura um projeto numa comunidade que mais precisa? As pessoas não estão organizadas, não têm um CNPJ e ficam esperando isso cair do céu. É organizando o capital social e motivando as pessoas a se organizarem e observarem essa questão cultural, o clima, o solo, o ambiente da comunidade onde eles vivem para poder promover políticas públicas. Como é que você promove política pública ou aperfeiçoa a política pública?
Sou congressista por causa disso. Hoje tenho as causas que defendo. Elas estão muito claras. Isso passou segurança para mim e para quem me ouve, me acompanha. As pessoas estão se sentindo representadas principalmente o pessoal do meio rural, da agricultura familiar. Elas veem que a minha postura pública, daquela discussão política é técnica de base. Ela chega no Congresso. Posso dar alguns exemplos: eu fiz, estou com um projeto que cria o Fundo Nacional do Leite para socorrer exatamente em tempos de crise, que tem altos e baixos. Isso afeta diretamente os pequenos produtores. Também um projeto sobre alienação fiduciária. O que é isso? O banco não tomar terra do pequeno produtor. Às vezes tem de estiagem, ele está quebrando e vai perder o sítio que tem. Mostrar um caminho para não tomar a terra dele.
Outra coisa que é muito relevante e nisso eu estou me empoderando cada vez mais do ponto de vista da política, mas com muita humildade: trabalho nacionalmente o tema ligado aos fitoterápicos, que são as plantas medicinais. E a Itaipu toca um projeto com uma entidade que vai nas cidades e orienta os profissionais capacitados para preescreverem plantas medicinais. Só que nós temos um problema no país: não temos arranjos que produzem as plantas medicinais, os padrões sanitários que a Anvisa exige e está tudo legislado no país. Já para poder usar a planta medicinal tem 20, 20 plantas que Anvisa já deu Ok, certificou, conferiu que pode ser prescrito, que ajuda no tratamento de doenças. Isso e essas plantas estão na natureza, são de saberes tradicionais. Por que não deslanchou ainda? Então estou criando a Frente Parlamentar de Plantas Medicinais. E o Ministério da Saúde está convencido que tem que induzir essa política. Tem uma resistência entre alguns profissionais. E daí o (ministro Alexandre) Padilha vai fazer uma portaria muito em breve, para que os municípios passem a prescrever plantas medicinais. Vão ter um incremento no PAC, no Programa de Atenção Primária.
Isso vai ser uma forma de induzir desenvolvimento local a partir das plantas medicinais que estão na natureza, na cultura. Na prática, vai acontecer no médio e longo prazo. Na agricultura de melissa, espinheira santa, camomila que são as plantas que a Anvisa já permite que possam ser prescritas. Pode ser um mercado ou surgir agroindústrias. Vai ser a fonte do Ministério da Saúde, da atenção primária, que vai usar dinheiro para comprar planta medicinal. Vai ser (uma indústria) bilionária nos próximos 15, 20 anos. Eu não tenho dúvida disso, porque o que a gente importa, 98% está na natureza, Na minha visão, isso vai ser uma forma de desenvolvimento local para os municípios
BFC: PT e a superação das crises
Elton Welter: nunca foi fácil para o campo popular sobreviver no jogo. Eu acho que o status quo da sociedade, a elite econômica, nunca foi do nosso campo. Eles toleram a gente. Às vezes a gente faz alianças com eles até para tentar governar e ganhar. Mas é a República, o modelo republicano, o modelo do presidencialismo. Você tem que trabalhar para fazer isso. Acho que não é só o Brasil. O desafio nosso é como enfrentar as inverdades que contam para a sociedade. Como o pessoal do PT também não se ‘embebedar” pelo poder, sem perder as bases, sem articular com a sociedade, sem deixar de representar a maioria.
Vejo que o que aconteceu com o escândalo mensalão, da Lava Jato. Acho que tem que combater a corrupção. Quem estruturou o Estado brasileiro, deu independência para a Polícia Federal, atuou fortemente para combater a corrupção foi o PT. Agora, por exemplo, se pegar a Lava Jato, tem que combater a corrupção. Agora, não pode o julgamento midiático. O juiz tem que garantir a presunção de inocência. Os controles da sociedade precisam ser mais efetivos e a máquina do Estado não pode ter as “Vaza Jatos” ou coisas assim. Os vazamentos seletivos, às vezes, extrapolam. Por isso tem que ter a presunção de inocência.Não pode soltar absurdos. Até que se prove que focinho de porco não é tomada demora e isso acontece muito nos períodos pré eleitorais. A gente aprendeu muito, mas pode estar ocorrendo vazamentos seletivos por dentro do estado brasileiro novamente, e isso pode ser perigoso.
BFC: os desafios da esquerda
Elton Welter: acho que se a gente neutralizar um pouco as fake news consegue manter a dianteira. Não se ganha de véspera. A chance é muito boa, mas os algoritmos nem sempre jogam a favor da gente. E as mentiras que a direita, a ultradireita conta, eles não têm muito escrúpulos e a gente não vai fazer isso. Eu não faço isso. Eu não crio inverdades para viralizar nas redes. Por isso tínhamos que que criminalizar quem mente demasiadamente nas redes sociais. O Congresso deixou de fazer. Regulamentar. Isso não ajuda a democracia. A democracia é um bem maior. E preservar a democracia é neutralizar mentiras que contagiam, influenciam as pessoas. Acho que o grande desafio nosso é como neutralizar as mentiras, inverdades. Eu não vejo os meus colegas congressistas da direita discutir economia, política pública. É só “do pescoço para baixo é canela”. Desculpe a expressão, mas eles não têm muitos pudores. Eles não discutem porque o que o Brasil hoje está praticamente pleno emprego. As empresas estão atraindo imigrantes. Na cidade onde eu moro, de 6 mil trabalhadores, 30% são senegaleses, venezuelanos e assim por diante. Tem obras também acontecendo. E o Brasil está passando por um avanço, na minha visão. Dentro dos limites da crise mundial, o Brasil é uma das economias que mais cresceu, apesar de tudo. Então tem dado certo. Agora, nossa oposição que apresente um projeto alternativo viável, que discuta política, comece a fazer a discussão com profundidade. Onde a gente está errando.
Estamos trabalhando para aumentar o percentual de votos do Lula no Paraná. Vamos trabalhar para levar o (deputado estadual) Requião Filho (PDT) para o segundo turno. E também eleger uma senadora, que no caso, a nossa pré-candidata é a Gleisi (Hoffmann). E para aumentar a bancada federal e estadual também. Acho que vamos aumentar. Estou sentindo isso. Essa campanha, apesar de ser difícil, vai ser mais leve do que a outra. Nossas lideranças estão mais encorajadas e a própria militância vai sair da moita. O pessoal ficou muito assustado. Na outra eleição estava muito difícil e acho que tem muita gente também que foi eleitor do Bolsonaro, que viu que foi uma aventura maluca. Mas vão continuar votando, não vão votar na gente. Vão ficar mais assistindo de camarote também. Apesar que a direita está bem organizada. Mas estou muito otimista. Acho que a gente vai aumentar a bancada estadual, federal, não só no Paraná, como no Brasil. Eu não sei se o (ex-prefeito de Curitiba, Rafael) Greca (MDB), que foi meu colega na Assembleia, também (vai disputar o governo do Paraná). Na minha visão, é um bom candidato, tem um acúmulo bom. Eu acho que o que o (governador do Paraná) Ratinho Jr (PSD) errou na estratégia dele. Não sei porque ele fez isso quando colocou o (deputado federal) Sandro Alex (PSD) para disputar (o governo). Vão fazer de tudo para levar para o segundo turno. Isso a gente só vai saber depois que abrir as urnas. Acho que o nosso grande adversário, o (senador Sérgio) Moro (PL) uma farsa. Os paranaenses têm que começar a refletir porque ele fala de combate a corrupção.Essa tese para ele não funciona. E ele também tem dificuldade. Outra: a mulher dele (deputada federal Rosângela Moro) se elegeu por São Paulo e ele queria ser candidato por lá e virou candidato aqui. Tem que começar a refletir sobre isso, perguntar o que ele está fazendo no Senado, sobre que tipo de política pública. Ele vai se eleger dizendo que o PT não presta,não é bom. É o PT que está gerando milhares de empregos, está fazendo casa em tudo que é canto do Paraná e do Brasil.
BFC: fim da escala 6 X 1
Elton Welter: o povo brasileiro precisa dessa escala “% X 2” e acabar com a “6 X 1” Trabalhei nisso o tempo todo. Eu fiz material, nós fomos para frente de fábricas que tem uma escala 6 x 1. Ninguém vai quebrar com isso. Quando criaram o 13.º salário, falaram que as empresas iam quebrar. Vai dar mais saúde para o trabalhador, mais dignidade. O trabalhador vai ter mais tempo de ficar com a família, de ir no comércio comprar um presente para o filho, o neto. Não é possível que a modernidade veio com tanta força e as pessoas precisam trabalhar tantas horas por semana. Vai diminuir de 44 para 40 horas semanais. Está na de deixar votar, submeter a voto. O (presidente do Senado, Davi) Alcolumbre (União-AP), não pode sentar em cima disso. Não é uma prerrogativa dele. Isso é uma vontade do povo brasileiro. Pelo fato dele não precisar disputar a eleição, não pode fazer esse charme em não querer votar. Isso é para o bem do povo brasileiro e para o bem de milhões e milhões de brasileiros. É inadmissível essa pauta não ser não avançar no Senado agora. Tem que ter uma pressão.
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