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A voz e a luta de Camila Valadão contra a violência política de gênero

Camila Valadão (PSOL-ES) é uma vencedora. Primeira mulher negra a ser eleita vereadora de Vitória (ES), ela enfrentou desde o início do mandato, uma série de episódios de violência política de gênero por parte do então também vereador e hoje deputado Gilvan da Federal (PL-ES), que a princípio, permaneceram impunes. Em dezembro de 2025, porém, obteve uma vitória emblemática na Justiça Eleitoral, que condenou o parlamentar de extrema-direita a 8 anos de inelegibilidade por ter mandado a vereadora “calar a boca”, além de ofendê-la reiteradamente com expressões pejorativas e agressivas.

Mas Camila não se ilude. Sabe que a luta das mulheres brasileiras por igualdade de direitos e respeito não pára. Continua sendo testada todos os dias, por um Congresso que, por exemplo, é capaz de aprovar um projeto que dificulta o acesso de crianças e adolescentes vítimas de estupro ao aborto legal, entre outros retrocessos.

Segundo ela, é preciso manter a vigilância constante, e buscar não só a criminalização de comportamentos misóginos e violentos, como também atuar na educação e na comunicação digital. “O objetivo dessas leis conservadoras é manter o padrão de dominação e deixar os agressores livres. A criminalização sinaliza o que a sociedade não tolera, mas precisamos de regulação de redes e de uma educação voltada para a diversidade”, defende ela, nessa entrevista ao Brasil Fora da Caverna.

BFC: a infância e o início na política

Camila Valadão: Serra é um município da região metropolitana da Grande Vitória. Hoje, na verdade, é a maior cidade do estado do Espírito Santo. Mas aqui no nosso estado é tudo muito pertinho; a Serra fica em torno de 20 minutos da capital, é algo muito próximo. Para além de ser a maior cidade, é reconhecidamente industrial, onde se concentram as maiores indústrias do Espírito Santo. Eu morei lá até a minha juventude. Com o processo de entrada na Universidade Federal do Espírito Santo, que fica em Vitória, passei a vir mais para cá, vindo definitivamente por volta dos meus 26 anos. Sempre foi um bate e volta por conta da minha família que ficou na Serra, mas mudei aproximadamente nessa idade. Minha família toda é de lá. Exatamente. Meus pais são da Serra. Eu nasci em Vitória, mas fui criada lá e vim para cá depois da juventude. Meu pai hoje é aposentado, mas trabalhou a vida toda como autônomo. Minha mãe é dona de casa; depois fez faculdade e trabalhou alguns anos como professora, mas hoje é cuidadora de idosos — no caso, da minha avó, mãe dela. Já faz mais de uma década que ela está nessa função.

A minha família teve uma militância no processo de fundação do PT no município de Serra, que inclusive foi um dos primeiros espaços onde o Partido dos Trabalhadores foi formado no Espírito Santo. Eu cresci nesse meio político e a família tinha uma participação muito ativa no movimento comunitário — que na época tinha muita força na Serra —, em associações de moradores, na reivindicação por melhores condições para os bairros.

Cresci nesse ambiente e já queria me organizar politicamente. Mas a minha entrada na Universidade Federal do Espírito Santo foi quando dei um passo mais firme na militância. Antes de entrar na universidade, eu já era filiada ao PT e participava politicamente, mas a entrada no ensino superior fez com que eu seguisse firme tanto na militância partidária como nos movimentos sociais do Estado. Foi no curso de Serviço Social que integrei o Centro Acadêmico Livre de Serviço Social e o Diretório Central dos Estudantes (DCE), e depois passei por outros espaços também.

Pai, mãe, tios, tias. A maior parte da minha família tinha algum nível de envolvimento político. Hoje menos, na verdade. De alguns anos para cá, minha família não acompanha tanto a política diretamente; acompanham mais a partir da minha militância, mas não têm mais envolvimento direto.

BFC: a primeira candidatura

Camila Valadão: (a primeira candidatura foi em 2014, ao governo do Estado). Exatamente. Nós tínhamos, dentro do PSOL na época, um grupo bastante jovem que reivindicava que o partido apresentasse uma candidatura ao governo do Estado para se contrapor às duas principais candidaturas que disputavam o pleito: Paulo Hartung e Renato Casagrande (ambos. O Espírito Santo está há mais de 20 anos com os mesmos nomes se revezando no poder. É a primeira vez em mais de duas décadas que não teremos na cédula eleitoral o nome de (ex-governador) Paulo Hartung (PSD) ou de (atual governador Renato) Casagrande (PSB).

Naquela época, defendíamos o lançamento de uma candidatura, só que o partido não tinha muitos nomes. Decidimos apresentar a candidatura de uma jovem mulher negra para se contrapor, até na perspectiva da identificação, a esses projetos que disputavam o governo. Foi a minha primeira eleição. Eu tinha 29 anos e fui a candidata mais jovem do Brasil ao governo de um Estado. Cumprimos ali o nosso papel de debate político e programático, que era o nosso objetivo.

Eu me filiei ao PT com 17 anos. Depois, saí do PT no processo de formação do PSOL. Saímos em um grupo do qual eu fazia parte na época para construir o novo partido. Desde então, estou no PSOL. Entrei em 2005, então já faz exatamente 20 anos.

O partido foi formado formalmente em 2005 e, desde então, era muito pequeno no seu processo de construção no Espírito Santo, enfrentando muitas dificuldades para compor chapas proporcionais — o que é um grande desafio em todo o Brasil. O Espírito Santo é um estado historicamente muito conservador, então um dos grandes desafios da esquerda é enfrentar esse conservadorismo, especialmente no interior.

Desde a formação, o PSOL se apresentava eleitoralmente, mas com dificuldade de compor chapas de vereadores e deputados. Em 2014 fui candidata a governadora; em 2016 fui candidata a vereadora em Vitória e fui a quinta mais votada da cidade, mas não entrei pelo quociente eleitoral. Em 2018 fui candidata a deputada estadual e fiquei entre os 30 mais votados do Estado — que é o número de vagas na Assembleia —, mas também não entramos pelo quociente.

Em 2020 foi quando fui eleita vereadora, sendo a segunda mais votada de Vitória. Naquela época houve uma alteração na regra eleitoral e, ainda que o PSOL não tivesse uma chapa tão robusta, a nossa votação foi suficiente para sermos eleitas. Em 2022 fui eleita deputada estadual como a mulher mais votada da história do Espírito Santo, resultado da trajetória firme que fizemos no mandato de vereadora no enfrentamento à extrema-direita e na defesa do serviço público e dos direitos dos trabalhadores. Esse protagonismo resultou na nossa vitória para a Assembleia.

BFC: quebrando barrreiras

Camila Valadão: tem muito simbolismo (ter sido a primeira mulher negra eleita vereadora de Vitóri). Primeiro porque a nossa vitória é um instrumento de denúncia de como o sistema político é altamente machista e racista. A capital do Espírito Santo só teve a sua primeira vereadora negra em 2020, sendo que o Espírito Santo está entre os estados com a maior população negra e é o mais negro da região Sudeste. Isso revela as desigualdades do sistema político. Do ponto de vista partidário, foi uma grande vitória que ajudou a ampliar a representatividade do PSOL. Hoje temos um mandato na Assembleia Legislativa e dois vereadores: um em Vitória e um na Serra. Vemos a oportunidade de expandir o partido mantendo a coerência e os princípios.

BFC: perseguição e resiliência

Camila Valadão: foram inúmeros episódios (envolvendo o ex-vereador e hoje deputado federal Gilvan da Federal, do PL do ES) que se enquadram no que hoje tipificamos como Lei de Violência Política de Gênero. Sofri vários ataques no exercício do mandato como vereadora na Câmara de Vitória. Diante disso, fizemos uma provocação e cobrança ao Ministério Público para seguir com a denúncia, ressaltando que o papel dessa violência era intimidar e censurar o nosso mandato, além do impacto disso para todas as mulheres. Se um vereador na capital cometia aquilo e nada acontecia, era praticamente uma autorização para que a violência se repetisse em câmaras municipais com menos visibilidade e estrutura.

Foram vários, mas existem dois muito emblemáticos que ganharam repercussão nacional. O primeiro foi logo no início do mandato, em março de 2021, no Dia Internacional da Mulher. Fui constrangida por estar usando uma blusa que deixava um ombro de fora. Fui questionada se a roupa era adequada e disseram que eu não me dava ao respeito, misturando críticas à vestimenta com o fato de eu ter usado a expressão “todes” em um cumprimento. Respondi de maneira firme que não havia problema na minha roupa, que as mulheres não devem ser julgadas pelo que vestem e que eu não aceitaria aquele constrangimento.

Ao longo daquele ano, os episódios de interrupções, agressões indiretas e constrangimentos foram sucessivos. Vale destacar que eram agressões direcionadas a mim, à minha pessoa, e não ao meu partido ou às ideias que defendo.

O segundo episódio foi o que gerou a representação ao Ministério Público. Esse vereador me mandou calar a boca no meio de uma sessão gravada e transmitida. Eu retruquei dizendo que ele não mandava eu calar a boca, e ali iniciou-se um processo de agressões verbais que quase resultou em agressão física. Ele passou a me xingar de canalha, covarde, entre outras coisas. Depois, eu fui eleita deputada estadual e ele deputado federal, e ele segue fazendo na Câmara dos Deputados exatamente a mesma coisa contra várias parlamentares, como Gleisi Hoffmann e Talíria Petrone. O objetivo desses agressores é silenciar, constranger e humilhar as mulheres nos espaços de poder para manter a nossa sub-representação. É um desafio garantir mandatos sem violência em todo o país.

Eu mesma abri uma representação na Corregedoria da Casa no primeiro episódio, mas ela foi arquivada. Depois entendemos que não adiantava, até porque, diante das inúmeras agressões, a maior parte dos parlamentares silenciava ou era conivente. Não havia espaço para acolhimento em uma casa extremamente corporativa e masculina.

Mas o nosso caso foi emblemático pelo resultado obtido na Justiça, que é uma vitória das mulheres na política. Recentemente, acompanhamos o caso de um vereador que fez um gesto obsceno para uma vereadora no interior do Estado. No dia seguinte, a decisão administrativa daquela Câmara foi a suspensão do vereador por um mês. Isso mostra a importância de não aceitarmos a violência; recados precisam ser dados de que essas práticas não serão toleradas.

BFC: misoginia

Camila Valadão: a deputada Maria do Rosário foi muito importante em um dos episódios, ajudando-nos a nacionalizar a denúncia. Algumas pessoas minimizam essas situações dizendo que a parlamentar está se vitimizando, sem perceber as consequências de longo prazo. No caso da Maria do Rosário, o agressor dela (Jair Bolsonaro) acabou virando presidente da República anos depois. Por isso a sentença contra esse deputado federal é pedagógica e fundamental: estamos falando de uma inelegibilidade por oito anos. Nossos mandatos não são menores que os dos homens. Pela Lei de Violência Política de Gênero, se não estou enganada, a nossa é a segunda ou terceira sentença no Brasil, vindo logo após o caso de uma vereadora em Niterói, no Rio de Janeiro. Embora ainda sejam poucas, essas decisões pavimentam um caminho mais seguro para as mulheres.

Vivemos um contexto muito desafiador. Autorizar ou tolerar essas práticas não é o caminho, embora eu reconheça que a criminalização isolada não seja suficiente. Ela precisa vir acompanhada de mecanismos como a regulação e cobrança das plataformas digitais para que tenham políticas de enfrentamento à misoginia.

O outro pilar fundamental é a educação. A educação cumpre um papel importante, e não é por acaso que acompanhamos tentativas de censurar o debate de cidadania e gênero nas escolas através de movimentos como o “Escola sem Partido”. No Espírito Santo, havia uma lei estadual que criava essa censura e que, felizmente, foi derrotada pelo Supremo Tribunal Federal através de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI). O objetivo dessas leis conservadoras é manter o padrão de dominação e deixar os agressores livres. A criminalização sinaliza o que a sociedade não tolera, mas precisamos de regulação de redes e de uma educação voltada para a diversidade.

BFC: pautas identitárias X economia

Camila Valadão: acho essa discussão absurda. Os dados demonstram que as desigualdades e violências recaem sobre parcelas específicas da população. Não concordo com a ideia de que a pauta econômica deve se sobrepor a esses debates; eles precisam caminhar juntos. A classe trabalhadora tem gênero e tem raça, e as opressões se alimentam disso.

Na discussão sobre o fim da escala 6×1, por exemplo, nota-se que os maiores impactados são as mulheres e a população negra. Se não tivermos um olhar cuidadoso articulando essas questões, as políticas universais não atingem a todos de maneira igual. A Lei Maria da Penha é um avanço, mas demanda um olhar atento para as mulheres negras, que continuam sendo as principais vítimas de feminicídio. No debate sobre a redução da jornada, as deputadas Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna apresentaram um projeto que previa uma redução adicional de 15% na jornada para mulheres que são mães, visando equilibrar a sobrecarga da reprodução social e do cuidado. Esse exemplo ilustra a necessidade de vincular raça e gênero aos debates gerais da classe trabalhadora.

BFC: cenário eleitoral

Camila Valadão: os desafios são gigantescos, mas há oportunidades. Pela primeira vez em mais de 20 anos, não teremos os mesmos nomes (Paulo Hartung ou Casagrande) polarizando o governo. Quem tem menos de 20 anos nunca conheceu outro governador. Essa novidade abre espaço para a esquerda apresentar uma alternativa, superando um histórico recente de recuos diante de grupos econômicos consolidados no Estado.

Temos a candidatura do (deputado federal) Helder Salomão ao governo do Estado pelo PT. Ele foi o deputado federal mais votado do Espírito Santo, tem uma trajetória histórica nos direitos humanos e a sua candidatura pode apresentar uma nova plataforma política, além de somar palanque para o presidente Lula e ajudar a formar um bloco mais forte para disputar a Assembleia e a Câmara Federal. A esquerda hoje é sub-representada no Espírito Santo e esperamos alterar essa correlação de forças.

Sou pré-candidata a deputada estadual. Entendemos ser fundamental dar continuidade ao trabalho na Assembleia Legislativa. Mantivemos uma atuação muito independente na relação com o governo estadual e fomos firmes no enfrentamento à extrema-direita. Não optei por tentar uma vaga federal agora porque entendemos que a nossa chapa ainda precisa de mais peso para a Câmara Federal e porque temos uma tarefa de interiorização do mandato. Minha votação expressiva anterior concentrou-se na Região Metropolitana da Grande Vitória; o passo atual é ampliar nossa inserção no interior do Estado antes de planejar uma ida a Brasília.

BFC: “PL do estupro”

Camila Valadão: a luta das mulheres precisa ser permanente. O Congresso atual tem se mostrado um inimigo do povo e, especialmente, das mulheres e meninas. Esse PDL (que dificulta o acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de estupro) ameaça a vida de crianças e adolescentes, que são as principais vítimas de estupro e sofrem com a falta de informação.

O Congresso tenta constantemente revogar direitos conquistados e assegurados desde a década de 1940 no Código Penal. Eles não aceitam o direito à interrupção da gestação nesses casos específicos porque não enxergam mulheres e meninas como sujeitos de direitos, mas como corpos tutelados. Em momentos de polarização, esses projetos que atacam nossas vidas são pautados.

Além disso, esse PDL ataca a participação social ao revogar uma resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente). Nosso papel é seguir vigilantes, enfrentando esses retrocessos e expondo os parlamentares que defendem essa agenda.

BFC: a extrema-direita e a mídia

Camila Valadão : é fundamental (o papel da mídia alternativa progressista). Durante muito tempo, apenas a grande imprensa pautava os debates. Hoje temos as redes sociais que, apesar de suas contradições e problemas com desinformação, abriram um espaço de disputa onde tentamos atuar, mesmo em condições desiguais. Fortalecer iniciativas de comunicação popular e independente é essencial. Lembro do papel importante desempenhado durante a pandemia pelo Brasil Fede Covid, combatendo as fake news em um momento crítico.

Queremos um debate democrático. Dialogar com a população exige criatividade e, principalmente, coragem. A esquerda não pode ficar acuada ao defender suas pautas; precisamos criar espaços eficientes de difusão de informação para contrapor a extrema-direita. O próximo período eleitoral será duríssimo e exigirá muita disputa política organizada contra as medidas orquestradas por esse Congresso.

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Ivan Santos

Jornalista com três décadas de experiência, com passagem pelos jornais Indústria & Comércio, Correio de Notícias, Folha de Londrina e Gazeta do Povo. Foi editor de Política do Jornal do Estado/portal Bem Paraná.

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