“Duas Cidades”: BaianaSystem levou a voz das ruas para o centro da música brasileira
Lançado em 2016, Duas Cidades, segundo álbum de estúdio do BaianaSystem, transformou as desigualdades, os deslocamentos e a efervescência cultural de Salvador em uma obra que ultrapassou os limites convencionais de um disco.
Produzido por Daniel Ganjaman após anos de experiências nos palcos, o trabalho reuniu guitarra baiana, reggae, dub, rap, pagodão, samba-reggae e música eletrônica para retratar uma capital dividida socialmente, mas conectada pela circulação de pessoas, ritmos e histórias.
As 12 faixas consolidaram a formação composta por Russo Passapusso nos vocais, Roberto Barreto na guitarra baiana, Marcelo Secco, o SekoBass, no baixo, samples e programações, além de Japa System na bateria e percussão.
Participações como Márcio Victor, Siba e as Ganhadeiras de Itapuã ampliaram o caráter coletivo de uma produção construída entre apresentações, improvisos, viagens e um período de concentração no interior de São Paulo.

Mais do que dar sequência ao álbum de estreia, lançado em 2010, Duas Cidades registrou o amadurecimento de uma linguagem desenvolvida pelo BaianaSystem durante seis anos. O grupo encontrou uma maneira própria de unir o som agudo da guitarra criada por Dodô e Osmar à pressão dos graves que marcaram os sistemas de som jamaicanos.
Essa combinação já estava presente desde a formação do projeto, em 2009, quando Roberto Barreto começou a investigar novas possibilidades para a guitarra baiana fora do repertório tradicional dos trios elétricos. Com a chegada de SekoBass e Russo Passapusso, a experiência ganhou peso rítmico, discurso político e uma presença de palco capaz de aproximar a cultura popular de Salvador das pistas contemporâneas.
No segundo disco, essa proposta apareceu mais organizada, sem perder a liberdade que impulsionava os shows. Daniel Ganjaman, conhecido por trabalhos com Criolo e Sabotage, ajudou a reunir referências numerosas dentro de um mesmo conceito e participou dos arranjos, teclados e elementos eletrônicos.
BaianaSystem entre Salvador e Kingston, no cenário de Duas Cidades

O título do álbum parte da separação física entre Cidade Alta e Cidade Baixa, mas alcança uma divisão muito mais profunda. A Salvador apresentada pelo BaianaSystem é atravessada pela distância entre ricos e pobres, pela segregação racial, pela especulação imobiliária e pelo movimento diário de trabalhadores que sobem ladeiras, cruzam bairros e deixam suas casas em busca de sustento.
Russo Passapusso relacionou essa ideia aos diferentes tipos de êxodo, desde os percursos cotidianos dentro da capital baiana até as mudanças entre cidades e estados. Nesse cenário, o deslocamento não aparece apenas como perda ou afastamento, mas também como uma ligação capaz de aproximar espaços, experiências e culturas aparentemente distantes.
A segunda cidade sugerida pelo álbum também pode ser Kingston, capital da Jamaica e berço da cultura dos sound systems. Os graves monumentais, a lógica dos riddims, o reggae, o dub e o canto próximo do ragga dialogam com a herança dos blocos afro, do afoxé, do ijexá, do samba-reggae e do pagode baiano.
Essa ponte não começou com o BaianaSystem, pois a música de Salvador mantém uma relação duradoura com a cultura jamaicana. Artistas e blocos afro já recorriam ao reggae e à imagem de Bob Marley desde as décadas de 1970 e 1980, aproximando as duas regiões por meio da mistura de diáspora negra, espiritualidade, dança e das denúncias sociais.
O grupo atualizou essa conexão ao colocar a guitarra baiana no centro de uma estrutura marcada por baixos pesados, tambores acústicos e programações digitais. O instrumento deixou de cumprir apenas uma função associada ao Carnaval para unir melodias e frases que conduzem as mudanças internas das músicas.
A abertura com Jah Jah Revolta, Parte 2 estabelece imediatamente o ambiente do álbum. A faixa recupera uma composição instrumental do primeiro disco, acrescenta palavras de inconformismo e apresenta uma sonoridade mais encorpada, resultado do crescimento técnico e da experiência acumulada pelo grupo.
Na sequência, Bala na Agulha propõe uma reflexão sobre trabalho e dignidade. A música sintetiza uma característica fundamental do BaianaSystem: o corpo é levado ao movimento ao mesmo tempo que a letra chama atenção para situações de exclusão e sobrevivência.
Lucro (Descomprimindo), parceria de Russo Passapusso com o compositor e multi-instrumentista argentino Mintcho Garrammone, direciona o foco para a ocupação desordenada da cidade. A faixa aborda a exploração econômica e irresponsável do espaço público, responsável por modificar a paisagem da cidade com o único intuito de obter rentabilidade.
Depois dessa sequência, a instrumental Mercado abre espaço para a guitarra baiana assumir o primeiro plano. Sem depender da palavra, a faixa mantém o percurso urbano do disco e demonstra como Barreto utiliza o instrumento para criar tensão e movimento no corpo sonoro do ouvinte.
BaianaSystem e Duas Cidades: um álbum moldado nas ruas e nos palcos

Grande parte do repertório nasceu durante apresentações realizadas no Pelourinho, especialmente nas praças Pedro Arcanjo e Tereza Batista. Segundo Russo Passapusso, cerca de 70% do material desenvolvido para o álbum passou por esses shows, nos quais as músicas permaneciam abertas a improvisações e mudanças provocadas pela resposta do público.
A elaboração definitiva ocorreu quando a banda interrompeu temporariamente a rotina de apresentações para organizar o que havia acumulado. Os integrantes passaram aproximadamente um mês reunidos em um sítio no interior paulista, onde transformaram fragmentos, bases rítmicas e ideias testadas ao vivo em composições.
Daniel Ganjaman já havia trabalhado com Passapusso no período de preparação do disco solo Paraíso da Miragem, lançado em 2014. A aproximação continuou após uma apresentação do BaianaSystem em São Paulo e resultou em uma parceria que deu unidade ao novo projeto sem apagar sua imprevisibilidade.
O produtor percebeu na banda uma leitura transgressora das células rítmicas da música baiana. Seu papel foi organizar a abundância de referências, permitindo que todos os elementos musicais ocupassem o mesmo espaço sem transformar o trabalho em uma coleção desordenada de influências.
A faixa-título traduz esse equilíbrio ao observar as várias faces de Salvador, da cidade que trabalha àquela que festeja, do alto ao baixo e da ascensão social à capacidade de manter o samba no corpo. Márcio Victor, vocalista do Psirico, participa da percussão e reforça a presença do pagodão dentro da arquitetura sonora do álbum.
Em Playsom, a combinação se torna ainda mais expansiva, com batidas eletrônicas que se unem à energia do pagode e da linguagem de rua. A canção, que também contou com a participação de Márcio Victor, entrou na trilha do jogo FIFA 16 e foi a única representante brasileira naquela edição, ajudando a apresentar o BaianaSystem a um público internacional.
Dia da Caça retorna ao cotidiano de dificuldade financeira, persistência e disputa por espaço, enquanto aproxima a pulsação do grupo de referências ao carimbó. A faixa cresce até chegar a um trecho instrumental que evidencia a capacidade dos músicos de deslocar uma mesma composição por territórios diferentes.
A instrumental Cigano conta com a rabeca do pernambucano Siba e reforça o diálogo com outras tradições nordestinas. Em vez de aparecer como ornamento regional, o instrumento participa de uma trama rítmica contemporânea, feita para o movimento e aberta à experimentação.
Com as Ganhadeiras de Itapuã, Panela se aproxima da memória das comunidades populares e da rotina das mulheres responsáveis por sustentar práticas culturais, familiares e alimentares. A comida, o canto e o trabalho cotidiano surgem como patrimônios de uma Bahia que raramente ocupa o centro das narrativas.
Calamatraca acelera a mistura ao combinar ragga, percussão baiana e um refrão próximo da tradição do forró. A faixa mantém o sentido de urgência do disco, como se os sons disputassem passagem pelas ruas cheias e pelas vielas estreitas de Salvador.
Já Barra Avenida, Parte 2 retoma outra composição do primeiro álbum e incorpora aprendizados desenvolvidos nas apresentações. Referências africanas, eletrônica, dub, samba-reggae e sound system se encontram em uma faixa que preserva a memória do grupo enquanto aponta para suas transformações.
Carnaval, identidade visual e ocupação da cidade

O crescimento do BaianaSystem também esteve ligado à maneira como o grupo passou a ocupar o Carnaval de Salvador. Sem depender do modelo tradicional baseado em abadás, grandes patrocínios ou execução constante nas rádios, a banda reuniu multidões atrás do Navio Pirata, trio elétrico menor do que os veículos normalmente usados na festa.
Roberto Barreto interpretou aquela adesão popular como uma força surgida fora das estruturas habituais do mercado. A presença de milhares de pessoas acompanhando uma atração pouco conhecida pela televisão e ausente de parte da programação oficial demonstrava que outra relação com o Carnaval era possível.
Para o guitarrista, a festa interessava como acontecimento social, além de sua dimensão comercial. A rua funcionava como lugar de encontro, criação e disputa, justamente os elementos que seriam reorganizados dentro de Duas Cidades.
Em 2015, o então secretário estadual de Cultura, Jorge Portugal, apontou BaianaSystem e Igor Kannário como caminhos capazes de renovar o Carnaval baiano. Enquanto Kannário representava uma expressão direta das periferias, o BaianaSystem surgia como uma combinação antropofágica de tradições locais e referências estrangeiras.
A identidade visual criada por Filipe Cartaxo foi decisiva para fortalecer esse universo. Máscaras, cores, ilustrações e personagens ajudaram a construir uma narrativa coletiva na qual a banda nem sempre precisava aparecer de forma convencional.

A arte de Cartaxo acompanhou a evolução sonora e reforçou a atmosfera de bloco e intervenção urbana. Essa dimensão permitiu que o BaianaSystem fosse percebido não apenas como um conjunto musical, mas como um projeto que articulava som, imagem, Carnaval e debate político.
O encerramento com Azul confirma a recusa do grupo por soluções previsíveis. Depois de um percurso marcado por graves intensos, vozes, tambores e colisões rítmicas, o disco reduz a velocidade e deixa a guitarra baiana de Roberto Barreto praticamente sozinha, distante da explosão típica dos trios elétricos, como se simbolizasse o fim de mais um Carnaval.
Duas Cidades ocupa um lugar próprio em uma linhagem brasileira formada por obras como Selvagem?, dos Paralamas do Sucesso, Afrociberdelia, de Chico Science & Nação Zumbi, Lado B Lado A, de O Rappa, e Enxugando Gelo, de BNegão e os Seletores de Frequência. Como esses trabalhos, o álbum do BaianaSystem utiliza a mistura musical para observar um país desigual e em permanente tensão.
Dez anos depois de seu lançamento, o disco permanece como um dos registros mais consistentes da música brasileira produzida no século 21. Ao aproximar Salvador e Kingston do resto do Brasil, o BaianaSystem mostrou que as divisões das cidades também poderiam servir como pontos de partida para imaginar novas formas de ocupação.
BookmarkContinue lendo
Ventos acima de 100 km/h deixam rastro de destruição no RS
Ventos acima de 100 km/h e chuvas intensas atingiram o Rio Grande do Sul durante a madrugada desta segunda-feira (21), deixando mais de 890 mil consumidores...
Contrato de R$ 427 milhões liga “Turma do KN” a negócios de Vorcaro
Um contrato de advocacia que poderia render R$ 427 milhões em honorários aparece entre os documentos enviados pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal (STF) no...
Empresários suspeitos de desvio de R$ 700 mi de aposentados citam ajuda de ex-ministro de Bolsonaro
Empresários suspeitos de descontos ilegais de mais de R$ 700 milhões de aposentados citam, em vídeo divulgado nesta segunda-feira (21), terem recebido ajuda direta do ex-presidente...
Justiça proíbe “influenciador” Rico Melquíades de assédio eleitoral; indenização pode chegar a R$ 5 milhões
A 11ª Vara do Trabalho de Maceió (AL) acatou, no sábado (19), pedido do Ministério Público do Trabalho de Alagoas, e concedeu liminar para probir o...
Caso Milton Leite: arquivos, dinheiro e documentos desaparecem de escritório político
A Polícia Civil de São Paulo investiga o desaparecimento de HDs, equipamentos de gravação, documentos e dinheiro de um escritório político utilizado pelo ex-vereador Milton Leite,...
Você viu todas as matérias.
Não foi possível carregar. Toque para tentar de novo.





