Como Janones transformou um canal do whatsapp no terror da extrema-direita e na motivação da esquerda
Não sei se é possível afirmar com precisão, mas pode-se dizer que Janones, junto aos deputados da nova geração como Jones Manoel e Ana Elisa, superaram toda a campanha da esquerda nos últimos oito anos. A esquerda efetivamente tem ganhado nas redes mesmo contra os boicotes da META e as tentativas de censura promovida por Flávio Bolsonaro no TSE. Falando especificamente do grupo “Exército do Lula”, ele não apenas mobilizou, mas forçou o campo adversário a recorrer à via judicial para tentar conter um avanço que não consegue neutralizar politicamente
A tentativa de censura expôs o desespero da extrema-direita que apelou para vídeos forjados com nordestinos e pedido para que artistas simpáticos a eles se manifestassem O resultado acabou funcionando como um catalisador para o crescimento do canal de apoio ao Lula, que já tem 8 milhões de seguidores.
A esquerda, historicamente em desvantagem na competição digital no Brasil, encontrou no “Exército do Lula” uma ferramenta de engajamento com escala e capilaridade inéditas. O que o Janones está fazendo não tem precedente no Brasil se tratando de esquerda .
O canal mostrou uma capacidade de coordenação de ações impressionante. A “missão” que convocou apoiadores a publicar fotos com verde e amarelo e o gesto do “L” teve adesão do próprio Lula, da primeira-dama e do vice-presidente, além de artistas consagrados de todas as áreas, influenciadores e cidadãos de todo país. Trata-se de uma infraestrutura de mobilização que a campanha oficial não havia construído, e que parlamentares do PT reconheceram como o “norte” que a militância esperava . Uma pesquisa Quaest mostrou que 18% dos eleitores de Lula declaravam estar fazendo campanha ativamente, contra 11% dos eleitores de Flávio, um diferencial de engajamento que dialoga diretamente com a estratégia de Janones.

Uma ironia interessante é que a campanha de Flávio pediu a suspensão do canal alegando disseminação de desinformação, e o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, atendeu ao pedido em caráter liminar no dia 11 de outubro . Logo um bolsonarista falando de desinformação. No mesmo dia, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, derrubou a censura, restabelecendo o canal e encaminhando o caso ao plenário . Um relatório técnico do TSE, divulgado em seguida, informou que não foram encontradas, nas publicações disponíveis entre 2 e 11 de outubro, reproduções das afirmações questionadas no processo.
O efeito prático foi o oposto do pretendido. Janones classificou a medida como “censura” e transformou a suspensão em combustível para a mobilização. A narrativa de perseguição judicial, que a extrema-direita costumava usar com eficácia, foi invertida e serviu para energizar a base lulista. Flávio Bolsonaro, que construiu sua candidatura sobre a imagem de domínio das redes, viu-se na posição de pedir que o Judiciário fizesse o que sua militância não conseguia fazer: conter o avanço adversário.
O “Exército do Lula” representou uma virada tática na capacidade da esquerda de disputar o ambiente digital, e a tentativa de censura, ao fracassar e produzir efeito contrário, confirmou a eficácia da iniciativa. A esquerda não apenas ocupou um espaço que antes lhe era hostil, como obrigou o adversário a mudar de terreno, indo da disputa política para a disputa judicial.
A esquerda aprendeu algo com Janones e a direita demonstrou temer o que está construindo.
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