Dados expõem rotina de guerra em favelas do Rio ao longo de uma década
O monitoramento independente da violência no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, revela um cenário persistente de operações policiais com alto impacto sobre a população local. Levantamento do projeto De Olho na Maré aponta que, entre 2016 e 2025, foram realizadas 231 incursões policiais nas 15 favelas da região, resultando em 160 mortes e mais de 1,5 mil registros de violações de direitos, incluindo episódios de agressões, ameaças e restrições ilegais à liberdade.
Os dados integram a nova edição do boletim sobre segurança pública produzido pela organização Redes da Maré, que acompanha há uma década os efeitos das ações armadas no território. Além da violência direta, o estudo chama atenção para as consequências sobre serviços básicos.
Ao longo do período analisado, operações interromperam atividades escolares por 163 dias, o equivalente à perda de quase um ano letivo para crianças e adolescentes. Na saúde, apenas em 2024, o fechamento de unidades por duas semanas impediu milhares de atendimentos.
Mesmo com redução no número de operações em 2025, a letalidade aumentou proporcionalmente. Foram 16 ações policiais no ano, com 12 mortes, índice superior ao registrado no ano anterior, quando houve mais incursões, mas menor número de óbitos por operação. O levantamento indica uma mudança no padrão: ações menos frequentes, porém mais intensas e com maior uso de armamento pesado.
Outro ponto crítico é a fragilidade das investigações. Das 160 mortes registradas no período, apenas uma resultou em denúncia formal, e a realização de perícia foi exceção. O relatório também destaca o uso recorrente de helicópteros, inclusive com registros de disparos em áreas próximas a escolas e unidades de saúde.
A Polícia Civil afirmou que atua com base em planejamento técnico e inteligência, sustentando que todas as ocorrências são apuradas dentro dos protocolos legais. Já a Redes da Maré defende que os dados produzidos no território podem contribuir para a formulação de políticas públicas mais eficazes e menos letais.
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